publicado dia 16/09/2014

“O contato com a alteridade transforma uma cultura sem cessar”, atesta educador

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É consenso que o entendimento e reconhecimento do Outro como sujeito integral, com características, dimensões e costumes próprios, é fundamental para a efetivação de uma sociedade mais justa, participativa e igualitária. Mas como construir a alteridade nos indivíduos? Como garantir que as relações nasçam a partir da valorização dos contextos inter e transculturais, próprios da sociedade? Qual o papel da escola nesse cenário?

Levamos essas perguntas ao professor José Luiz Aidar Prado, doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), instituição onde também leciona. De 2002 a 2008, o docente coordenou um projeto de pesquisa “A Invenção do Outro na mídia semanal” que procurou entender como os discursos da mídia também incidem sobre a construção da alteridade. O pesquisador avaliou os discursos de alguns veículos a partir das incursões feitas acerca da riqueza (o Mesmo), e da pobreza (o Outro), prevendo a construção de um projeto de educação para mídia direcionado a professores.

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Em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral, Aidar falou sobre as representações dessa cultura desconhecida que pode ora aproximar ou afastar do Outro; também problematizou o dimensionamento errôneo do Outro com o episódio do 11 de setembro que, este ano, completa 13 anos. E reconheceu: “o contato com a alteridade transforma uma cultura sem cessar, ficando difícil localizar a ‘essência’ imutável de cada uma, quando em seu contato.”

Centro de Referências em Educação Integral: Esse ano, completamos 13 anos do episódio do 11 de setembro. Desde então, foram disseminados estereótipos muito fortes sobre as populações árabes e muçulmanas, rechaçando parte dessas culturas e estabelecendo a cultura ocidental como oposição. O senhor considera que parte da sociedade perdeu sua alteridade?

José Luiz Aidar Prado: Os estereótipos sobre o oriente não começaram com o 11 de setembro. No livro Orientalismo, de 1979Edward Said já discutia a construção da representação de um oriente exótico e romântico no mundo europeu, colonizador do oriente. Essa representação concentra, como diz Said, uma das imagens mais fortes e recorrentes do Outro, da alteridade, da cultura a nós estranha, mas fascinante, em que o Outro tem algo que não temos e nos faz reagir de várias formas, do ódio ao enamoramento.Sob essa perspectiva, o Oriente é “parte integrante da civilização e da cultura material europeia”.  No contato com as demais culturas, durante séculos de aventuras de poder e comércio, foram produzidos discursos, materializados em instituições, sobre esses Outros.

Por exemplo, hoje, nos contatos com a China, muitos brasileiros tem de se aproximar, menos ou mais, da cultura chinesa, visitar a China, participar da construção de um imaginário e de discursos sobre esse vasto mundo cultural. Com o 11 de setembro, ocorreu uma intensificação de uma visão do árabe como terrorista ameaçador e uma generalização disso para toda a cultura árabe. Mas, para melhor entender a recepção do 11 de setembro deveríamos, como faz Todorov [Tzvetan Todorov, linguista e filósofo búlgaro], recuar para 1996, quando foi publicado o livro O choque das civilizações [do pesquisador americano Sammuel Huntington].

O autor, Huntington, divide de modo conservador o mundo globalizado em dois conjuntos: as culturas ocidentais e as não ocidentais. As ocidentais, principalmente a dos americanos e europeus, estariam ameaçadas e a saída seria reforçar sua união, sua identidade ocidental. A leitura de Huntington é simplista diante da de Said, mas ela penetrou forte no mundo americano e de certo modo já prefigurava o modo de reação dos Estados Unidos e do Ocidente diante da destruição das torres gêmeas. Antes da queda do muro de Berlim, havia o enfrentamento entre Estados Unidos e União Soviética, evitando confronto direto, mas depois, com o desaparecimento desse conflito, surgiu a ideia do confronto entre culturas. E nesse cenário, os blocos potencialmente mais perigosos seriam China e Islã.

CR: Como se constrói a alteridade?

Aidar:  No contato com a cultura do outro são produzidas representações que ora nos aproximam, ora nos afastam do Outro. Ao analisar, entretanto, o Islã como se fosse uma só civilização, incorremos no perigo de uma generalização infundada, visto que esse conjunto envolve mais de 1 bilhão de pessoas e não há critério único que as una em um só conjunto civilizacional. Há misturas ao longo dos séculos, entre as culturas e povos, fazendo com que se transformem intensamente. O contato com a alteridade transforma uma cultura sem cessar, ficando difícil localizar a “essência” imutável de cada uma, aquela que não se altera em contato com a alteridade. Quando se coloca o Outro na posição daquele que nos impede de sermos nós mesmos, como fez o nazismo em relação aos judeus, estamos no pior dos mundos.

CR: Qual o papel da escola nesse processo?

Aidar: A escola pode apresentar aos alunos a força da cultura e dos imaginários, explicitando o movimento desses contatos interculturais, transculturais, que produzem sem cessar mudanças em cada uma das partes. A escola pode exercitar um olhar compreensivo da cultura do outro, produzindo, ao mesmo tempo, reflexão sobre a necessidade de diálogo com o Outro, ou seja, a compreensão da diferença entre culturas, mas da busca de algo que ultrapasse o meramente relativista, de algo que possa nos unir a partir das (e não contra as) diferenças.

CR: Como a alteridade pode ser trabalhada no contexto escolar? Existem momentos específicos para essa abordagem ou ela deve fazer parte do cotidiano da aprendizagem?

Aidar: Esse aprendizado deveria fazer parte do contexto cotidiano das disciplinas, da vivencia da cidade, da leitura das mídias, da compreensão da literatura e da política. Os temas disciplinares deveriam ser aproximados daqueles da vida cotidiana em que os vários grupos sociais vivem realidades culturais e sociais diferentes.

CR: Em seu trabalho “Invenção do Mesmo e do Outro”, você compara os discursos da mídia voltados à classe média (o Mesmo) e às classes mais periféricas (o Outro), como forma de preparar professores para essa leitura, prevendo um projeto de educação para a mídia. O que o senhor define como educação para mídia?

Aidar: A educação para a mídia, como pensei naquela pesquisa, deveria ser compreendida como parte de um entendimento geral dentro dos conflitos culturais entre os grupos sociais, tentando entender como as vários mídias constroem representações, figurações e tematizações sobre os modos de construir identidades. Educar para as mídias não significa somente ensinar a ler ou usar as mídias, mas entender como funciona o mundo simbólico, como os discursos circulam entre os grupos sociais e como as mídias se posicionam frente a isso.

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