publicado dia 19/01/2017

Sem explicações, reitoria da USP quer fechar creche considerada modelo

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Funcionários da Creche Pré-Escola Oeste, localizada no campus Butantã da Universidade de São Paulo (USP) foram notificados na segunda-feira (16/01), por meio de um e-mail enviado pela Reitoria, que a unidade deverá ser fechada. A medida não está amparada em nenhuma decisão do Conselho Universitário (CO) da USP, órgão máximo da instituição.

Na mensagem, a Reitoria, ocupada hoje por Marco Antônio Zago, informou que as cerca de 40 crianças que frequentam a unidade serão transferidas para a Creche Central e que um caminhão irá retirar todos os móveis e equipamentos do edifício.

Faixa é colocada em frente à unidade Oeste, no campus Butantã

Faixa é colocada em frente à unidade Oeste, ocupada por pais e funcionários, no campus Butantã (SP).

Crédito: Divulgação

Em resposta, funcionários e pais das crianças decidiram ocupar o espaço. “Frente à ameaça de despejo e à falta de diálogo, mantemo-nos aqui mobilizados”, diz a nota emitida pelo Associação de Pais e Funcionários (Apef).

Os ataques às creches vêm ocorrendo desde o início de 2015, quando a Reitoria – também sem se apoiar em decisão do CO – ordenou que não fossem abertas novas vagas. A situação se repetiu em 2016. Pais e funcionários iniciaram uma campanha para denunciar as medidas que afetam todas as cinco creches da USP: a Oeste e a Central, no Butantã, a unidade no campus da Saúde Pública, também na capital paulista e outras duas localizadas nos campi de São Carlos e Ribeirão Preto.

Em 2016, foi produzido o vídeo abaixo, que explica a relevância social e acadêmica das creches, que atendem filhos de funcionários, estudantes e docentes da universidade. As unidades são consideradas experiências modelo em educação infantil e são objeto de estudo de inúmeras pesquisas.

Manobra

Já há dois anos sem receber novas crianças, as unidades passaram a ter vagas ociosas. De acordo com comunicado da Apef, as cinco têm capacidade para receber mais 157 crianças em 2017. Ao mesmo tempo, um levantamento feito pelo grupo detectou que há uma demanda por 300 vagas. Estudantes da USP chegaram a improvisar uma creche nos corredores dos prédios da moradia estudantil, conforme reportagem feita pela Folha de S.Paulo no ano passado.

Em novembro de 2016, após a repercussão das denúncias, o CO colocou em debate e votação a situação. Por 38 votos a favor, 36 contra e 13 abstenções, foi aprovado um dispositivo que obriga a Reitoria a “preencher as vagas ociosas no limite da capacidade das creches”.

Para uma das mães ouvidas pelo Centro de Referências em Educação Integral, que preferiu não se identificar, a medida pareceu uma “manobra” para que a Universidade não cumpra com a determinação do CO.

Ela também contou que a Reitoria não se pronunciou sobre qual o destino dos funcionários da Creche Oeste. Tampouco fez qualquer contato com a unidade Central para saber se há condições para receber as cerca de 40 crianças que seriam transferidas e como esse processo seria feito. As aulas se iniciam já no início de fevereiro.

A Reitoria, procurada pela reportagem por meio da assessoria de imprensa da USP, não quis se pronunciar.

Sem motivo

A Apef sustenta que não há um motivo plausível para fechar a creche ou proibir a entrada de novas crianças. Isso porque a USP acaba gastando mais dinheiro com o auxílio-creche que concede aos que não encontram uma vaga para seus filhos. Um cálculo feito pela Apef mostrou que a USP gastaria cerca de R$ 717 mil por ano a mais se desse o benefício a todas as 157 famílias solicitantes. “Se todas as vagas forem preenchidas, nenhum custo a mais incidiria sobre o Orçamento da universidade, que já dispõe de espaço físico, educadores e verba de custeio previstos para 2017″, diz a nota.

Para a mãe ouvida pela reportagem, trata-se de uma atitude que visa, deliberadamente, prejudicar as mulheres e mães que frequentam a universidade, sobretudo as que não têm condições de colocar os filhos em escolas privadas.

Os ocupantes afirmam que permanecerão no local e demandam que a Reitoria cumpra a decisão do CO. Pais e funcionários estão mantendo uma programação no local, com debates, conversas e atividades. O movimento mantém um blog e uma página no Facebook, onde divulgam informações e comunicados.

 

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