publicado dia 16/06/2020

A importância de acolher os professores na volta às aulas presenciais

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Os professores estão desempenhando papel central na viabilização do trabalho pedagógico remoto e na criação de estratégias que mantenham o vínculo entre escola, família e estudantes durante a pandemia. Além de se desdobrar para aprender a lidar com as tecnologias, a repensar as formas de trabalho, enquanto lidam com questões pessoais em casa, cuidando da família, gerenciando uma nova rotina, e enfrentando perdas, incertezas e angústias. Mas todo esse trabalho pode ter consequências para a saúde mental dos professores.

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“Agora, mais do que nunca, precisamos cuidar do impacto emocional que a pandemia trouxe para os educadores: vários deles têm relatado sofrer crises de ansiedade, por exemplo”, afirma Karla Nascimento, Secretária de Educação de Açailândia, município maranhense.

Mesmo antes da pandemia, a saúde mental dos professores já era preocupante. Dos cinco mil docentes que participaram de uma pesquisa realizada pela Nova Escola em 2019, 60% se queixam de sintomas de ansiedade, estresse e dores de cabeça, e 66% já sofreram com fraqueza, incapacidade ou medo de ir trabalhar. Dos entrevistados, 87% acreditam que os problemas de saúde são decorrentes ou intensificados pela profissão.

Tathyana Gouvêa, uma das criadoras da plataforma Educovid.org que, desde abril, já promoveu a escuta de mais de 600 educadores, relata que também percebe um agravamento na saúde mental dos profissionais da Educação. 

“Os professores também estão perdendo parentes e colegas de trabalho, com o agravante de que não têm conseguido exercer sua profissão como gostariam e como sabem fazer. Isso gera muita frustração, mesmo entre aqueles que já dominavam a tecnologia. Há, ainda, uma tensão sobre como retomar as aulas na pós-pandemia”, descreve.

Levando em consideração esse cenário, a Secretaria de Educação de Açailândia disponibilizou os psicólogos da rede para atender os professores durante a pandemia. “E antes de fazer novas exigências desses profissionais, ou de retomar os trabalho presenciais, precisamos acolhê-los e ter sensibilidade e cautela para conduzir qualquer diálogo. Do contrário, é só desumano”, diz Karla. 

Caminhos para acolher os professores

Nas escutas e conversas com os educadores que participaram do projeto Educovid, Tathyana encontrou duas estratégias que têm funcionado para promover o cuidado e bem-estar dos professores. 

A primeira delas é que escolas e redes verdadeiramente apoiem e escutem os professores em suas dificuldades, processos e planejamentos. E a outra é a criação de espaços para atividades e reflexões agradáveis, como grupos de WhatsApp entre os professores para conversar e realizar algo juntos, como atividades físicas um alívio para a solidão que o isolamento social pode trazer.

“Logo na chegada, quando vai falar de um planejamento, vale fazer esse primeiro momento de reconhecimento da realidade daqueles professores: Alguém da escola faleceu? Estão em luto? Como foi esse período para eles? Só então é possível criar estratégias específicas, para não tratar de forma homogênea quem está vivendo realidades extremamente diversas”, recomenda Tathyana.

A atenção aos estudantes

Acolher os estudantes é outra estratégia importante para apoiar os professores, e isso passa por disparar conversas sobre o que eles esperam em relação ao retorno às aulas presenciais, garantir que tenham espaço para compartilhar como foi o período de isolamento social, e que possam ter essas conversas tanto em grandes grupos quanto em rodas menores ou até individuais.

Açailândia, por exemplo, convidou profissionais do Conselho Tutelar e da Saúde para participar da elaboração das estratégias de acolhimento e diagnóstico dos estudantes na volta à escola.

“Precisamos considerar se o estudante conseguiu falar com o professor, mas também como foi a alimentação, a rotina e o relacionamento com a família nesse período, porque sabemos que boa parte dessas crianças são impactadas por outros problemas. Então a partir do que elas trouxerem nós vamos nos reorganizar”, explica a secretária de Educação.

A rede também já tem conduzido conversas com os educadores para sensibilizá-los em relação aos problemas e à vulnerabilidade social que se agravou nos últimos meses, para que, no retorno, eles também possam priorizar o acolhimento em lugar de recuperar conteúdos curriculares. “Não podemos aumentar mais essa diferença de aprendizagem, mas também não podemos fazer com que as crianças se sintam desconsideradas em sua integralidade”, defende Karla.

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