publicado dia 17/11/2017

Escolas ativas defendem a importância do corpo para a aprendizagem

por

Qual o lugar do corpo na educação que praticamos atualmente? Como os alunos, enfileirados em suas carteiras, podem adquirir consciência corporal e aventurar-se pela descoberta dos movimentos para um desenvolvimento integral?

Essa necessidade de um reconhecimento pedagógico do corpo e da disseminação da importância da atividade física e esportiva no cotidiano escolar foram tema do Seminário Escolas Ativas, realizado pelo Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento (PNUD), com apoio da Nike, nesta sexta-feira 17, em São Paulo.

Leia + Escolas mostram como a Educação Física pode ser inclusiva e abraçar a diversidade

O evento também marcou o lançamento do site Escolas Ativas e do primeiro relatório Movimento é vida: atividades físicas e esportivas para todas as pessoas, que traz em suas quase 400 páginas um estudo detalhado sobre o conceito de escola ativa e do cenário contemporâneo das atividades físicas e esportivas na sociedade.

Cenário

A ação parte de dados preocupantes: 3,2 milhões das mortes anuais mundo afora são atribuídas a insuficiência de atividade física, colocando o sedentarismo como o quarto maior fator de risco de mortalidade.

Nesta perspectiva, a escola assume um papel crucial para a tomada de consciência. No Brasil, 48% da população inicia uma prática esportiva na escola, com o incentivo de um professor, entre os 6 e 10 anos.

Diante deste potencial, Alice Gismonti, diretora de impacto global para a América Latina da Nike, destacou: “uma escola que entende o movimento como ferramenta de aprendizagem pode oferecer uma chance a mais para essa criança se desenvolver integralmente”.

Gabriel Vettorazzo, do PNUD, abordou ainda a questão do direito à atividade física e esportiva e a democratização do acesso a ela. “Precisamos garantir a participação da comunidade escolar e do entorno. As escolas ativas não proporcionam só para o aluno a possibilidade de mover-se, mas para toda a comunidade. O aluno deve ter seu contexto inserido nesse processo”, disse.

Por uma Educação Física inclusiva

Outra preocupação do projeto diz respeito a garantir a inclusão de todos os estudantes. No Brasil, há 30 milhões de pessoas com deficiência. Destas, apenas 0,4% concluem o Ensino Médio. Além disso, dois terços das crianças fora da escola têm algum tipo de deficiência.

Diante deste quadro de exclusão, o Instituto Rodrigo Mendes desenvolveu o Projeto Portas Abertas para a Inclusão – educação física inclusiva, em parceira com a UNICEF e a Fundação FC Barcelona.

O trabalho consiste em encontrar, em cada escola, as barreiras que impedem a participação das crianças com deficiências nas atividades físicas e esportivas, mobilizando a comunidade escolar para superá-las.

Com atuação em 16 municípios brasileiros, a iniciativa já impactou quase 92 mil estudantes desde 2012.

“A Educação Física sempre foi o lugar mais excludente da escola, porque tende a só valorizar os mais fortes e velozes. Mas não queremos criar atividades físicas específicas para estes alunos, mas permitir que todos participem juntos, igualitariamente, de uma mesma atividade, seja ela um esporte, uma dança, uma peça de teatro”, explicou Alexandre Moreira Santos, do Instituto Rodrigo Mendes.

Implementando escolas ativas

O seminário reuniu ainda outras três experiências de formação para educadores no conceito de escolas ativas. Cada um à sua maneira, estes atores disseminam pelo Brasil a teoria e a prática de colocar as crianças para aprender em movimento e valorizar a disciplina e o docente de Educação Física.

A experiência do Instituto Esporte & Educação, que há 5 anos atua em 11 estados brasileiros conduzindo uma formação continuada para professores da rede pública, mostra que sensibilizar e inspirar para o movimento é eficaz.

“Tudo parte da pergunta: qual o lugar do corpo na escola?”, diz Fabio D’Angelo coordenador do projeto. “Ser criança é ser corpo em movimento, e essa linguagem corporal possibilita sua comunicação com o mundo”.

Em geral, todas as iniciativas têm início em parceria com a Secretaria de Educação do Município local e passam por um processo de diagnosticar os problemas e propor soluções duradouras que possam ser incorporadas ao projeto político-pedagógico das escolas.

Os desafios são também similares: como conquistar a comunidade escolar com a ideia de ensinar e aprender por meio do movimento? Como diagnosticar e resolver os entraves desta questão, muito ligados à forma tradicional de ensino? E como trabalhar o movimento de maneira interdisciplinar, para além das aulas de Educação Física?

Para Bia Lima, coordenadora de desenvolvimento institucional da Fundação Roberto Marinho, que trabalha em parceira com o Instituto Coca-Cola no projeto Geração Movimento, a solução veio por meio da união entre políticas públicas, escola e família.

“A partir disso conseguimos adotar o movimento corporal no dia a dia da escola. Não é fácil mobilizar, então precisamos saber vender essa ideia de forma envolvente, e ter muita atenção com a importância da interdisciplinaridade, de um movimento contextualizado e que faça sentido”, diz.

Juliana Soares, do PNUD, constatou nos resultados do Projeto Escolas e Comunidades Ativas, desenvolvido desde 2014, que não só os professores gostaram da interação entre conteúdo e movimento, mas principalmente as crianças.

“Isto porque alguns dos elementos-chave de uma escola ativa são a diversão, a conexão com o conteúdo, a interação com a Educação Física e que a escola dê tempo para o brincar”, concluiu.

Como trabalhar a igualdade de gênero na Educação Física?