publicado dia 21/10/2015

Como nasce uma escola: Instituto Casa Viva promove debate do direito à cidade

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selo_como nasce uma escolaNa sexta reportagem da série Como nasce uma escola?, o Instituto Casa Viva Educação e Cultura, de Belo Horizonte, conta ao Centro de Referências em Educação Integral como vem construindo relacionamento com a comunidade e o território.

A relação do Instituto Casa Viva com a comunidade e o território em que está inserido, bairro Cidade Jardim, em Belo Horizonte, vem sendo lapidada de dentro para fora nesses 10 meses de existência da instituição. “Estamos construindo o nosso lugar, pesquisando e, com isso, entendendo a nossa relação com a localidade, que parte inclusive da casa que hoje ocupamos, visto que ela já foi uma moradia e já serviu ao comércio local, ou seja, traz memórias da região”, coloca Guto Borges, professor na área de eletivas e de Audiovisual.

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Créditos: divulgação

Recuperar as histórias do bairro tem sido a principal estratégia da escola para estruturar um envolvimento mais sólido entre a comunidade escolar e a do entorno. “Estamos trabalhando com a composição do passado para mapear o presente e significar o futuro”, declara. Para o docente, esse movimento vem sendo fundamental para que a escola construa com os jovens as vontades e desejos acerca do território.

Reconhecimento local

Com isso, os atores escolares vêm se lançando para o perímetro externo, com o objetivo principal de explorar e reconhecer potenciais parceiros que podem contribuir com o projeto político pedagógico da instituição, na perspectiva da integração à cidade educadora. Foi nesse caminho que se deu a aproximação da escola com o Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), localizado no bairro.

“A partir da percepção de que nós tínhamos a necessidade de ter um diálogo mais aberto com os equipamentos culturais, estendemos esse convite a eles”, conta Guto, falando sobre o tom de aproximação que hoje sustenta uma parceria. “Queríamos entender a viabilidade do museu sair de si mesmo e ganhar a cidade”.

Outras projeções

O interesse sobre o tema da mobilidade conquistou outros espaços. Guto conta que, após o término da eletiva que tratou sobre o tema, um grupo resolveu fundar um coletivo, chamado Contra Corrente. Atualmente, eles se encontram uma vez por mês para pedalar na região e também promovem oficinas que promovem o repensar do território e discussões sobre “a cultura do carro”. “Hoje muitos deles repensam até o percurso até a escola e já notamos um maior envolvimento deles com as bicicletas e transporte público”, observa o educador.

A proposta deu certo e originou um projeto permanente na escola, em fase de execução, sobre Museologia. O projeto surgiu a partir das discussões em uma disciplina eletiva com os estudantes do ensino médio sobre mobilidade urbana, tema escolhido por eles mesmos. “O tema foi um dos que mais reverberou entre eles quando votaram pelas eletivas”, conta o docente.

O tema foi trabalhado por seis meses e um dos debates presentes foi o direito à cidade, aos seus equipamentos públicos e bens culturais, o que se relaciona com o direito de se movimentar dentro do espaço urbano. O projeto junto ao MHAB veio nesse ensejo.

“Junto ao museu, estamos construindo uma ideia de memória e cidade, em diálogo com os desejos da juventude“, coloca Guto. Algumas ações já podem ser vistas nesse sentido. Na rua da escola, por exemplo, há várias casas antigas, patrimônios abandonados. Diante disso, os alunos têm trabalhado para mapeá-las, buscando no Museu imagens antigas dos imóveis. “Eles querem fazer um lambe-lambe na frente de cada uma delas, com as imagens resgatadas. Isso é válido para que comecemos a perceber esses locais que tiveram seu uso distorcido”, avalia.

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Créditos: divulgação

Uma abordagem transversal

Christian Bravo, um dos professores associados e que também leciona Filosofia na instituição, garante que o tema da mobilidade urbana é transversal dentro da instituição. Ele conta que também é realizado um trabalho no território com as crianças menores, orientado pela fase do desenvolvimento integral, respeitando os diferentes graus de percepção delas. São feitos, com os alunos, percursos dentro do território, inclusive até o MHAB.

“A ida ao Museu parte de um trabalho de reconhecimento, ou seja, que elas se reconheçam na cidade onde moram, nos lugares que geralmente frequentam, e como se localizam no mapa de Belo Horizonte”, descreve o educador.

Ele entende que esse movimento é o início de um repensar sobre a cidade. “Isso é fundamental diante da cultura de deslocamento dessas novas gerações, geralmente feitos de carros. Nessa perspectiva, a cidade acaba por ser um local de trânsito, mais do que permanência”, avalia. Christian fala sobre o que considera o movimento de “deslizar pela cidade”. “O menino que mora em um apartamento da zona sul da cidade, área nobre, se desloca de carro com os pais, ou com o transporte escolar. Se pensarmos em lugares de entretenimento [que eles frequentam], quase sempre vão a shoppings, ou à casa de alguém, ou seja, só lugares privados”, considera.

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Créditos: divulgação

Para o educador, portanto, é fundamental colocar em pauta a ocupação dos espaços públicos, tarefa que o Instituto Casa Viva tomou para si, criando experiências de uso desses espaços com seus estudantes. Para Christian, uma coisa é certa: “A educação se realiza quando os alunos começam a sair da escola e realizar intervenções públicas”, finaliza.

Atualmente, a escola forma 145 estudantes, da educação infantil ao médio.

 

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