publicado dia 08/05/2019

Será que é meu lugar? Como incentivar meninas na Matemática

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*Publicado originalmente no site da Fundação Telefônica.

No dia 12 de abril, a delegação feminina brasileira de matemática voltava ao país com uma inédita medalha de ouro na 8ª Olimpíada Europeia Feminina de Matemática (EGMO), que aconteceu em Kiev, na Ucrânia. Na colocação geral, o Brasil ficou na 20ª posição, de 49 países. O feito mostra que é preciso mudar uma lógica sociocultural: a de que não há espaço para meninas na Matemática.

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A responsável pela conquista foi a gaúcha de 17 anos Mariana Groff, natural de Frederico Westphalen (RS). Além dela, a cearense Ana Beatriz Studart e a carioca Maria Clara Werneck, também de 17 anos, foram premiadas com bronze.

Dia Nacional da Matemática Instituído em 2013, o Dia Nacional da Matemática é celebrado 06 de maio para gerar reflexão sobre a educação da disciplina. A data foi criada em homenagem a Malba Tahan, notório matemático, escritor e educador brasileiro.

Em entrevista à Fundação Telefônica Vivo, Mariana fez questão de enfatizar que o ouro foi resultado de uma longa trajetória. “Venho me preparando desde o 7º ano, quando participei da minha primeira olimpíada de Matemática. Foi muito tempo de estudo, participação em treinamentos e em torneios nacionais e internacionais”.

Aluna de escolas públicas, a jovem corria atrás de estudar como podia: pedia dicas pelas redes sociais para veteranos de olimpíadas, buscava conteúdo na internet, estudava com colegas, lia livros que a mãe, sua maior incentivadora, conseguia. Mas a maior adversidade que enfrentou em toda a trajetória foi por ser uma garota. Mariana é uma das poucas estudantes que se segue firme nesse caminho.

Segundo mapeamento do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), todos os anos 18 milhões de crianças participam da OBMEP – Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Entre os 5% melhores, há equilíbrio entre o número de meninas e meninos.

Porém, em torneios mais competitivos, que envolvem instituições públicas e privadas, o percentual de meninas na Matemática cai consideravelmente. No Ensino Fundamental, elas são 30% das medalhistas em torneios nacionais de matemática. Já no Ensino Médio, cai para 20%. Na Olimpíada Internacional de Matemática de 2017 (IMO), que ocorreu no Rio de Janeiro, as participantes não ultrapassavam os 10%.

Marcelo Viana, diretor do IMPA, afirma que ao longo do tempo as meninas ficam menos competitivas, uma vez que são menos incentivadas pelas famílias, pelos professores e colegas, em comparação aos meninos.

“A ideia de que matemática é coisa de menino é uma perversa lógica sociocultural perpetuada nas famílias e nas escolas de geração em geração, e que afeta as mulheres ao longo da vida. As candidaturas de mulheres para mestrado e doutorado que recebemos todos os anos no IMPA são da ordem de 12%”, explica Marcelo.

A falta de exemplos…

Em todo mundo, há uma ideia de que as Ciências Exatas são conduzidas por homens. Crescemos ouvindo sobre feitos de Isaac Newton, Albert Einstein, Galileu Galilei, mas poucos sabem que a polonesa Marie Curie revolucionou a medicina ao descobrir a radioatividade. Também fica no campo da curiosidade que a primeira programadora da história foi a inglesa Ada Lovelace (conheça abaixo mais exemplos de destaque).

“Nós precisamos nos provar duas vezes mais para ter o mesmo reconhecimento do que um homem. Por isso, quanto mais a gente compartilhar experiências e se apoiar, melhor”, diz Deborah Alves.

A falta de modelos inspiradores para as meninas está relacionada ao baixo engajamento com as Exatas e contribui para propagar insegurança e dúvidas. “Em 2014, fui a única menina a ser classificada para uma olimpíada internacional de matemática. Eu sentia muita falta de ter outras por perto, outros exemplos para seguir’”, conta Mariana Groff.

Até mesmo a carência de professoras na área é algo que grita aos olhos. Mariana conta que, embora lenta, há melhora com o passar do tempo. “No primeiro ano que participei da Semana Olímpica, focada no treinamento de medalhistas, não tinha nenhuma professora. Hoje são quatro”.

…leva à falta confiança

De 2009 a 2011, a paulistana Deborah Alves participou de sete olimpíadas mistas de Matemática. Não raro, era a única garota da equipe. Hoje, aos 26 anos, concluiu a graduação em Ciências da Computação pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e é cofundadora de uma premiada startup da área de saúde.

“As meninas, em geral, são incentivadas a não passarem a impressão de metidas. Quando o garoto fala sobre suas conquistas, é visto como confiante. Quando é a garota, é metida. Então eu cresci me esforçando para ser a pessoa mais humilde por medo de ser rotulada. Isso afeta até hoje minha confiança e a crença no meu potencial”, relata Deborah.

Outros fatores socioculturais também prejudicam o desempenho feminino: bullying dos colegas, estereótipo de gênero e a falta de incentivo de professores. Segundo artigo da Associação Americana de Estudos Educacionais, professores tendem a perceber as habilidades dos alunos em matemática como superiores às de alunas, mesmo quando os resultados são semelhantes.

Todas por todas

Líder da delegação feminina Olimpíada Europeia Feminina de Matemática, Deborah Alves trabalha para fortalecer meninas e mulheres nas exatas. Criou um grupo de Whatsapp com aspirantes e veteranas de torneiros e dá mentoria semanal a algumas meninas. Mariana Groff está entre elas.

“Nós precisamos nos provar duas vezes mais para ter o mesmo reconhecimento do que um homem. Por isso, quanto mais a gente compartilhar experiências e se apoiar, melhor”, diz Deborah. “Muitas meninas se afastam por medo de errar. É comum a gente ouvir de garotas que não vão nem tentar a classificação para a IMO (sigla em inglês para a Olimpíada Internacional de Matemática), porque não têm chances. Com essa rede, nós queremos reverter esse pensamento”.

O IMPA também têm tomado uma série de iniciativas para fortalecer meninas na matemática, como o 1º Encontro Brasileiro de Mulheres na Matemática, ocorrido no ano passado, o Programa Meninas Olímpicas do IMPA, financiado pelo CNPq, e o Torneio de Meninas na Matemática, previsto para o segundo mestre de 2019.

Para Deborah Alves, embora o desejável é competições olímpicas divididas por gênero não sejam mais necessárias daqui a um tempo, os torneios voltados para meninas na matemática são fundamentais para equilibrar desvantagens históricas. “São iniciativas que promovem um espaço seguro e confortável para competirem e para que saibam que elas também podem”.

Outras iniciativas, como o Elas nas Exatas, encabeçada pelo Fundo ELAS e pela ONU Mulheres, também visam aumentar a representatividade feminina na área. “Equidade de gênero não é mimimi. As meninas precisam sentir-se seguras para que ocupem os lugares que quiserem”, declarou uma das fundadoras da iniciativa, Amália Fisher, no evento Educação 360 STEAM.

E para as meninas que gostam de Matemática e de Exatas, Mariana Groff deixa uma mensagem: “Não fique abalada se alguém disser que não é para você. O lugar de menina é onde ela quiser! Acredite no seu potencial. E quando você estiver nesse ambiente, não deixe de acolher outras mulheres para fortalecer nossa rede de apoio”.

Conheça mais histórias de mulheres nas Ciências

  • Em abril, a cientista americana Katie Bouman, que tem doutorado pelo MIT, entrou para a história por ter liderado a criação de um algoritmo que permitiu a captação da primeira imagem real de um buraco negro no universo.
  • PhD em Harvard, a brasileira Joana D’Arc Félix de Souza incentiva jovens que vivem em situação de vulnerabilidade social a se engajar com pesquisa de ponta. Com seus alunos no interior de São Paulo, já conquistou mais de 80 prêmios e tem 15 produtos patenteados.
  • Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughan faziam parte da equipe de “computadores humanos” da Nasa, na época em que negros sequer podiam usar os mesmos banheiros que funcionários brancos da Agência. A história delas é contada no emocionante filme Estrelas Além do Tempo.

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