Professor apoia formação de coletivo feminista em escola

Publicado dia 18/10/2016

De forma bastante prática, o professor Eduardo Kawamura vem mostrando que há pontes entre os conhecimentos escolares diretamente relacionados às disciplinas e os interesses dos estudantes. Foi durante suas aulas de Língua Portuguesa para as turmas do Ensino Fundamental II da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Eduardo Prado, na zona leste de São Paulo, que ele sentiu a necessidade de realizar essa integração.

“Eu atuo no coletivo Rosa Zumbi  e fui procurado por algumas alunas que me perguntaram como elas faziam para se tornarem feministas. Isso possibilitou uma discussão em sala de aula, entendendo que a transformação social no Brasil passa necessariamente pela luta das mulheres. Então, para além de orientá-las a lutarem pelas suas demandas, fui procurar como poderia ampará-las com a minha prática pedagógica”, conta Eduardo.

Desde então, as aulas do professor – que conta com o apoio dacoordenação pedagógica – vêm contribuindo sistematicamente para essas reflexões e também para a organização da pauta feminista dentro da instituição. “Isso se dá sempre em diálogo com as alunas e com as mulheres do coletivo; são elas que me dizem até onde posso ir, afinal, sou homem, não sou feminista”, compreende o docente.

Saiba + A escola como espaço formador para a garantia dos direitos das mulheres

Ele conta que não se trata propriamente de um projeto, mas de uma ação permanente que ganhou adesão de 20 estudantes, sendo 19 meninas e um menino dos 7º, 8º e 9º anos e é chamado de Movimento Feminista na Escola (Movifemi).

Movimento Feminista na Escola (Movifem) reúne 20 estudantes. Créditos: divulgação

Movimento Feminista na Escola (Movifemi) reúne 20 estudantes. Créditos: divulgação

Recursos pedagógicos

A ação encontra eco no currículo escolar. Eduardo conta que parte da própria Literatura para incentivar as discussões com seus alunos e alunas. “Já conseguimos fazer a problematização da condição feminina por meio de contos como “Uma Galinha”, de Clarice Lispector; “Missa do Galo” e “A Causa Secreta“, ambos de Machado de Assis.

Lista de filmes

Veja uma lista com 16 filmes que retratam diferentes tipos de violência e a mobilização das mulheres para garantir seus direitos.

+ 16 filmes para debater os direitos das mulheres

Essas atividades, segundo o docente, são importantes para que os/as estudantes possam organizar o pensamento, e desenvolver capacidades orais e críticas. “Essa coisa da gramática pura e simples não existe mais, não se sustenta nem do ponto de vista científico. Sabemos que muitas escolas trabalham só a parte escrita porque é uma forma de silenciar os jovens”, afirma.

Outros espaços de aprendizagem

As ações também acontecem além das salas de aula. Em conjunto, o professor e os alunos mais diretamente envolvidos definiram uma agenda no contraturno escolar, entre os turnos matutino e vespertino, para que possam aprofundar os momentos de formação.

De início, foram organizados três momentos de uma hora e meia cada em que foram colocadas informações sobre a luta histórica das mulheres, sobre sexismo, machismo, análise de casos e algumas dinâmicas. Também se mantêm reuniões semanais para que os alunos possam tirar dúvidas ou mesmo organizar algumas ações dentro da escola.

Por vezes, como fechamento, os estudantes acabam por convidar algum outro membro da escola e passar a formação adiante, como aconteceu com uma das professoras de Educação Infantil.

Espaços de incidência

Embora a ação não integre o projeto político pedagógico da escola, acaba por ganhar alguns espaços escolares. O docente observa que os estudantes, por exemplo, chegam a mediar, sozinhos, situações e conflitos dentro da própria turma. E os ganhos, para Eduardo, são evidentes.

“Vejo que as meninas se colocam de igual para igual e que os meninos estão se aproximando da pauta e tendo mais respeito com elas. Também é muito válido aos professores que agora pensam antes de falar: “sente igual menina”, ou “isso não é coisa que uma menina faça”, reconhece.

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A pauta feminista vem ganhando espaço na instituição escolar. Créditos: divulgação

Também passaram a ser recorrentes os convites para que a turma possa dar a formação sobre Feminismo em outras escolas da rede, o que viabiliza uma troca de experiências e aprendizagens.

A legitimidade da pauta e a vontade de incidir sobre ela também levou os estudantes a buscarem um lugar no conselho da escola, formado por pais, gestores, professores e outros estudantes. Uma das meninas, inclusive, hoje é presidente da instância participativa.

Reconhecimento

O Movimento Feminista na Escola (Movifemi) acabou de ser premiado com o 1º lugar pelo Edital de Educação em Direito à Memória e à Verdade, lançado pela Coordenação de Direito à Memória e à Verdade (CDMV) da Prefeitura de São Paulo.

A experiência, ainda que não premiada, também foi destaque da primeira edição do Desafio Criativos na Escola, iniciativa do Instituto Alana, que busca encorajar crianças e jovens a transformarem suas realidades, colocando-os como protagonistas de suas próprias histórias de mudança.

Contato:

Escola Municipal de Ensino Fundamental Eduardo Prado
Fone: (11) 2741-1212