publicado dia 25/09/2026

Avaliação, democracia e qualidade educacional mobilizam Educação Integral em Debate 2026 

Reportagem: | Edição: Tory Helena

🗒️Resumo: Discussões sobre avaliação, democracia e qualidade na Educação marcaram o segundo dia do Seminário Educação Integral em Debate 2026, realizado em 24 de setembro pelo Centro de Referências em Educação Integral. 

O que as avaliações e instrumentos utilizados no Brasil revelam ou ignoram sobre a qualidade do ensino nas escolas públicas? A avaliação na perspectiva da Educação Integral foi o centro da mesa de discussão realizada pelo Seminário Educação Integral em Debate 2026. 

O encontro aconteceu em 24 de setembro e foi transmitido ao vivo pelo Centro de Referências em Educação Integral no YouTube. 

Com mediação de André Lázaro, especialistas e representantes da sociedade civil refletiram sobre qualidade, democracia e avaliação na perspectiva da Educação Integral. 

Diretor de Políticas Públicas da Fundação Santillana e parte do Coletivo Articulador do Centro de Referências em Educação Integral, André Lázaro abriu o evento com uma história que vivenciou durante uma Conferência Escolar Indígena, em São Gabriel da Cachoeira (AM), que sintetiza os atuais conflitos em torno das avaliações externas e seus usos.

“Durante a conferência, um professor indígena perguntou: ‘Por que temos direito a ensinar na língua materna, mas a prova [de avaliação externa] é em Português? Vocês estão querendo provar que as escolas indígenas são as piores escolas?’”, relatou André.

Mesa 2 do Educação Integral em Debate 2026 com André Lazaro, Lucia Santos, Elie Ghanem, Giovani Rocha e Tereza Perez
Educação Integral em Debate 2026: mesa recebeu André Lazaro, Lucia Santos, Elie Ghanem, Giovani Rocha e Tereza Perez para discutir avaliação, qualidade e equidade.

A mesa “Qualidade, democracia e avaliação na perspectiva da Educação Integral” contou com a participação de Elie Ghanem (Ashoka Brasil e FEUSP), Giovani Rocha (Iniciativa Equidade para Aprender), Lúcia Santos (EMEF Waldir Garcia) e Tereza Perez (Roda Educativa).

Assista na íntegra:

O Ideb antes e agora

Para iniciar o debate, Tereza Perez, diretora-presidente da Roda Educativa, retomou o histórico do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Brasileira), que nasceram como instrumentos de gestão para identificar onde seria necessário mais investimentos e políticas.

“O Saeb tem um valor grande porque levou a Educação para um debate nacional e evidenciou as desigualdades. Mas esse uso foi sendo muito deturpado ao longo do tempo […] Passou a ser instrumento de ranqueamento, fraude e simulado”, disse a especialista.

Depois, a divulgação e o uso de seus resultados também foram distorcidos e passaram a ser lidos como sinônimo de qualidade da Educação, deixando de fora outras dimensões fundamentais. “Não capta nada do território, os estudantes que estão fora da escola, outras competências e áreas do conhecimento e a riqueza cultural do país”, apontou Tereza.

Outros usos para o Ideb

Hoje a EMEF Prof. Waldir Garcia, em Manaus (AM), possui nota 8,3 no Ideb 2025 para os anos iniciais do Ensino Fundamental. Mas nem sempre foi assim. Em 2015, a nota era 3,5.

Com a chegada do programa Mais Educação, a escola teve a oportunidade de refletir sobre a Educação Integral, já que o programa nacional previa não apenas a ampliação da jornada escolar, mas a transformação de toda a escola, junto ao que seria necessário mudar para garantir a aprendizagem de todas as crianças.

“Sentamos para avaliar e estudar, fazer processo formativo em serviço, buscar soluções coletivas para promover aprendizagens, inclusive junto com famílias e funcionários”, contou Lúcia Santos, gestora da escola, durante o evento.

O grupo identificou, entre outros fatores, que o índice de reprovação era alto porque tinham muitos estudantes imigrantes que falavam espanhol e criolo.

“Reescrevemos nosso PPP e fizemos adequações pedagógicas para ressignificar o currículo e contextualizá-lo ao território, às culturas e interesses dos estudantes. Também rompemos com a reprovação e com as padronizações”, afirmou a gestora.

Os estudantes passaram a aprender por meio de roteiros de estudo personalizados, que respeitam os diferentes ritmos e modos de aprendizagem. A avaliação passou a ser multidimensional, formativa, processual e com foco na aprendizagem.

A gestão democrática tomou conta de cada processo da escola. E foram formados grupos de responsabilidade e de tutoria para promover a escuta atenta a cada criança.

Como consequência, a nota no Ideb mais do que dobrou em uma década, sem que para tanto fosse preciso treinar os estudantes para as provas. E a aposta em produzir diagnósticos e soluções a partir do chão da escola se mostrou acertada.

“A escola precisa ser respeitada em sua autonomia pedagógica e na produção de conhecimento, reconhecendo docentes como profissionais que pensam e pesquisam. Ela não pode ser só executora”, disse Lúcia.

O que é uma escola de qualidade?

Os significados de uma escola de qualidade variam. Para estudantes, pode ser um lugar animado, onde se quer estar. Para as famílias, um lugar seguro para deixar seus filhos. Para os professores, onde é possível ensinar conhecimentos com sucesso.

É o que disse Elie Ghanem, representante da Ashoka Brasil e professor na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), durante o seminário.

“Os índices têm sua importância, mas temos que reconhecer que é restrito. E a Educação Integral se opõe justamente porque ela contempla muitas das características da vida humana”, afirmou o educador.

Ele também destacou que as avaliações não consideram as condições de ensino e aprendizagem ofertadas, as subjetividades dos indivíduos e sua formação sociopolítica.

Junto a isso, há desconsideração pelos esforços de realizar avaliações locais, “que envolvem os professores e professoras como agentes desse processo avaliativo, que qualifiquem os profissionais para fazer essa avaliação, junto com estudantes também como agentes de seus processos e resultados”, disse Elie.

Qualidade e equidade são indissociáveis na Educação Integral

“Como avaliar uma escola que aumenta o tamanho do sonho de alguém?”, começou Giovani Rocha, economista e cofundador da Iniciativa Equidade pra Aprender, ao contar sobre sua própria experiência com a escola que o fez sonhar mais longe.

“Tem uma parte que dá para medir, mas tem outra que está ali nos vínculos, nos repertórios, na participação. Nenhum indicador vai medir tudo, ele mede uma parte. E o tamanho do sonho do Brasil para a Educação não cabe de 0 a 10”, disse o especialista.

Para Giovani, aumentar a média da nota em índice como o Ideb significa pouco, porque é preciso esmiuçar o dado. “Melhoramos a Educação. Mas para quem? Em quais territórios? A equidade vai ser o caminho para olhar as dinâmicas que estão por trás dessas notas”, afirmou.

Esse é um debate que abre diversos caminhos para refletir sobre por que essa desigualdade existe, quais oportunidades e apoio os estudantes recebem, as barreiras que encontram para permanecer na escola e as expectativas que os educadores têm sobre eles.

“São debates muito mais complexos”, disse Giovani. A partir deles, continua, é preciso considerar a equidade no funcionamento diário da escola e da Secretaria de Educação, e em todas as dimensões da política educacional.

“Para quem o tempo integral se expande? Quais escolas recebem mais apoio? Como as pessoas são formadas para agir quando não identificam equidade? Quem acessa, permanece e aprende na escola? Precisamos de um olhar menos do ponto de vista dos economistas e mais do ponto de vista dos educadores”, finalizou.

Educação Integral em Debate 2026 e o papel da escola no mundo de hoje

O primeiro dia do Seminário Educação Integral em Debate 2026 deu voz aos desafios, anseios e considerações de estudantes de escolas com projetos sintonizados com a Educação Integral. A abertura foi conduzida pelo gestor do Centro de Referências em Educação Integral, Fernando Mendes, e mediada pela educadora Gina Vieira Ponte.

A mesa “Reencantar a escola o lugar da Educação Integral no contexto atual” contou com a participação de Débora Fonseca, que foi estudante de uma escola quilombola na rede municipal de Mirinzal (MA), e Isabella Kuroki, aluna da rede municipal de São Paulo (SP), acompanhada da professora Lu Azevedo.

Assista abaixo:

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