publicado dia 07/08/2014

Eu e o Outro: o perigo da história única

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Quando criança, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie convivia com Fide, um menino que trabalhava para sua família. Tudo o que ela sabia sobre ele é que sua família era muito pobre. Diante de qualquer desperdício, a mãe de Chimamanda chamava sua atenção: “termine sua comida! Você não sabe que pessoas como a família de Fide não tem nada?”. Ela só conseguia sentir pena dele.

Um dia, Chimamanda e sua família foram visitar a aldeia de Fide. A pequena garota ficou surpresa ao ver um cesto que o irmão do garoto havia feito. “Nunca havia pensado que alguém em sua família pudesse realmente criar alguma coisa”, relata. “Tudo o que eu tinha ouvido sobre eles era como eram pobres, assim havia se tornado impossível para mim vê-los como alguma coisa além de pobres. Sua pobreza era minha história única sobre eles.”

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Pegar toda a complexidade de uma pessoa e de seu contexto e reduzi-los a um só aspecto é o que Chimamanda chama de o perigo da história única. Como uma estudante nigeriana em uma universidade nos Estados Unidos, ela vivenciou com frequência isso. A imagem do continente africano como lugar de guerras e fome se refletiu na imagem que tinham dela. De sua colega de quarto, Chimamanda escutou questionamentos sobre sua capacidade de falar inglês ou de operar um fogão e dúvidas sobre a “música tribal” que ela escutava. “Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem iguais a ela, de jeito nenhum.”

A história única também recaiu sobre seu trabalho literário, criticado por não ser “autenticamente africano” já que seus personagens dirigiam carros, não passavam fome e tinham coisas em comum com os americanos. Esta diferenciação entre o eu e o Outro, segundo a autora, é uma das graves consequências da história única. “Ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes, ao invés de como somos semelhantes.”

Chimamanda também aponta a história única como fonte dos estereótipos: “mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão”. Para a escritora, “poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa”.

Chimamanda Adichie é uma das principais escritoras nigerianas da atualidade. É autora de poemas, contos e romances. Seu último livro, “Americanah”, foi apontado pelo jornal New York Times como um das dez melhores obras de 2013. Além da palestra “O perigo da história única”, Chimamanda também falou em evento livre do TED (TEDx) sobre feminismo.

Se Chimamanda traz tanta atenção aos perigos da história única, ela ressalta o poder das histórias. “Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar malígno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar”, pondera. “Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida.”

Povos ou indivíduos são complexos e formados por múltiplos aspectos; dar conta de perceber e compreender essa diversidade é tarefa árdua. Para a educação, especialmente na concepção de educação integral, o desafio é desenvolvimento da capacidade de olhar para o outro e tentar compreendê-lo, para além de ideias pré-concebidas. Para o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Miguel Arroyo, o desafio da educação é desenvolver as múltiplas dimensões do indivíduo. “O ser humano é um sujeito integral, enquanto sujeito de conhecimento, de cultura, de valores, de ética, de identidade, de memória e de imaginação e a educação integral tem que dar conta de todas essas dimensões do ser humano.”

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