publicado dia 04/04/2025
Adolescência: como prevenir a radicalização dos meninos?
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 04/04/2025
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒 Resumo: Especialistas explicam como os discursos de ódio contra mulheres chegam em crianças e adolescentes e os caminhos para enfrentar o cenário de radicalização e violência, abordado pela série ficcional Adolescência (Netflix, 2025).
Antes de um menino cometer uma violência física, incentivado por discursos de ódio em fóruns e redes sociais masculinistas, como os redpills e incels, há uma série de etapas que ele percorre e de indícios de que a situação se agrava, o que dá a oportunidade de adultos intervirem.
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O cenário de radicalização extrema de crianças e adolescentes ganhou atenção com o sucesso da minissérie Adolescência (Netflix, 2025). Na história – que é ficcional, mas conectada com angústias contemporâneas – um menino de 13 anos é acusado de assassinar uma colega de classe.
A investigação da trama – que envolve cyberbullying e machismo – revela o impacto da amplificação de discursos de ódio contra mulheres para os meninos via redes sociais, além de jogar luz nas vulnerabilidades e falhas de familiares, professores e instituições envolvidas.
A repercussão de Adolescência extrapolou as telas: a produção será exibida gratuitamente em escolas do Reino Unido, além de inspirar rodas de conversa e projetos em escolas.
A identificação do processo retratado pela série não passa por estigmatizar meninos mais reservados ou que adotam determinada estética. Ao invés disso, é preciso observar principalmente comportamentos agressivos contra mulheres, já que a principal característica destes grupos masculinistas é o ódio indiscriminado a todas as mulheres, conhecido como misoginia.
“O que estes grupos fazem é aproveitar essa fase da vida em que há uma busca por um pertencimento no mundo e acolher estes meninos, dialogar com eles”, explica Lola Aronovich.
“A misoginia é a porta de entrada e, diferentemente de um machista genérico, para quem a mãe ainda presta, para um masculinista essa raiva é direcionada a todas as mulheres. Estamos vendo crianças de 11, 12 anos, cada vez mais cedo, xingando e sendo abertamente misóginos, então este é um ponto de atenção fundamental’, orienta Lola Aronovich, professora na Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em feminismo, política e mídia.
Os discursos misóginos geralmente vêm acompanhados de racismo, LGBTQIAP+fobia, gordofobia, capacitismo, entre outras violências, porque a hierarquização das diferenças faz parte da lógica que fundamenta estes grupos redpill ou incel.
A regulamentação e responsabilização das redes sociais são fundamentais para conter a propagação de discursos de ódio
Crédito: iStockphoto
“Os discursos de violência localizam quem são os outros, que merecem o discurso de ódio, e se reafirmam como superiores e universais. Nego Bispo explica isso, como discursos que buscam a vida mono, onde não cabe a diversidade, só cabe o homem branco heterossexual, uma identidade que hoje está frustrada por causa das legítimas conquistas de direitos por parte de outros grupos”, explica Thales Vieira, co-diretor executivo do Observatório da Branquitude.
Outra característica destes grupos é sua estreita relação com a extrema-direita. “Em todos estes anos, nunca vi um masculinista de esquerda, porque nessas comunidades é forte o ódio à esquerda e tudo que é ligado a ela, como a defesa das diversidades e Direitos Humanos, além de eles serem muito bem organizados nas redes sociais”, diz Lola.
A ascensão ao poder de figuras que perpetuam estes discursos na última década, combinada ao incentivo ao porte de armas de fogo e à falta de regulamentação e responsabilização das redes sociais pela livre circulação desses conteúdos, criou o cenário ideal para a proliferação destes discursos de ódio e sua incidência sobre crianças e adolescentes.
“O que estes grupos fazem é aproveitar essa fase da vida em que há uma busca por um pertencimento no mundo e acolher estes meninos, dialogar com eles, usando uma máscara social para isso, porque não se trata de um acolhimento verdadeiro, mas de uma manipulação para encorajá-los a praticar violências por meio dessa falsa aprovação”, explica Lola.
As redes sociais desempenham papel central na radicalização de meninos e adolescentes e a regulamentação e responsabilização das plataformas digitais é urgente, explicam os especialistas.
“É raro que a cooptação aconteça fora das redes, então precisamos avançar nessa discussão, o que não está acontecendo como deveria”, afirma Lola, que também integra o Grupo de Trabalho criado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania para combater o ódio, o extremismo e as fake news no Brasil.
A especialista também reforça a importância da atuação da polícia no monitoramento das redes. “Nos últimos anos o Brasil se especializou muito nisso, tanto que vimos uma redução nos casos de ataques às escolas, por exemplo”, relembra.
Em abril de 2024, o governo federal instituiu o Sistema Nacional de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas (Snave) para produzir estudos sobre violência contra escolas e divulgar medidas eficazes em seu combate. “É fundamental a produção de dados com frequência, fluxo e controle para poder gerar políticas públicas adequadas”, diz Thales.
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As escolas também precisam receber condições para ofertar uma Educação de qualidade, para que os professores tenham como acompanhar de forma mais próxima cada um dos estudantes.
“Os professores também precisam de proteção, porque vimos uma reação forte da extrema direita e de parlamentares incentivando a denúncia de professores que colocam em sala de aula assuntos ligados a Direitos Humanos”, lembra Thales.
“É preciso construir uma convivência cidadã e democrática na escola, em que os alunos de fato sejam ouvidos”, aponta Thales Vieira.
As escolas também podem orientar as famílias sobre como dialogar e acompanhar o uso das redes sociais pelas crianças e adolescentes. “Se está sofrendo ou praticando bullying, muito obcecado por serial killers e histórias de crimes reais, são sinais de alerta”, diz Lola.
A educação em Direitos Humanos também contribui para desarticular a lógica masculinista, já que ensina sobre equidade e valorização das diferenças, no lugar de sua hierarquização.
Mas para que isso seja efetivo, os estudantes precisam encontrar na escola um ambiente coerente. “É preciso construir uma convivência cidadã e democrática na escola, em que os alunos de fato sejam ouvidos”, aponta Thales.
Rodas de conversa sobre estes temas também ajudam os adultos a conhecerem melhor os estudantes. “Chamar adultos especializados para conduzir conversas, explicar o problema e ouvir o que os alunos estão pensando é essencial. Mas se notarem que a radicalização já aconteceu e se trata de uma ameaça, aí é preciso acionar a polícia”, diz Lola.