publicado dia 01/09/2016

Diálogo entre família a escola deve começar antes de surgirem problemas

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Especialistas e educadores são unanimes no reconhecimento da importância da participação das famílias na educação integral dos estudantes. A realidade, no entanto, mostra que esse processo é complexo e requer estratégias para que esse direito seja efetivamente cumprido. O Centro de Referências em Educação Integral entrevistou a pesquisadora Susan Sheridan, da Universidade de Nebraska-Linconln (EUA), que apontou algumas estratégias que podem ser adotadas para fortalecer esse vínculo.

Para Susan, o primeiro passo é localizar que o objetivo central da escola e da família é o pleno desenvolvimento do estudante

Para Susan, o primeiro passo é localizar que o objetivo central da escola e da família é o pleno desenvolvimento do estudante

Para a docente, o primeiro passo é localizar que o objetivo central da escola e da família é o pleno desenvolvimento do estudante.  Nesse sentido é necessário traçar metas coletivamente em um diálogo que seja produtivo e garanta a elaboração de estratégias. Nesse sentido, é preciso que pais ou responsáveis e a escola parem de apontar culpados por eventuais problemas das crianças e se entendam como parceiros no processo.

“O mais importante que podemos fazer para envolver os pais de uma maneira significativa e para criar conexões entre a escola e casa do estudante é estar disposto a baixar um pouco a guarda e fazer as perguntas que realmente importam: como criar um ambiente propício para o ensino? O que a criança, a escola e a família pensam sobre o futuro? Quais desafios existem?”, afirmou a professora durante o 113° Seminário Internacional de Avaliação Econômica – A relação entre família e escola nas políticas educacionais promovido pela Fundação Itaú Social em parceria com o jornal Valor Econômico.

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Conheça a metodologia que envolve familiares diretamente na aprendizagem dos estudantes

Segundo a especialista norte-americana, outro elemento importante para fortalecer o vínculo entre escola e família é compreender que essa conversa é necessária e deve ocorrer a todo momento e não apenas quando os pais ou professores percebem algum problema no desenvolvimento dos estudantes. Dessa forma é possível criar um ambiente de diálogo permanente e um ambiente educativo mais acolhedor.

“A relação da família com a escola deve começar bem antes das crianças apresentarem problemas acadêmicos ou de comportamento. Porque, quando não existe um problema, a comunicação flui muito mais fácil. Se nós conseguirmos criar um plano consistente antes dos problemas ocorrerem, as chances dos resultados serem melhores é grande”, afirmou Susan.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Centro de Referências: Qual a importância da participação da família no processo educativo?

Susan Sheridan: A relação entre família e a escola é um ponto crítico para o desenvolvimento das crianças. A escola e a família precisam trabalhar em conjunto para criar um ambiente saudável, acolhedor e que incentive o aprendizado.

Família tem papel crucial para a efetivação do direito à educação. Crédito: VASYLKIV/ Shutterstock

Família tem papel crucial para a efetivação do direito à educação. Crédito: VASYLKIV/ Shutterstock

É preciso reconhecer que aprendizado acontece a todo o momento e as crianças não aprendem apenas de uma forma. Elas não vão simplesmente para a escola, aprendem e saem de lá e deixam de aprender. O processo de aprendizado ocorre por meio da observação dos seus pais e das pessoas, na interação com o território, brincando, e elas realmente podem se beneficiar quando os pais, professores, avós e os outros adultos da vida dele trabalham juntos para criar um ambiente propício ao aprendizado também fora do ambiente escolar.

CR: Como promover uma maior interação entre os responsáveis e as famílias?

Susan: O mais importante que podemos fazer para envolver os pais e responsáveis de uma maneira significativa e para criar conexões entre a escola e casa do estudante é estar disposto a baixar um pouco a guarda e fazer as perguntas que realmente importam: como criar um ambiente propício para o ensino? O que a criança, a escola e a família pensam sobre o futuro? Quais desafios existem?.

É importante também entender que isso não ocorre quando se apontam dedos e culpas. É preciso criar um ambiente para que as famílias e a escola estejam na mesma página dividindo informações, compreendendo a perspectiva um do outro, para que juntos possam trabalhar para o desenvolvimento do estudante.

Uma maneira interessante de aproximar os pais da escola é fazer perguntas que sejam amplas e permitam que os pais ou responsáveis expressem suas observações. O professor precisa respeitá-los como especialistas sobre a vida dos próprios filhos, o que na maioria das vezes eles realmente são.  O educador deve ouvir atentamente o que os familiares dizem e e a partir disso utilizar essas informações para trazer mais sentido para a educação das crianças.

É necessário compreender que a escola envolve os pais no processo educativo não apenas por envolver. Não chamamos eles para o espaço escolar para que eles sejam voluntários em uma outra atividade. Isso é importante, mas precisamos que os responsáveis compreendam que eles têm um papel central em ajudar seus filhos a aprender. Se temos dificuldade em trazer os responsáveis para a escola é provável que esteja ocorrendo algum problema: os pais não estão sendo compreendidos como parte ativa do processo educativo, e, portanto, não se sentem realmente ouvidos pelos professores e pela escola, não se sentem parceiros relevantes. É preciso ouvi-los para saber qual a melhor maneira que eles podem ajudar.

CR: Como iniciar o processo de aproximação com as famílias?

Susan: A relação da família com a escola deve começar bem antes das crianças apresentarem problemas acadêmicos ou de comportamento porque quando não existe um problema a comunicação flui muito mais fácil. Dessa forma é possível criar um plano consistente antes dos problemas ocorrerem. As chances dos resultados serem melhores é grande porque é possível manter um diálogo ajustando esse plano. Se o plano não estiver dando certo é possível fazer mudanças.

CR: Existe um modelo único de aproximação da família com a escola ou é necessário levar em conta as especificidades de cada escola?

Susan: Eu provavelmente abordaria de forma diferente uma escola no Nebraska, onde moro, do que no Brasil porque são contextos distintos. Existe um processo que pode ser replicável, mas a maneira como ele é aplicado muda muito de acordo com o realidade porque o contexto é importante demais. Importam demais quais são as estruturas da escola, as condições sociais do território e dos estudantes. Existem tipos diferentes de situações e tipos de oportunidades e recursos a depender do contexto.

Portanto não existe uma maneira única e correta de falar com pais, não existe um padrão único que irá resolver todos os problemas, mas fundamentalmente existem alguns elementos-chave que são comuns: a importância de fortalecer o vínculo com a família, a importância de ter foco na educação da criança e a pactuação de metas que podem ser trabalhadas em conjunto pela escola e a família.

Veja vídeo sobre a importância da participação da família, do Prêmio Itaú Unicef: