publicado dia 01/07/2015

Como nasce uma escola: familiares são convidados a tomar decisões

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Na quinta reportagem da série Como nasce uma escola?, o Instituto Casa Viva Educação e Cultura, de Belo Horizonte, conta ao Centro de Referências em Educação Integral como dialoga com a comunidade e assegura os processos participativos

selo_como nasce uma escola“Quanto mais transparentes e colaborativas forem as relações escolares, mais efetivas elas se tornam”. O pensamento da sócia fundadora e também professora do Instituto Casa Viva, Andrea Aparecida de Araujo Zica, vai ao encontro do movimento que a instituição tem feito em seus primeiros meses de funcionamento efetivo: o de se aproximar da comunidade.

Alunos, professores, funcionários da escola e familiares, todos diretamente envolvidos com a educação, são considerados como atores nos processos decisórios da instituição.

Isso vem se consolidando para além da agenda tradicional, comum à maioria das escolas. Lá também acontecem as reuniões de pais, momentos em que são compartilhados resultados e balizadas as expectativas de aprendizagem, geralmente ao início ou término dos processos de avaliação dos estudantes. Mas os momentos participativos não se encerram aí.

Instância de participação de pais

Para atender a demanda da participação dos familiares, a escola criou o projeto Escola de Pais. Embora novo na casa – são dois meses desde o seu lançamento – ele vem consolidando um espaço participativo e democrático no Instituto. E isso se dá mensalmente em encontros com as famílias, livres de qualquer vinculação à série dos estudantes ou de outros agrupamentos. “É um momento dos pais, integrantes dessa comunidade, com a equipe; e não se trata de uma agenda de comunicação, no sentido de comunicar algo (como comumente é feito na reunião de pais), mas de formação e construção coletiva”, explica Andrea.

Encontro mensal da Escola de Pais.

Encontro mensal da Escola de Pais

“Respeito ao sujeito”

Para Marcia Lousada, mãe de Julia, aluna do 8º ano, o Instituto Casa Viva tem uma identidade bastante própria: “de valorizar a arte como linguagem, de não terceirizar a educação e de fazê-la de maneira integrada às famílias, e dialogar com os diversos sujeitos”. Como mãe de uma criança com deficiência – Julia usa cadeira de rodas – ela se diz segura pela proposta pedagógica valorizar a expressão das habilidades de cada um e de não usar isso em detrimento do que não é possível e também por se dar às claras: “sei que do ponto de vista estrutural a escola não atende 100% das necessidades da minha filha, mas eles jogaram aberto, estamos construindo isso juntos e trabalhando em um cenário possível, não apenas idealizado”, coloca.

A ideia é que os familiares assumam decisões e responsabilidades escolares em conjunto com a equipe, e entendam que a participação não só é bem vinda como necessária para que a educação se dê em um contexto dialógico e diverso.

Uma das pautas da Escola de Pais foi a festa junina escolar realizada no mês de junho. Em um primeiro momento, os familiares foram envolvidos em estudos sobre as festas populares, sob mediação de um dos professores de Filosofia da instituição. Os envolvidos puderam debater o papel dessas festas na manutenção das comunidades, a história delas no país, do ponto de vista da origem e principais características, a relação religiosa e cultural, entre outras reflexões. Depois disso, se partiu para a construção do ideal de festa que gostariam de reproduzir, para então construí-la a partir da colaboração.

Segundo Andrea, há uma via de mão dupla para que essa interação família-escola aconteça. Uma delas parte da própria procura da escola pelos familiares, conforme a demanda – a instituição tem feito um mapeamento do perfil profissional e os interesses deles, informações colhidas a partir de um questionário elaborado e enviado a cada um desses responsáveis. Essa sistematização partiu de um interesse das próprias famílias, que se colocaram à disposição dos processos educacionais, durante as reuniões. “Essa semana um professor de Biologia convidou uma mãe obstetra para fazer um debate com os alunos do aumento das cesarianas no país”, conta a gestora.

A outra via, contrária, é quando a demanda parte das famílias, uma prática frequente no instituto. Em geral, propõem dar uma contribuição a partir de algum conhecimento ou vivência.

Relação significativa

participacao_paisPara Andrea, embora subjetiva, a participação familiar tem uma contribuição direta com a educação. “A presença dos responsáveis na vida escolar é significativa para o desenvolvimento integral dos estudantes, ainda mais quando eles veem um familiar dando uma palestra, uma oficina”, coloca.

Essa vivência também é uma porta de entrada para que a escola dialogue com as famílias e os diversos arranjos familiares, o que faz com que essas discussões, necessárias, se deem em um contexto prático e natural. “Procuramos sempre fortalecer os laços afetivos, fortalecer as relações e ampliá-las do ponto de vista da diversidade que nos constitui”, finaliza a educadora.

“Mais liberdade”
É dessa forma que a bibliotecária Eliana Cunha justifica a matrícula de suas duas filhas – Raquel, 2 anos, e Regina, 4 anos, no Instituto Casa Viva. Após experiência em instituições mais tradicionais ela buscava um lugar “em que as crianças fossem mais livres, pudessem brincar e não fossem submetidas a alfabetização precoce ou métodos rígidos de disciplina”. A sua possibilidade participativa também foi decisiva para a escolha. “Por mais que levasse minha opinião, ela nunca era acatada, porque se tinha um modelo educacional fechado. O instituto me trouxe essa proposta acolhedora, abertos ao diálogo, em que os pais são convidados a negociar em conjunto com a instituição.”

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