Escola da Ponte radicaliza a ideia de autonomia dos estudantes

Publicado dia 07/03/2014

Com a colaboração de Jéssica Moreira

Iniciativa: Escola Básica da Ponte

Pública ou Privada: Pública

Descrição: 

Foto: Divulgação

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“As crianças que sabem ensinam as crianças que não sabem. Isso não é exceção. É a rotina do dia a dia. A aprendizagem e o ensino são um empreendimento comunitário, uma expressão de solidariedade. Mais que aprender saberes, as crianças estão a aprender valores. A ética perpassa silenciosamente, sem explicações, as relações naquela sala imensa.” Foi assim que o educador Rubem Alves resumiu uma de suas muitas surpresas com a Escola da Ponte, uma instituição pública de Portugal que, desde 1976, compreende que o percurso educativo de cada estudante supõe um conhecimento cada vez mais aprofundado de si próprio e um relacionamento solidário com os outros.

Inserida no sistema público de educação e localizada no município de Santo Tirso (próximo à cidade do Porto), a Escola da Ponte não adota um modelo de séries ou ciclos. Lá, os estudantes de diferentes idades se organizam a partir de interesses comuns para desenvolver projetos de pesquisa. Os grupos se formam e se desfazem de acordo com os temas e a partir das relações afetivas que os estudantes estabelecem entre si.

Organização pedagógica

O processo individual de cada estudante passa por três núcleos distintos: o de iniciação, consolidação e aprofundamento. Na iniciação, ele é tutorado com maior frequência e passa a aprender as regras de convívio coletivo e os compromissos que assume com os demais e com o seu próprio processo de aprendizagem. Na consolidação, a necessidade de acompanhamento diminui, o estudante assume maior trânsito nos espaços e tempos da escola e passa a gerir de forma autônoma o currículo nacional destinado ao 1º ciclo do ensino básico. No núcleo de aprofundamento, as crianças e adolescentes assumem um comportamento bastante autônomo, participam do gerenciamento das suas atividades e de atividades do coletivo e assumem o estudo do currículo nacional do 2º ciclo.

Em vez de um único professor, os estudantes acessam todos os orientadores educativos, que os acompanham tanto nas questões de aprendizagem acadêmicas quanto comportamentais. Em vez de disciplinas, o projeto pedagógico é dividido por seis dimensões, apoiadas por docentes e pedagogos e psicólogos: linguística (Língua Portuguesa, Inglesa, Francesa e Alemã), lógico-matemática (Matemática), naturalista (Estudo do Meio, Ciências da Natureza, Ciências Naturais, Físico-Química e Geografia), identitária (Estudo do Meio, História e Geografia de Portugal e História), artística (Expressão Musical, Dramática, Plástica e Motora, Educação Física, Educação Visual e Tecnológica – E.V.T., Educação Musical, Educação Visual, Educação Tecnológica e T.I.C.), pessoal e social (Formação Pessoal, Ensino Especial e Psicologia).

Cada estudante escolhe ainda um tutor, qualquer indivíduo da comunidade escolar – funcionários, professores, pais -, que será responsável por orientá-lo no percurso pedagógico que ele estabelece para si mesmo.  Dessa forma, o aluno e seu tutor avaliam juntos como foi o processo de aprendizagem, se os objetivos foram alcançados, se ficou alguma dúvida e se a criança ou o adolescente está satisfeito com o que alcançou. No lugar de provas, o tutor e estudante estabelecem que mecanismo utilizarão para aferir a satisfação e se o conteúdo foi assimilado, em um processo bastante dialógico e em si educativo.

Segundo o projeto educativo, a escola tem como pedagogia o “Fazer a Ponte”, que visa a formação de pessoas autônomas, responsáveis, solidárias, mais cultas e democraticamente comprometidas na construção de um destino coletivo e de um projeto de sociedade que potencialize a afirmação das mais nobres e elevadas qualidades de cada ser humano.

Para tanto, a Escola da Ponte integra e corresponsabiliza todos os envolvidos da comunidade escolar na sua construção – o indivíduo se faz no coletivo e o coletivo se alimenta da singularidade de cada um.

Diversidade e currículo

Diverso, o público da escola reúne estudantes de diferentes classes sociais e muitos pais, inclusive, mudaram-se de outras regiões do país só para possibilitar aos filhos a chance de estudar na instituição. Da mesma forma, crianças e adolescentes com deficiências estudam no mesmo processo que os demais: participam dos grupos, vivenciam os processos de planejamento e autoavaliação e discutem as regras da comunidade.

Para tanto, a escola se fortalece em sua pedagogia, reconhecendo cada estudante como único e irrepetível, igualmente integrante de uma cultura, origem e estrutura familiar singulares.  Assim, a Escola da Ponte entende que o papel do docente, da comunidade escolar e dos estudantes é apoiar que cada indivíduo se descubra e se conheça, a partir da interação com os outros, com os diferentes. E, essa mesma descoberta é o que motiva o próprio desejo de aprendizagem.

Estudantes em assembleia. Foto: Divulgação

Estudantes em assembleia. Foto: Divulgação

Portanto, a ideia de currículo se estabelece de forma muito individual para cada estudante, em diálogo com o que ele – em sua unicidade – deseja descobrir sobre o outro e sobre o mundo em sua volta. Assim, a escola assume o currículo em uma dupla proposição: o currículo objetivo, que norteia e metrifica um horizonte de realização e o currículo subjetivo, que se estrutura no desenvolvimento pessoal, do projeto de vida de cada estudante. Para a pedagogia do “Fazer a Ponte”, só o currículo subjetivo (o conjunto de aquisições de cada aluno) é capaz de validar a pertinência e o sentido do currículo objetivo.

No processo de alfabetização, as crianças são convidadas a aprender “frases inteiras”, superando a lógica do beabá e da cartilha. Inspirados por Paulo Freire e pelo educador francês Célestin Freinet, a escola convida os estudantes a lerem por desejo, pela vontade de decifrar o código das palavras. Convidadas por histórias ou perguntas disparadoras, as crianças desenvolvem de forma autônoma a capacidade da escrita e leitura, cada qual no seu tempo, e no seu próprio ritmo de aprendizagem.

E, para viabilizar esse e todos os processos de investigação autônoma, os estudantes têm acesso a diferentes locus de aprendizagem e estudo, como na biblioteca – principal espaço da escola -, e nos computadores e internet. Da mesma forma, os estudantes gerem esses espaços de forma autônoma e decidem onde e como devem buscar a informação que precisam. Muitas vezes, quando a informação não está na escola, os estudantes são convidados a sair e investigar, em parceria com seus tutores, outras possibilidades e sua comunidade. Vão às bibliotecas públicas, às casas dos vizinhos, aos parques e praças da cidade – em qualquer lugar em que possam encontrar o aprendizado que desejam.

Na prática

Em uma atividade em novembro de 2013, um grupo de crianças do núcleo de iniciação Escola da Ponte decidiu investigar como funcionam os sinais de trânsito, para estudar o tema de segurança rodoviária. Depois da pesquisa inicial, saíram todos às ruas para ver “na prática” o que cada uma das placas significa. Como produto, o grupo desenvolveu e jogou um jogo da memória com os símbolos recém descobertos e como tarefa de casa, os estudantes tiveram que ajudar seus familiares e vizinhança a relembrar o significado de cada um deles.

Na mesma perspectiva, a escola disponibilizou um grande mural em que os estudantes podem escrever se precisam de ajuda e no que precisam. No espaço, os estudantes também podem contar no que podem colaborar ou ensinar aos demais. De “ensino violão” a “não entendi como se soma”, tudo é permitido – e mediado pelos próprios alunos, que aprendem, desde sempre, a acessar seus pares, sem medo de julgamento ou gozação.

Muito forte, a cultura colaborativa na escola também se faz entre os docentes. Como os editais e contratações são abertas, é normal o professor levar um tempo ou até não se adaptar ao modelo. No lugar de “preparar uma aula pronta”, o professor se cria a partir da necessidade dos estudantes e, com eles, investiga o tema a ser estudado.

Da mesma forma, os professores têm tempo e são valorizados como uma rede: apoiam-se uns nos outros para lidar com as dificuldades dos estudantes e investigar e propor ações coletivas, para toda a comunidade escolar. Festejos, campeonatos e saídas lúdicas e pedagógicas são bastante comuns e ocupam boa parte do calendário das crianças. Todas as datas, além de comemoradas, são investigadas: crianças e adolescentes estudam o porquê delas, qual o significado cultural da manifestação e constroem juntos a determinada celebração.

Grupo em pesquisa sobre trânsito na comunidade. Foto: Divulgação

Grupo em pesquisa sobre trânsito na comunidade. Foto: Divulgação

Decisões coletivas

Afim de garantir a autonomia como chave em todos os processos da escola, estudantes, pais, professores e funcionários participam de assembleias periódicas. Nas reuniões, que podem ser para discutir normas e regras coletivas ou a temática da festa de Natal, todos têm voz e podem se expressar e registrar seus apontamentos.

Os mais tímidos podem também acessar uma espécie de caixa de “segredos”, no qual deixam pedidos de ajuda, reclamações, vontades. A caixa é aberta e discutida no coletivo, sem expor aquele que escreveu a mensagem.

Para validar os processos e envolver a comunidade como um todo, a escola publica todos os documentos e realiza anualmente uma minuciosa autoavaliação, que se debruça sobre os profissionais, os estudantes e evolução da aprendizagem de cada um e sobre as decisões e processos democráticos. Com metodologia estruturada, a autoavaliação é um processo bastante significativo para a comunidade como um todo, que assume o tempo e a importância de refletir sobre si mesma.

Histórico

Até 1976, a escola fazia parte de um polo que concentrava mais outros cinco prédios escolares, entre escolas de educação infantil e do fundamental (antigas escolas primárias).

Nesse período, o país havia acabado de sair de uma ditadura de 48 anos e as escolas públicas se encontravam em altos níveis de precariedade. O grau de violência interna subia a cada dia, desmotivando e desmoralizando os profissionais da educação. O ensino, feito com base em manuais iguais para todos, era um dos causadores do desinteresse. Outro era a estrutura física do prédio escolar, que se encontrava em total decadência.

A equipe escolar passou, então, a questionar os problemas e deficiências daquela escola, identificando que ajustes não alcançariam a mudança esperada: era necessária uma verdadeira revolução pedagógica. E essa vontade de mudança encontrou eco nas ideias do educador José Pacheco, que, ao longo de sua vida como professor, não enxergava mais sentido nas aulas tradicionais nem no que chamava de fundamentalismo pedagógico.

Foto: Divulgação

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Foi assim que após inúmeras discussões a equipe pedagógica da Escola da Ponte resolveu abolir as séries, provas, salas de aulas e disciplinas, alicerçando sua proposta pedagógica para o exercício da autonomia e da liberdade. Antes visto como solitário, o trabalho do professor assume um caráter compartilhado, desenvolvido em conjunto com outros professores e com estudantes, que passam a desenvolver atividades de educação de pares, em um processo de troca e construção coletiva, em que todos aprendem e ensinam ao mesmo tempo.

Com o tempo, dado seus resultados, em 2008, a escola conseguiu tornar-se autônoma do Ministério da Educação e Ciência (MEC) de Portugal, por meio de um contrato vigente até o ano letivo de 2015/2016. Na prática, o contrato aponta várias metas à escola, a fim de compreendê-la como proponente de uma estrutura pedagógica capaz de inspirar outras instituições e quiçá reformular o sistema como um todo.

Início e duração: 1976 até os dias atuais.

Local: Município de Santo Tirso, em Portugal

Resultados e inspirações: Além da autonomia da escola à organização curricular e pedagógica do Ministério, a Escola da Ponte influenciou a aprovação do Decreto de Lei 6/2001, de 18 de janeiro de 2001, sobre a Reorganização Curricular do Ensino Básico, que deu espaço a outros modelos de escolas públicas.

Aluno-professor

Na Escola da Ponte, muitos dos professores foram alunos da escola e tornaram-se ávidos apaixonados pela proposta, reestruturando-a continuamente, ao passo que os tempos e estudantes se transformam.

O educador José Pacheco, um dos idealizadores da proposta, entendeu que a comunidade estava tão apropriada do “Fazer a ponte” e tão capaz de reconstruí-lo diariamente, que acabou deixando a direção da unidade e rumou para o Brasil, para apoiar a Escola Âncora, em Cotia (SP). Inspirada na proposta portuguesa, a escola atende gratuitamente alunos na mesma perspectiva de construção de autonomia, abolindo provas, ciclos e séries e reunindo os estudantes como educadores de seus pares.

Na mesma perspectiva, desde 2004, a Escola Municipal Desembargador Amorim Lima e , desde 2008, a Escola Municipal Presidente Campos Sales, localizadas em São Paulo, reconfiguraram seus projetos pedagógicos, substituindo a estrutura das salas de aula e assumindo os estudantes como protagonistas da aprendizagem.

Materiais e Publicações:

Contrato com o Ministério da Educação: www.escoladaponte.pt/docs/contratoAutonomia.pdf

Projeto Educativo: www.escoladaponte.pt/docs/PEE_2003.pdf

Contatos:

Telefone: +351 252 875 350

Emailgeral@escoladaponte.pt

Sitehttp://www.escoladaponte.pt/

Facebook: Escola da Ponte

Três escolas e as várias conquistas da autonomia