publicado dia 19/03/2026
Fora da escola: como o racismo produz exclusão escolar
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 19/03/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒 Resumo: Entenda de que forma o racismo impacta o acesso e a permanência de estudantes negros na escola, e como a produção de dados sobre o fenômeno pode apoiar a promoção do Direito à Educação de crianças e adolescentes.
Em Santa Bárbara (MG) e Catas Altas (MG), o projeto Territórios em Rede encontrou 652 crianças e adolescentes em situação de exclusão escolar em 2025. Juntas, as redes municipais e estadual somam quase 6,4 mil estudantes.
Leia mais
Saiba mais sobre Santa Bárbara e Catas Altas. Os municípios estão localizados no sudeste do estado de Minas Gerais, em uma área conhecida como Circuito do Ouro por abrigar patrimônios históricos e culturais surgidos durante a exploração do minério na região. O primeiro possui 31,2 mil habitantes e um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado alto (0,707). O segundo, 5,7 mil habitantes e um IDH médio, de 0,684.
Ao investigar o que levou a esse afastamento da escola, a equipe do programa que se dedica a realizar a Busca Ativa escolar pediu para as famílias elencarem três motivos principais.
São eles: desinteresse pela escola (98%), famílias em situação de pobreza (82%) e crianças e adolescentes com deficiência ou problema de saúde que impedia a frequência escolar (75,7%). Em uma análise mais apurada, encontraram outra informação relevante: 7 em cada 10 estudantes em situação de exclusão escolar (76%) eram negros – 52,5% pardos e 23,5% pretos.
“O racismo está diretamente ligado à escolarização”, confirma Julia Maria Muniz, gestora local do programa à época, desenvolvido pela Cidade Escola Aprendiz, em parceria com a Fundação Vale e as prefeituras.
A situação detectada nas cidades mineiras não é um ponto fora da curva. Levantamento divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em 2025 revelou que 993 mil crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão afastados das salas de aula no Brasil.
A maioria do contingente (67%) de crianças e adolescentes em situação de exclusão escolar eram negros ou indígenas e mais da metade vivia nos 20% lares mais pobres do país.
🔎 Exclusão escolar ou exclusão educacional é quando uma criança ou adolescente em idade escolar (4 a 17 anos) não está frequentando a escola. No Brasil, desde 2016, a escolarização é obrigatória para essa faixa etária.
No Brasil, a população branca tem acesso à escola desde os primeiros anos da colonização. Já a população negra e escravizada enfrentou leis que explicitamente proibiam sua matrícula nas escolas até recentemente.
Em 1854, por exemplo, a reforma educacional de Couto Ferraz instituiu a obrigatoriedade da escola para crianças maiores de sete anos, mas proibia a matrícula “crianças com moléstias contagiosas e escravas”. A lei não previa ensino para adultos.
O cenário de acesso à escolarização começa a mudar lentamente após 1888, quando caem as barreiras legais diretamente ligadas à escravização, mas persistia o racismo e restrições à compra de terras e de acesso ao mercado de trabalho.
Foi apenas 100 anos depois, em 1988, que a Constituição Federal tornou o racismo um crime inafiançável e imprescritível. São quase 500 anos até crianças, adolescentes e adultos negros não poderem ter seu direito à Educação negado por lei, o que aconteceu há apenas 38 anos.
O que é a necropolítica? O conceito criado pelo filósofo Achille Mbembe descreve o poder de decidir quais grupos serão expostos de forma sistemática à violência, ao abandono e à morte. Assim, o poder político também produz “zonas de morte”, em que determinadas populações passam a viver sob risco constante, com menos proteção, menos direitos e mais repressão. Saiba mais sobre necropolítica.
Ainda hoje, os pilares que sustentam o racismo se renovam. Se não mais por meio de leis explícitas, pela necropolítica e não cumprimento de leis antirracistas, como a 10.639/03 e a 11.645/08, que instituíram a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura africana, afro brasileira e indígena nas escolas de todo o país.
A taxa de cumprimento da lei nas escolas brasileiras é de 29%, de acordo com o Geledés Instituto da Mulher Negra, apesar de ser apontada por especialistas como fundamental para refletir a identidade e história dos estudantes da escola pública, de seus territórios, e tornar a escola mais significativa para todas as pessoas, não apenas negros.
“Um adolescente negro tem três vezes mais chances de morrer por morte violenta do que um adolescente branco. A população de 5 a 17 anos submetida a trabalho infantil é 66% negra e 32% branca. Fora acesso a moradia de qualidade, saúde, esporte e lazer. Toda a condição de vida impacta a trajetória escolar dos estudantes. Por isso, compreender os mecanismos e efeitos do racismo é o primeiro passo para enfrentar esse desafio”, diz Helton Souto, cientista social e presidente do Instituto DACOR.
Para apoiar o diagnóstico e o enfrentamento ao racismo no Brasil, o Instituto DACOR – Dados contra o racismo se dedica a produzir, mapear e cruzar dados relacionados às questões raciais. É o caso do Índice de Racismo Ambiental, que identifica áreas racializadas mais precarizadas, e o Mapa de Dados dos Anos Finais do Ensino Fundamental.
“Esses dados evidenciam que não é falta de capacidade de aprender ou de esforço das pessoas negras, mas reflexo da história e do racismo estrutural da sociedade brasileira”, diz Helton Souto.
“Quase 70% dos estudantes da escola pública nessa etapa são negros. E é uma fase da vida de muita transformação. Como o racismo afeta esse momento? Como criar mais políticas e ações voltadas para a etapa, que têm tão poucas?”, indaga Helton Souto, cientista social e presidente do Instituto DACOR.
Para produzir o mapa, a organização levantou dez anos de dados históricos, com 2,8 milhões de estudantes analisados em 5.570 municípios brasileiros. Entre os principais achados, destaca-se que estudantes negros têm taxas de abandono 50% maiores que estudantes brancos na rede pública e o dobro de chance de estar em distorção idade-série na escola.
Em relação à aprendizagem, o nível adequado de desempenho em Matemática entre brancos é de 23%. Para os pretos, 9%. Em Língua Portuguesa, estudantes brancos têm 46% de nível adequado e pretos, 26%.
“Se não olharmos separadamente para pretos e pardos, não enxergamos que os pardos estão um pouco melhor e que as pessoas pretas são especialmente vulnerabilizadas”, destaca Helton.
Sobre a expectativa de futuro nos Anos Finais do Ensino Fundamental, a maioria dos estudantes brancos pretendem terminar o Ensino Médio, ingressar no Ensino Superior e trabalhar. Enquanto para os negros a perspectiva de finalizar a etapa é baixa, por necessidade de trabalhar, e para os que pretendem seguir para o Ensino Médio, preveem precisar trabalhar ao mesmo tempo.

Combater a exclusão escolar depende de criar condições para que as crianças e adolescentes possam permanecer e aprender com qualidade na escola.
Crédito: iStockphoto
“Esses dados evidenciam que não é falta de capacidade de aprender ou de esforço das pessoas negras, mas reflexo da história e do racismo estrutural da sociedade brasileira. Não são casos isolados, situações individuais e específicas, mas reproduções históricas que acontecem com pessoas de determinada cor de pele. E quanto mais negro, pior a situação a que são submetidos”, explica Helton.
Nos municípios mineiros, a saída encontrada para fortalecer as condições para que crianças e adolescentes voltassem para a escola e pudessem nela permanecer e aprender com qualidade, passou pela mobilização da rede intersetorial nos territórios, promovendo o acesso de estudantes e suas famílias aos direitos sociais, como segurança alimentar, transporte, moradia adequada, acesso à Saúde e a programas da Assistência Social.
O Territórios em Rede também apoiou a criação de políticas públicas específicas, contribuindo para que a prevenção e o enfrentamento da exclusão escolar fossem assumidos como uma agenda pública prioritária e permanente.
Desde 2020, a iniciativa implementada em 19 municípios dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Pará, foi responsável por apoiar o retorno de 93% das 21.249 crianças e adolescentes fora da escola ou em risco de evasão escolar localizadas. Desse total, 81% eram negras.
Esse esforço possibilitou que, em dois anos de atuação, 90,5% dos estudantes dos municípios mineiros voltassem para a escola. “Os dados foram fundamentais para qualificar todo esse trabalho”, diz Julia, ao referir-se ao uso contínuo de informações que permitiram reconhecer as condições de vida de estudantes e famílias, compreender os desafios que impactam os territórios e as barreiras que ainda impedem a garantia plena do Direito à Educação.
O que é a Educação Integral Antirracista? A concepção educacional considera as identidades, as diferenças e as diversidades, as práticas culturais e a interação de grupos e pessoas, os múltiplos saberes e a relação com o meio e o território como partes fundamentais que orientam as ações para promover a aprendizagem e o desenvolvimento integral das pessoas, ou seja, a Educação Integral Antirracista é uma Educação contextualizada, democrática, significativa e emancipatória. Saiba mais sobre o conceito.
“O DACOR defende que a agenda racial esteja integrada a todas as políticas, ações e programas, de forma que desde o desenho, implementação, avaliação dos efeitos, em relação a estudantes pretos, pardos, indígenas e quilombolas, sejam contínuas, sistêmicas e integradas”, diz Helton.
O especialista também reforça a importância da implementação efetiva das políticas nos territórios, com monitoramento contínuo, e respaldo em políticas públicas e práticas antirracistas já existentes.
“E que haja levantamento de dados raciais para que se possa enxergar a realidade racial de cada território para tomar decisões com base em evidências. É dimensionar a realidade de cada território por meio dos dados e pensar como eles podem contribuir para promover direitos para quem mais precisa”, afirma Helton.