publicado dia 18/09/2026
Cadu Fernandes: “A escola é o grande equipamento público”
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 18/09/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
Resumo: A escola pública centraliza os direitos das crianças, possibilita a convivência com a diversidade e se fortalece no diálogo com o território – defende o educador Cadu Fernandes. O coordenador pedagógico da EMEF Espaço de Bitita, em São Paulo (SP) será mediador no Seminário Educação Integral em Debate 2026, que acontece nos dias 23 e 24 de setembro.
“Quem faz as críticas à Educação pública não está entendendo nada do que está acontecendo”, afirmou Carlos Eduardo Fernandes Junior, o Cadu, coordenador pedagógico da EMEF Espaço de Bitita, em São Paulo (SP), durante entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral.
O educador explicou as variáveis que influenciam a qualidade educacional e lembra que nas últimas décadas, sobretudo após a ampliação do acesso, a escola pública se consolidou como parte da rede de proteção social das crianças, adolescentes e suas famílias.
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É também essa escola que segue abrindo as portas para quem ficou de fora, como as mulheres, as crianças negras e as com deficiência e transtornos, grupo que, segundo Cadú Fernandes, já passa de 10% dos estudantes da Espaço de Bitita.
O educador vai mediar a mesa “Experiências que mostram qualidade e equidade na prática” durante o Seminário Educação Integral em Debate 2026, que acontece nos dias 23 e 24 de setembro pelo canal no YouTube do Centro de Referências em Educação Integral.
A seguir, confira a entrevista com o educador:
Cadu: A escola pública, que a princípio se dedicava à formação, ao longo dos últimos anos passou por transformações importantes. Desde a universalização do Ensino Fundamental, passamos a discutir a rede de proteção social. Como garantir que as crianças cheguem e permaneçam na escola?
A escola pública é hoje centralizadora das políticas de direito das crianças e das juventudes. É o grande equipamento público que temos. Quando a Educação pública considera o sujeito na sua integralidade, e a Educação de fato é integral, temos uma experiência muito mais complexa.
Isso porque não vamos discutir apenas os índices avaliativos, vamos discutir como é que essa criança se forma, quais são as identidades que se forjam nesse lugar, as culturas correntes, a ancestralidade, o acesso à saúde, moradia, segurança pública.
Além disso, a escola é o lugar do encontro com outros sujeitos. Vivemos numa sociedade apartada, segmentada, seja nos grupos de fé, de culto, de militância ou de trabalho. A escola pública talvez seja a única experiência em que se convive com tanta diversidade: as pessoas com deficiência, todas as raças, identidades de gênero, todas as práticas religiosas. É difícil que ao longo da vida se encontre outros espaços com tanta riqueza.
Cadu: É a disputa por orçamento e política num campo grande. Quando consideramos experiências públicas de grande êxito, percebemos muita diferença em relação ao orçamento, o número de alunos por sala, a carga horária dos professores, quem é o público que acessa a escola e o sentido que a experiência educacional vai ter para aquela comunidade.
Ao olhar para o número de horas-aula que professores de escolas de aplicação das universidades e os institutos federais dão por semana, para os projetos de pesquisa e para quem são os estudantes, o que se descobre é que essas escolas os estudantes são filhos dos universitários ou dos funcionários da universidade, onde a Educação tem outro valor. Então, não são só questões financeiras, tem todo o contexto do território, do sentido da escola para aquela comunidade. Por isso é muito difícil replicar esses modelos.
Quando surgem experiências como as das escolas cívico-militares, é exatamente para padronizar e ignorar os contextos que estão ao redor da escola. Não importa se a fome acontece aqui dentro, você se põe perfilado, canta o hino nacional e respeita a autoridade do professor. O espaço de escuta diminui, e acho que até deixa de existir.
Também temos percebido que escolas pequenas tendem a ter grandes resultados educacionais, porque a experiência é mais mensurável. Tem um conjunto de profissionais que consegue escutar um grupo mais definido.
Há apontamentos de que escolas de até 300 alunos têm um resultado, e os casos com 600 alunos têm outros resultados, ainda que você mantenha proporcionalmente o número de funcionários. Uma comunidade menor tem outra condição de olhar para os desafios que tem, seja a comunidade escolar, sejam as mães, os pais e as lideranças locais.
Para mim, quem faz críticas à Educação pública, ao suposto fracasso do sistema público, não entende o que está acontecendo. É essa escola pública que alfabetizou todo mundo, não foram as escolas particulares ou os institutos federais, e é a escola pública que é para todos e todas.
Com a mudança da pirâmide etária no país, em um projeto de longo prazo se começa a discutir a qualidade num outro campo. Por exemplo, na cidade de São Paulo (SP), em uma década teremos de 100 a 150 mil alunos a menos, uma redução de 10 a 15% em 10 anos. Não estamos mais correndo para construir tantas escolas, mas para qualificar os espaços educacionais.
Cadu: A escola faz um trabalho o tempo todo para que se construa um ambiente com equidade. Como é que eu ofereço mais condições aos sujeitos que mais precisam e crio o caminho para que aqueles que já estão encaminhados sigam os seus percursos?
É o tempo todo organizando e reorganizando os estudantes a partir de faixas de aprendizagem, de possibilidades de conhecer e de trocar. O tempo todo eu preciso saber quem é que precisa mais, para oferecer mais a eles.
A família e a sociedade precisam compreender que o lugar da escola é o lugar de construir as nossas relações, viver as nossas ancestralidades, entender a nossa história, alfabetizar e construir uma linguagem matemática. Senão, estamos disputando só as faixas de proficiência. Para mim, qualidade é entender quem são todos esses sujeitos.
Vou dar um exemplo concreto. Hoje temos a chegada das crianças que são público do Atendimento Educacional Especializado (AEE), que são crianças com transtornos ou com deficiência. Esse grupo já passa de 10% na Espaço de Bitita. Como eu crio acessos às experiências curriculares com essas crianças? Esse volume possivelmente só está sendo vivido pela escola pública.
Quando as crianças e adolescentes negros acessaram de fato a Educação, foi por meio da escola pública. Quando as mulheres acessaram a Educação, foi através da escola pública. E agora, quando as crianças com deficiência e com transtornos acessam a Educação, é por meio da escola pública. É mais um passo que demonstra que a escola pública se abre com a experiência com todos e com todas.
É a escola pública que está o tempo todo criando novos mecanismos de acesso, dentro do turno escolar, fora do turno escolar, com uma rede de Saúde e uma rede de Assistência em diálogo. É uma complexidade enorme.
Para mim, hoje, a chegada das crianças com deficiência é mais uma prova de que é na escola pública que vamos conseguir avançar mais, conversar sobre isso, produzir pesquisa e sinalizar novas demandas e novas estruturas, que vão contribuir para a permanência e a aprendizagem de todo mundo.