publicado dia 19/04/2017

Ansiedade atrelada à escola é obstáculo para alunos brasileiros

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Existe uma relação direta entre a performance acadêmica dos alunos, a qualidade de seus relacionamentos e a satisfação com suas vidas? Tentando responder essa pergunta a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou novos dados referentes ao Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), de 2015, avaliação conhecida internacionalmente por aferir a qualidade e equidade dos sistemas escolares a partir da proficiência dos alunos em ciência, leitura e matemática.

Desta vez, no entanto, os resultados apresentados trazem como foco o bem-estar dos estudantes, isto é, se eles se sentem felizes na escola e possuem relações positivas com seus pares. Batizado de Students’ Well-Being: PISA Results 2015, o relatório compilou respostas de cerca de 540 mil jovens de 15 anos de idade de 72 países.

Segundo o relatório, a evidência de um “círculo virtuoso” entre a competência acadêmica e a satisfação pessoal dos estudantes é limitada. Se alguns países parecem confirmar essa hipótese como Finlândia, Holanda, Suíça, França e Estônia – lugares onde os alunos vão bem na escola e se definem felizes -, outros mostram que a conexão é mais complexa.

Enquanto estudantes do Brasil, Costa Rica, República Dominicana e México relataram alta satisfação com suas vidas apesar de pontuarem menos que a média na avaliação técnica, países que ficaram no topo do ranking em ciência e matemática como Japão, China, Coréia do Sul e Hong Kong (China) demonstraram um contentamento pessoal comparativamente muito baixo. Há ainda casos como o da Turquia, onde os alunos reportam insatisfação com suas rotinas e baixo desempenho acadêmico.

Embora seja tentador relacionar baixos níveis de satisfação com a vida a longas horas de estudo, os dados não mostram uma relação direta entre ambos. “Os resultados podem, de fato, refletir diferenças culturais nos padrões de resposta e auto-representação, mas não podem determinar quais fatores culturais têm esse efeito”, diz o estudo.

Em praticamente todos os países notou-se também diferenças no nível de contentamento pessoal relacionadas ao nível socioeconômico do aluno. De forma geral, os estudantes menos favorecidos relataram maior desagrado com suas vidas do que os alunos mais abastados. No entanto, Brasil e Colômbia apresentaram uma inversão desse quadro – as duas nações foram as únicas onde os alunos mais pobres relataram ser mais felizes.

O País salta aos olhos também por outro motivo: é o segundo no indicador com a maior porcentagem (81%) de alunos que sofrem de ansiedade relacionada às tarefas escolares, mesmo quando se sentem “bem preparados” para os trabalhos. Segundo o estudo, isso explica em parte o baixo desempenho do Brasil no ranking, já que é possível inferir uma correlação negativa entre desempenho educacional no PISA e ansiedade relatada pelos alunos.

Países como Islândia, França e Suíça são exemplos de sistemas onde os estudantes apresentam níveis baixos de ansiedade. Neste tópico ainda, é importante apontar que em todos os países notou-se uma maior taxa de ansiedade relacionada à escola entre as meninas, afetando negativamente suas performances.

Outra grande ameaça para o bem-estar dos estudantes é o bullying, que infelizmente se mostrou presente em todos os contextos nacionais. Na média dos países da OCDE, 11% dos estudantes relataram serem frequentemente alvos de chacota (pelo menos, algumas vezes por mês), 8% que são alvo de rumores maldosos, 4% – cerca de um por classe – que são atingidos ou empurrados pelo menos algumas vezes por mês (uma porcentagem que varia de 1% a 9,5% dependendo dos país) e cerca de 8% disseram serem agredidos fisicamente algumas vezes por ano.

Entre os fatores que apareceram como motivadores para o bom desempenho escolar, estão bons relacionamentos dentro da comunidade escolar e o acolhimento. A percepção de laços negativos com os professores, por exemplo, aparece como a maior ameaça para a felicidade e sentimento de pertencimento dos alunos. “Estudantes em escolas ‘felizes’, isto é, escolas onde a satisfação de vida dos estudantes estão acima da média do país, relataram um apoio muito maior de seus professores do que os alunos em escolas ‘infelizes’. Também evidenciamos que alunos que se sentem excluídos apresentam nível de insatisfação com a escola três vezes maior que os outros”, observa Andreas Schleicher, diretor de Educação e Competências da OCDE.

As famílias também têm um papel importante. Os alunos cujos pais relataram “gastar tempo apenas conversando com meu filho”, “comer a refeição principal com meu filho ao redor de uma mesa” ou “dizer o quão bem meu filho está indo na escola” eram mais propensos a relatar altos níveis de satisfação com suas vidas. Os resultados do PISA sugerem também que as meninas que têm a percepção de que seus pais as incentivam em suas habilidades são menos propensas a se sentirem tensas quando estudam.

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