publicado dia 21/09/2015

Qual livro marcou a sua juventude?

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Em 22 de setembro se comemora o Dia Nacional da Juventude e, para celebrar a data, o Centro de Referências em Educação Integral buscou especialistas e representantes de entidades que nos apontaram as obras literárias que marcaram suas juventude.

Mais do que o enriquecimento cultural, as experiências leitoras abriram portas para que eles se formassem como seres integrais, capazes de fazer análises críticas da sociedade, percebendo a si mesmos enquanto agentes da transformação social pela qual atuam hoje em dia. Confira:

1. Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM

Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM

Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM

Livro (s): A mãe, de Máximo Gorki e Germinal, de Emile Zola

“Li dois livros que me tornaram ‘socialista’ ou humanista: A mãe, de Máximo Gorki, e O Germinal, de Emile Zola, que relatam a vida, o sofrimento, a revolta e a capacidade dos trabalhadores de se organizarem contra a exploração. Para mim, foi uma mexida nos meus valores de classe média. Passei a adolescência entre 1970 e 1974 em Salvador, era o auge da repressão da ditadura, e nós, jovens da classe média, totalmente alheios à luta que parte da população empreendia contra a ditadura, a tortura e censura. Quando li estes livros, já estava morando em Belo Horizonte, fazendo cursinho e ouvindo relatos e sabendo das histórias dos desaparecidos. Estas leituras contribuíram para que eu  entendesse o poder da luta e do estar junto para poder mudar uma sociedade. Também Cem anos de solidão, que me ajudou a entender e conhecer e gostar da América Latina e do incrível poder da literatura.

2. Tião Rocha, educador e diretor presidente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD)

Tião Rocha.

Tião Rocha, educador

Livro (s): A Um Deus Desconhecido, de John Steinbeck

“O livro que me marcou na juventude foi A Um Deus Desconhecido, de John Steinbeck porque me contou uma história de resiliência (é claro que este conceito só me chegou na maturidade), mas hoje não saberia dizer de outra forma. De como, no meio da grande depressão norte-americana, um homem, Joseph Wayne, resolve mudar-se e buscar um lugar, uma terra nova, onde ele pudesse se reerguer e toda sua família, como seres humanos dignos. E este encontro homem-terra foi de tal grandeza que a relação entre eles se tornou, literalmente, amorosa, chegando ao ponto de lhe causar prazer sexual ao se deitar na terra encontrada, com a mulher-amada. E, anos depois, quando esta mesma terra-amada mostrou-se fraca, arrasada pela seca, ele resolve alimentá-la com seu próprio sangue, uma transfusão de amor. Isto eu escrevo agora, sem consultar o livro para procurar outras referências, mas falo o que ficou marcado em mim para sempre.

Imagina o que pode significar para um jovem em plena descoberta da vida, descobrir que o amor entre o Homem e a Terra pode ser tão intenso e tão forte como entre um Homem e uma Mulher, por exemplo. Uma novela cheia de veneração pelo sol, pela terra, pelo ato de amor. Um quadro vivo da própria vida…”.

3. Ariel de Castro Alves, advogado e membro do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Paulo (Condeca-SP)

Ariel Castro, advogado

Ariel Castro, advogado

Livro (s):  A Guerra dos Meninos, de Gilberto Dimenstein

“O Livro Reportagem do jornalista Gilberto Dimenstein foi uma das obras que me despertaram para a luta em defesa dos direitos da criança e do adolescente. O livro trata da violência e dos assassinatos de crianças e adolescentes em situação de rua, como forma de ‘limpeza social’, com a omissão e conivência do Estado e de parte da sociedade. Muitos grupos de extermínio que eliminavam crianças e adolescentes eram financiados por comerciantes e compostos por policiais e ex-policiais que matavam meninos e meninas que viviam nas ruas, simplesmente por entenderem que seriam ‘potenciais criminosos’ ou ‘suspeitos de crimes’.

Alguns desses grupos atuavam no ABC Paulista, principalmente em São Bernardo do Campo, cidade onde sempre residi. Outros grupos atuavam em outras regiões metropolitanas, como na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, em Pernambuco, Bahia, Amazonas e  Vitória, no Espírito Santo, entre outras. O livro também retrata várias histórias de vida de crianças e adolescentes que moravam nas ruas. Meninos e Meninas marcados pela exclusão, exploração, violência doméstica e urbana, envolvimento com drogas e  ausência de políticas públicas. A obra também retrata o trabalho árduo de ativistas  de entidades de defesa dos direitos de crianças e adolescentes e de direitos humanos, como do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, no enfrentamento aos grupos de extermínio e à violência policial, o que gerava ameaças de morte contra esses ativistas e também contra religiosos, juízes, advogados, entre outros que denunciavam os esquadrões da morte. As entidades também formavam uma rede de proteção social na tentativa de dar proteção aos jovens “jurados de morte”.  O livro me marcou bastante, até porque eu já conhecia naquela época histórias de jovens de São Bernardo que tinham sido assassinados por grupos de extermínio e seus corpos foram encontrados boiando na Represa Billings. A obra acabou influenciando minha atuação como defensor de direitos humanos infanto-juvenis”.

4. Gabriel Medina, Secretário Nacional de Juventude 

Livro (s):  As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano

Gabriel Medida, Secretário Nacional de Juventude

Gabriel Medida, Secretário Nacional de Juventude

“Certamente vários livros marcaram minha juventude, mas acho que teve um muito especial que foi As veias abertas da América Latina, do Eduardo Galeano. Me marcou porque revelou com muita profundidade a história do continente de forma mais ampla, para além do Brasil, o genocídio da população e da cultura indígena e todo o processo de exploração dos nossos recursos naturais pelas colônias. Esse livro me deu a possibilidade de conhecer mais sobre as semelhanças dos processos de colonização e me deu uma consciência crítica poderosa para estimular minha militância pela construção de uma sociedade mais igualitária. Mais do que isso, me ajudou a compreender a necessidade de ter um sentimento de pertencimento pela América Latina e lutar pela sua libertação plena”.

5. Ângela Guimarães – Secretaria Adjunta da Secretaria Nacional de Juventude

Livro (s): Com licença, eu vou à luta, de Eliane Maciel, 1968, O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura e Olga, de Fernando Morais

Ângela Guimarães, Secretaria Adjunta da Secretaria Nacional de Juventude

Ângela Guimarães, Secretária Adjunta da Secretaria Nacional de Juventude

“Alguns livros marcaram minha juventude. Um deles é Com licença, eu vou à luta de Eliane Maciel, uma autobiografia que aborda o tema da gravidez na adolescência, os dilemas e conflitos daí resultantes e suas implicações na trajetória de uma adolescente.

Olga, de Fernando Morais conta a história da militante Olga Benário, nascida na Alemanha em 1908, judia de classe média, cujo nome verdadeiro era Maria Begner, e que já na adolescência se aproximou da Juventude Comunista, onde passou a militar ativamente. Fugindo dos nazistas, acabou chegando ao Brasil e se aproximando do Partido Comunista onde conheceu Luis Carlos Prestes e acabaram se relacionando amorosamente. Presa grávida pelo governo Vargas, foi deportada para a Alemanha, onde morreu num campo de concentração.

1968, o ano que ainda não terminou, de Zuenir Ventura. Fascinante reconstituição dos acontecimentos de 1968 no âmbito do país. Os heróis dessa geração que queriam virar o mundo pelo avesso, seus dramas e paixões, suas lutas e vitórias estão descritos nesse relato fundamental para a compreensão do Brasil contemporâneo.

Poderia fazer uma lista extensa, mas utilizo estes como referenciais do que eu me constituí enquanto cidadã e militante. Com cada um deles foram muitos os aprendizados e a abertura de horizontes. No geral, ajudaram a forjar em mim uma consciência social e política, uma preocupação com os destinos da coletividade, uma paixão pela luta contra as opressões e um forte sentido de amor à democracia”.

6. Paulo Lima, fundador e diretor da Viração Educomunicação e fellow da Ashoka Empreendedores Sociais

Livro (s): O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

Paulo Lima, fundador e diretor da Viração Educomunicação

Paulo Lima, fundador e diretor da Viração Educomunicação

“O Pequeno Príncipe marcou minha juventude porque é de uma extrema poesia, é um tratado poético, harmonioso, entusiasmante e, ao mesmo tempo, extremamente profundo. Parece um livro para crianças e adolescentes, mas destinado a adultos. É para todas as idades. A trama do livro, no fundo, aborda a riqueza e a complexidade da comunicação, fala de uma comunicação por inteiro, não dividida, compartimentada, setorizada, como qualquer relação entre seres vivos. Foi esse ensinamento que iluminou e continua a iluminar a minha formação de base e continuada. Não é à toa que enveredei pelos caminhos do Jornalismo e da Educomunicação.

O Pequeno Príncipe me ensinou o valor de uma comunicação cósmica e, ao mesmo tempo orgânica e sistêmica. Tudo se comunica: a rosa, a raposa, a serpente, o pequeno príncipe e o piloto de avião. Mostra a profunda comunhão que pode existir entre todos os seres vivos e a Natureza. E como essas relações podem ser profundas, baseadas em valores como a amizade, o respeito, a simplicidade, a solidariedade. Cada Planeta visitado pelo Pequeno Príncipe pode ser visto como uma metáfora da natureza humana, das relações de poder e conquista que geralmente exercitamos sobre as pessoas. Cada personagem estranho e absurdo que possa parecer tem algo a ensinar: o rei, o bêbado, o homem de negócios, o geógrafo…

Vez por outra, volto a ler o livro, depois de alguns anos, justamente para colher novos frutos, tecer novas reflexões, me inspirar com novas frases. A primeira delas que muito me marcou e que eu costumo usar em oficinas, palestras e artigos: “O essencial é invisível aos olhos”. Também está entre as preferidas: “Você se torna responsável por aquilo que cativa”. Para mim é  de uma atualidade monstruosa, quer dizer cuidar das pessoas e também cuidar do Planeta, que tanto precisa em tempos de mudanças climáticas, de escassez de água, de refugiados ambientais e de guerra. Me apaixonei pelo Pequeno Príncipe porque me ensinou a amar a beleza, a conversar comigo mesmo, a cuidar do amor, a cultivar a amizade e, sobretudo, a não perder a esperança. Jamais!”

7. Érica Teruel Guerra, coordenadora pedagógica do Énois

Livro (s): Sagarana, de João Guimarães Rosa.

Érica, coordenadora pedagógica do Énois.

Érica, coordenadora pedagógica do Énois.

“Pra mim, que cresci na zona leste de São Paulo e sempre vivi em um ambiente urbano, foi uma surpresa enorme encontrar naquele livro, com linguagem e temática aparentemente distantes, uma identificação tão significativa. Os velhos, os bichos pensantes, a sabedoria do burrinho: aquela leitura obrigatória se tornou um prazer imensurável, vivido e saboreado, que me lembrou de um tanto de mundo que existia além do que eu via. Cito o Sagarana porque ele me ensinou algo essencial para quem trabalha com educação: empatia. Entender e se relacionar com o outro, procurar as semelhanças, os encontros, as pontes. Guimarães influenciou em minha escolha profissional, na relação com a natureza, no respeito pela cultura popular, no gosto pela estrada e na infindável curiosidade pelo que vou encontrar a cada parada”.

8. Daniel Souza, presidente do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve)

Livro (s): Dois irmãos, de Milton Hatoum.

Daniel Souza, presidente do Conjuve

Daniel Souza, presidente do Conjuve

“Muitos livros me marcaram e me marcam, um deles é Dois Irmãos, de Milton Hatoum, que fala sobre os hibridismos das culturas e de nossas identidades. Uma obra que, ao falar sobre os conflitos entre Omar e Yaqub, filhos de imigrantes libaneses, e as relações ambíguas entre Zana, Halim, Rânia, Domingas, apresenta uma história de Manaus nos anos 1940. Mas também, metaforicamente, narra um pouco de nós mesmos, em nossas trajetórias errantes. Somos um pouco de Omar e de Yaqub, somos gente ambígua. Aqui está algo da obra que me marcou. Somos para além das caixas: bem versus mal. Além disso, o narrador, Nael, segue as suas memórias de maneira descontínua, não-linear. E aqui tem um outro ponto que me tocou no texto: quem conta a história é o filho de Domingas, a “serva” que tinha origem indígena e foi marcada por violências e resistências, com trajetos não muito evidentes no texto. Essa é uma narrativa que lembra a fala dos contadores de história, os ribeirinhos, as misturas entre simbólico e “material”, luz e sombra, entre sofrimento e capacidade de reinventar a vida, tudo junto, tudo misturado na voz do menino Nael, que ao dizer “Dois Irmãos”, parece construir uma subversão à casa grande”.

9. Carina Vitral, presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE)

Livro (s): O diário de Anne Frank, de Anne Frank

Carina Vitral, presidenta da UNE.

Carina Vitral, presidenta da UNE.

“Esse livro triste e forte marcou minha juventude porque mostra como a atrocidade de um governo totalitarista pode ceifar as liberdades de toda uma família e um povo. Fala também sobre os horrores da guerra e do nazismo. Em tempos difíceis e de ódio, é sempre essencial recordar casos como o de Anne Frank para refletirmos sobre a importância da democracia e das liberdades”.

Por Ana Luiza Basilio e Caio Zinet

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