6° Prêmio Territórios Tomie Ohtake

publicado dia 06/01/2022

A importância em se considerar o território no planejamento escolar

por

Selo Reviravolta da EscolaEste início de ano tem uma característica particular: a volta às aulas em meio a uma grave crise sanitária, econômica, política e social, que impacta as escolas e toda a comunidade diretamente. Foram 5 milhões de crianças e adolescentes fora das escolas ou sem acesso às atividades pedagógicas até 2020, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), além dos índices recordes de fome e desemprego pelo país.

Leia + Ensino híbrido: quais suas potencialidades e limites?

No planejamento escolar, é crucial que os educadores considerem esse contexto, a fim de garantir que a escola cumpra seu papel no desenvolvimento integral de todas as crianças, jovens e adultos. 

“Ver essas realidades faz a gente mais sensível, mais humano, faz a gente se tornar mais gente, como disse Paulo Freire”, disse Raimundo de Assis Mendes, professor formador da rede municipal de Educação de Barra do Corda, no Maranhão, em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral. Leia os principais trechos da conversa: 

Centro de Referências em Educação Integral: É fundamental que os professores olhem para os direitos básicos de seus estudantes neste começo de ano. A experiência de muitas escolas em contato mais próximo com as famílias e seus contextos durante os últimos anos de pandemia pode ajudar? 

Raimundo de Assis Mendes: Sim. A pandemia escancarou as nossas realidades sociais porque entramos na casa das famílias através de fotos, vídeos, visitas, e isso impactou a vida de muitos profissionais. 

Vi muitos professores mudarem seu discurso diante dessas realidades, vi o avanço e desempenho deles no uso das tecnologias, um crescimento muito grande nesse momento tão ruim. Não temos como dimensionar o legado que tivemos como educadores e como ser humano, porque impactou nossa vida e visão de mundo, de ter um olhar mais amplo para o papel da escola e para os estudantes. 

CR: O que significa conhecer a realidade dos alunos na prática e qual a importância disso para o planejamento escolar? 

RAM: Significa ouvir o aluno e sua família e conhecer de onde ele vem, como é esse lugar, qual é sua história de vida. Aqui, onde trabalho há seis anos em uma escola de periferia com estudantes que vivem na zona rural, foi importante conhecer o que é a zona rural, a fazenda, o que é ser pescador, para ampliar a minha visão do que é fazer educação. 

É esse território que proporciona a cada criança um mundo de experiências únicas, e que é preciso ser considerado pela escola. Ver essas realidades faz a gente mais sensível, mais humano, faz a gente se tornar mais gente, como disse Paulo Freire.

É também isso que permite desenvolver uma prática pedagógica mais significativa e personalizada, que vá ao alcance desses estudantes, que conquiste eles a voltar e permanecer na escola. Altera ainda a nossa relação com eles, trazendo mais proximidade e a compreensão de que não dá para homogeneizar minha turma e esperar que todos tenham os mesmos resultados. 

Levar em conta o contexto e as condições de acesso a direitos básicos permite atender, antes de tudo, as necessidades básicas dos estudantes para que eles tenham condições de estudar, sempre contando com o apoio intersetorial.

CR: Por que é papel da escola ir além de lecionar conteúdos pedagógicos?

Minha mãe era quebradeira de coco babaçu, levava as crianças para a roça, começamos muito pequenos a trabalhar lá. Fui alfabetizado aos 12, quando era faxineiro e fui estudar à noite para conseguir entrar na universidade e passar em um concurso, e aqui estou hoje. 

A escola é esse espaço, pensando na perspectiva freiriana de que é gente, não é o físico, de proporcionar e construir futuros e projetos de vida, especialmente no atual momento, ela precisa abrir esses horizontes e trazer novas perspectivas. 

Para que isso aconteça, é preciso investir na formação inicial e continuada dos professores, para que eles tenham essa percepção de que educação não é só transmitir informação. É se preocupar com o ser completo, seus valores, sentimentos, seu contexto material, suas crenças; é projetar futuros.

O que é a #Reviravolta da Escola?

Realizado pelo Centro de Referências em Educação Integral, em parceria com diversas instituições, a campanha #Reviravolta da Escola articula ações que buscam discutir as aprendizagens vividas em 2020 e 2021, assim como os caminhos possíveis para se recriar a escola necessária para o mundo pós-pandemia.

Leia os demais conteúdos no site especial da #Reviravolta da Escola.

Secretarias de Educação respondem: qual o nosso papel no planejamento para o pós-pandemia?

As plataformas da Cidade Escola Aprendiz utilizam cookies e tecnologias semelhantes, como explicado em nossa Política de Privacidade, para recomendar conteúdo e publicidade.
Ao navegar por nosso conteúdo, o usuário aceita tais condições.