publicado dia 06/03/2026

Como a violência de gênero nas escolas impacta as meninas? 

Reportagem:

🗒️Resumo: A violência de gênero nas escolas é naturalizada e afeta de forma significativa a trajetória de meninas e mulheres. A análise é da pesquisa “Livres para Sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, que sondou 1400 professores, estudantes e gestores escolares sobre as barreiras e agressões sofridas por elas nas escolas. 

Comentários sobre o corpo e o comportamento, xingamentos, contatos físicos forçados e exposição não consentida da intimidade. Frequentemente naturalizadas e disfarçadas como brincadeiras, essas violências contra meninas são comuns nas escolas brasileiras.

“Meninos falam do seu corpo, peito, bunda. Falam na cara, é muito constrangedor. Na cabeça deles é brincadeira, mas é violento”, compartilha uma estudante do Ensino Médio.

“No ano passado, a gente não podia entrar de cropped, a diretora mandava a gente pra casa para trocar. Falavam que a gente chamava a atenção de roupa curta, que iria distrair os meninos, que a gente tinha que se portar. Para os meninos não falam nada, o problema é só a gente.”, relata outra estudante, do 9º ano do Ensino Fundamental.

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Além de reforçar a desigualdade de gênero e criar um ambiente de hostilidade, o cenário afeta de forma negativa a trajetória escolar delas para 86% dos professores. Outros 71% afirmam ter notado impactos negativos para o desenvolvimento e aprendizagem das estudantes. 

Os dados são da pesquisa “Livres para Sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas”, que sondou 1400 professores, estudantes e gestores escolares e de secretarias de Educação sobre as barreiras e agressões sofridas por elas nas escolas. 

O estudo é uma iniciativa da Serenas, organização que atua para prevenir as violências baseadas no gênero no Brasil. 

O que é violência baseada no gênero (VBG)
O termo abrange todas as formas de violência e ameaças de violência que afetam estudantes em decorrência da sua identidade de gênero e que estão relacionadas ao ambiente escolar. Ou seja, ela pode acontecer dentro da escola, no trajeto para ela, durante atividades extracurriculares ou por meio das redes sociais. Essas violências podem ser infligidas pelos próprios estudantes, professores ou outros membros da comunidade escolar.

“Embora indicadores educacionais mostrem que meninas têm desempenho escolar superior ao dos meninos, estes dados não revelam o custo emocional, social e subjetivo que muitas meninas enfrentam para permanecer estudando – e o quanto a violência impacta o bem-estar de toda a comunidade escolar”, destaca a pesquisa. 

O que a pesquisa revela sobre a violência contra meninas na escola 

Pesquisa mostra Como a violência de gênero nas escolas impacta as meninas

A violência de gênero nas escolas impacta o comportamento e o desenvolvimento integral das estudantes.

Um número expressivo (68%) dos professores entrevistados pela pesquisa relatam já ter presenciado situações em que meninas estudantes foram alvo de comentários constrangedores sobre seus corpos e roupas, feitos por outros alunos ou até por professores.

Além disso, 70% dos participantes afirma já ter visto estudantes sexualizando as meninas por conta das suas roupas ou comportamentos. 

Outros 15% afirmam ter conhecimento sobre situações de assédio sexual de docentes contra estudantes do sexo feminino no último semestre letivo, incluindo cantadas, olhares invasivos e propostas inapropriadas. 

Para 71% dos docentes, as violências impactam o comportamento e o desempenho das estudantes. 

Embora reconheçam que é papel da escola fazer alguma coisa, a sondagem revela que, de forma geral, os educadores não estão familiarizados com o tema da violência contra meninas e não se sentem preparados para abordar o assunto em sala de aula ou mesmo reagir diante de episódios de violência. 

A quase totalidade (99%) dos professores participantes da pesquisa acredita que a escola deve prevenir a violência baseada no gênero de alguma forma. 

No entanto, falta formação para transformar a vontade em ação: 77% gostaria de receber mais informações sobre o tema, mas isso não acontece. 

Além disso, os participantes da pesquisa destacaram que existem resistências institucionais e das famílias que acabam travando as discussões sobre o tema na escola. 

O que escolas e secretarias de educação podem fazer? 

Além dos dados e percepções da comunidade escolar sobre as violências baseadas em gênero, a pesquisa elenca recomendações para enfrentar o cenário, dirigidas para Secretarias de Educação e escolas: 

Secretarias de Educação

– Ofertar capacitação aos técnicos da Secretaria que sensibilizem sobre o seu papel no combate e prevenção das violências e apoiem a criação e implementação de iniciativas nas redes para mudar esse quadro.

– Realização de diagnóstico para mapear resistências no contexto das escolas, propondo estratégias para integrar a comunidade escolar nessas discussões.

– Criação de protocolos claros para identificação e encaminhamento de casos de VBG dentro e fora das escolas.

– Estabelecimento de pontos focais ou áreas específicas nas Secretarias para apoiar as escolas na prevenção e combate às violências de gênero. 

Escolas 

– Sensibilização sobre o papel de gestores escolares e professores no combate e prevenção à violência baseada no gênero. 

– Instrumentalização em relação às legislações e atuação intersetorial com rede de proteção local.

– Formações continuadas que abordem como reconhecer e acolher situações de  violência contra meninas e mulheres, além de como evitar revitimização e como agir de forma preventiva e como criar iniciativas para dialogar e aproximar os responsáveis pelos estudantes em discussões sobre o tema. 

– Distribuição de materiais práticos sobre a temática, assim como protocolos que orientem a ação de professores em casos de violência contra meninas. 

– Promoção de momentos de troca entre gestores, professores e outros atores da comunidade escolar, com o objetivo de discutir situações e alinhar práticas em relação à prevenção e ao combate às violências baseadas no gênero. Essas iniciativas ajudam a reduzir ruídos, além de estabelecer uma cultura de apoio coletivo e menos dependente de ações individuais.

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