publicado dia 29/06/2026
Educação de Jovens e Adultos (EJA): em retração, modalidade é fundamental para o Direito à Educação
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 29/06/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒️ Resumo: Conheça histórias de estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), entenda o efeito do racismo estrutural e das desigualdades para a exclusão escolar e como as escolas e as políticas públicas podem atuar para acolher e garantir o Direito à Educação para todas as pessoas.
José Pedro Santos acorda às 5 horas da manhã e só volta para casa às 23h. Aos 62 anos, está no segundo ano do Ensino Médio na Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Colégio Santa Cruz, em São Paulo (SP). “Temos que correr em busca do tempo perdido. O estudo me fez muita falta, perdi muitas oportunidades”, relata.
Com 33 anos, Pollyana Almeida Aguiar conta que interrompeu os estudos na adolescência, para trabalhar e ajudar a mãe e as irmãs. Depois, já adulta, foi impedida de estudar pelo ex-companheiro. “Eu era impedida [de ir para a escola]. Era um relacionamento abusivo”, relembra ela, que hoje cursa o Ensino Médio na EJA.
José Pedro e Pollyana são parte de um contingente de 2,2 milhões de jovens, adultos e idosos que tiveram o Direito à Educação negado, mas voltaram aos bancos escolares graças à EJA.
A modalidade, pensada para aqueles que não concluíram a Educação Básica, é frequentemente vista como não-prioritária, atende principalmente pessoas negras e trabalhadoras e convive com desigualdades educacionais históricas.
Dados do último Censo Escolar mostram retração nas matrículas na EJA, apesar de quase metade da população acima dos 25 anos não ter concluído o Ensino Médio.
Em entrevista à Revista Pesquisa Fapesp, a especialista Maria Clara Di Pierro avalia que a redução de estudantes na EJA tem explicação multifatorial, incluindo ausência de políticas de busca ativa, modelo escolar que reproduz a lógica da Educação Infantil, formação insuficiente de professores para atuar com estudantes adultos e falta de mobilização coletiva em prol da modalidade.
Docente na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Jacyara Silva de Paiva explica que o racismo estrutural é um componente importante da exclusão escolar no Brasil.
“Não é a população negra que fracassa na escola, é a escola brasileira que fracassa historicamente com a população negra ao não enfrentar o racismo estrutural”, afirma a professora.
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Para ela, isso aparece nas violências cotidianas, no silenciamento, na baixa expectativa sobre estudantes negros e na falta de representatividade nos currículos, apesar da Lei 10.639/2003. “As crianças negras crescem ouvindo direta ou indiretamente que a escola não foi pensada para elas”, aponta.
A educadora recorre à trajetória da própria mãe como ilustrativa.
“Ela tem 86 anos hoje e se formou em Pedagogia aos 65, era a pessoa mais idosa da sala dela. Quando ela era criança, vendia jornal de madrugada, estudava às 7 horas da manhã e acabava dormindo na aula. Até que uma professora disse que ela deveria deixar a escola porque ela não tinha condições de aprender. Era a década de 1940, ela, uma menina preta retinta, num tempo em que a escola ainda não era obrigatória. O que assombra é o quanto essa engrenagem ainda funciona em 2026”, conta.
“A desigualdade racial exclui crianças e adolescentes negros do direito pleno à Educação cada vez mais cedo, e as políticas de permanência precisam alcançar especialmente as mulheres negras que conciliam os estudos com a maternidade. São pessoas que carregam histórias de luta e de resistência. Não são pessoas atrasadas, mas sujeitos que tiveram seus direitos negados”, diz Jacyara.
José Pedro perdeu a mãe aos 2 anos e foi criado por outra família. Desde cedo, aprendeu que precisaria lutar dobrado para chegar aos mesmos lugares que os demais. Estudou no máximo até os 7 anos, quando foi tirado de um colégio interno depois que uma professora o acusou de derrubar de propósito um castelo de blocos de madeira. Foi puxado pela orelha, levado para fora da sala e trancado num quartinho escuro. “A diretora disse que eu era arteiro demais”, rememora.

José Pedro Santos, estudante do Ensino Médio na EJA.
Crédito: Acervo pessoal
“Eu sou um homem negro. Quando chego nos lugares, as pessoas me olham da cabeça aos pés. E eu achava que eu tinha que ser melhor do que fulano. Mas por que eu teria que ser melhor do que alguém?”, indaga.
Mais tarde, chegou a São Paulo (SP) sem documento nenhum, foi acolhido por conhecidos, carregou compras em feiras, fez jardinagem, dirigiu caminhões e foi segurança. Só voltou aos estudos depois dos 55.

Pollyana Almeida Aguiar conta sua história para incentivar outras mulheres a voltar a estudar.
Crédito: Acervo pessoal
Já no caso de Pollyana, a ruptura veio na adolescência e ganhou outra camada para além da racial: a de gênero. Nascida no norte de Minas Gerais, saiu de casa aos 15 para morar com a irmã, empregada doméstica em São Paulo, com a intenção de estudar e melhorar de vida.
Chegou a cursar quase todo o ciclo, mas precisou parar em 2013, porque trabalhava para ajudar a mãe e as irmãs em Minas, morava longe, saía de casa às 4h e voltava à meia-noite, e adoecia. Quando tentou retornar à escola, encontrou um obstáculo dentro de casa. “Meu marido falava que não precisava, que ele me sustentava e não precisava estudar nessa idade.”, relembra.
Em março, o Ministério da Educação (MEC) lançou o Cadastro da Educação de Jovens e Adultos (CadEJA), instituído pela Portaria MEC nº 275/2026. Pela plataforma, qualquer pessoa com 15 anos ou mais pode registrar o interesse em voltar a estudar, e o sistema orienta sobre escolas próximas com vagas.
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Outra iniciativa federal é o Pé-de-Meia, incentivo financeiro à permanência de estudantes de 14 a 24 anos no Ensino Médio regular e de 19 a 24 anos na EJA, na rede pública.
Para Jacyara, toda política que fortalece a EJA importa, já que, historicamente, a modalidade é tratada como secundária.
“Mas o investimento não pode ser um fim em si mesmo. Precisa vir acompanhado de políticas estruturantes, financiamento adequado e valorização docente. Não basta garantir a matrícula. Não basta que o estudante negro e pobre entrem [na EJA]”, defende.
Para que jovens e adultos possam acessar e permanecer na escola, é preciso atenção especial a tudo que acontece fora daquele espaço. Pollyana conta que isso foi determinante para continuar na escola. Uma noite, já no portão de entrada, seu celular tocou e a vizinha, que cuidava de seus filhos, avisou que o ex-companheiro havia revirado sua casa e ameaçava levar as crianças embora sob acusação de ser uma “péssima mãe” por deixar os filhos para ir estudar.
Em vez de ir embora, atravessou o portão e correu para a Assistência Social da escola. “Ela falou para mim que eu sou capaz, que não ia desistir e ia conseguir ir atrás dos meus objetivos, dos meus sonhos. Foi aí que eu respirei fundo, me acalmei e consegui forças para continuar estudando”, conta.
A situação foi o oposto do que viveu em 2013, quando avisou à secretaria da escola que não voltaria mais. “Eu chorava horrores, não queria sair da escola. Mas ninguém nem quis saber o motivo, não tive nenhum retorno e ninguém me procurou. Por isso a busca ativa é tão importante”, defende Pollyana.

“Quando jovens, adultos e idosos voltam para a escola, não estão dando uma nova chance para eles mesmos, estão dando uma nova chance para a escola”, diz a professora Jacyara Silva de Paiva.
Crédito: Agência Brasil
José Pedro também descreve mudanças importantes no trabalho pedagógico que fazem a diferença para que ele permaneça na escola. “Os professores são bons, se adequam à gente, à nossa realidade. Eles colaboram e são atenciosos. E temos trocas muito boas entre todos os colegas”, diz.
“Quando jovens, adultos e idosos voltam para a escola, não estão dando uma nova chance para eles mesmos, estão dando uma nova chance para a escola mostrar que pode ser diferente”, afirma Jacyara.
Para a especialista, a garantia de direitos, o olhar integral para os sujeitos, não apenas para a dimensão cognitiva, e um trabalho pedagógico contextualizado, deveriam pautar toda a trajetória escolar das pessoas, desde a Educação Infantil, e não apenas a EJA.
“As escolas precisam ser um espaço antirracista, de acolhimento, com um currículo que dialoga com o território e reconhece os saberes produzidos por essa comunidade”, descreve.
Agora, José Pedro quer prestar um concurso na área de segurança, onde já trabalhou. Já Pollyana quer terminar os estudos e diz ter certeza de que voltar para a escola foi a melhor decisão da vida.
“Faço questão de contar a minha história por causa de outras mulheres na mesma situação que eu estive e também de pessoas negras e da periferia. Quero que elas saibam que é possível voltar a estudar”, resume.