Escola rural de Ouricuri (PE) valoriza experiência dos estudantes com o semiárido

Publicado dia 02/09/2014

Iniciativa: Escola Municipal Maria do Socorro Rocha de Castro

Pública ou privada: Pública

Descrição: “Qual a altura e diâmetro de um umbuzeiro? Qual o valor agregado à sua matéria-prima, depois de processada?” Esses questionamentos, distantes da realidade das grandes cidades, mas fundamentais no cotidiano rural do Nordeste, são estruturantes para a aprendizagem dos alunos da Escola Municipal Maria do Socorro Rocha de Castro, localizada no município de Ouricuri (PE). A unidade rural, localizada na comunidade Agrovila Nova Esperança, busca ressaltar as características do território e valorizar a experiência que cada aluno tem com a região em que vive.

Foto_Andreia_Coelho_Prof Izabel e alunos no banco de sementes da escola

Estudantes da escola de Ouricuri apresentam o banco de sementes que construíram. Foto: Andreia Coelho

A abordagem vem da metodologia de educação contextualizada, que considera a formação a partir da realidade em que as pessoas estão inseridas, com valorização às diferenças individuais, aos conhecimentos natos e ao planejamento de conteúdos orientados pelas necessidades dos educandos.  A aprendizagem se molda também a partir de uma conduta inclusiva e participativa que considera os educadores, as famílias e a comunidade.

Além da valorização dos conhecimentos locais existentes, estão implícitos o respeito às diferenças étnicas, sociais e culturais,  a defesa de um currículo adaptado ao ciclo agrícola regional, o planejamento flexível, a união entre a teoria e a prática e a participação coletiva de todos os envolvidos.

Essa diretiva parte do reconhecimento de que a educação não acontece só na escola, mas também a partir dos contextos informais, com a socialização dos indivíduos; formais, como proposto pelas escolas; e não-formais, constituídos a partir da participação deles em organizações sociais ou movimentos. A educação contextualizada reconhece esses outros saberes e entende que considerá-los em meio ao processo de aprendizagem é uma forma de valorizar a vida da população sertaneja e potencializar as atividades por eles desenvolvidas, como uma bagagem sócio-cultural.

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A educação e o contexto local

Crianças apresentam o quintal da escola. Foto: Andreia Coelho

Crianças apresentam o quintal da escola. Foto: Andreia Coelho

O modelo surgiu na escola em meados de 2004, com a chegada da professora Izabel de Jesus Oliveira. A docente já tinha vivenciado a experiência, inicialmente como aluna e depois como professora, na Escola Rural de Ouricuri, na década de 90. A escola, em que estudou e lecionou a docente, nasceu de um desejo da comunidade local de orientar as crianças para o mercado de trabalho, mas teve seu plano pedagógico reorientado a partir da percepção de que a educação deveria considerar o contexto local, com o qual as crianças e seus familiares conviviam diariamente, inclusive na relação com o trabalho.

E foi essa vivência que a docente levou para a comunidade de Agrovila Nova Esperança. Inicialmente como voluntária, realizando atividades complementares com os alunos para além daquelas orientadas em sala de aula, Izabel percebeu um déficit de aprendizagem relacionado à escrita e leitura, habilidades fundamentais para o pleno desenvolvimento daqueles alunos. Esse diagnóstico possibilitou a criação de projetos multidisciplinares, porta de entrada também para os saberes locais na comunidade escolar.

Aprendizagens em diálogo

Na sala de aula, que reúne em uma proposta multisseriada 12 crianças do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, as aprendizagens nunca acontecem dissociadas do interesse dos estudantes e da relevância que têm para a comunidade. A iniciativa valoriza as próprias atividades exercidas no contexto local, em diálogo com os conteúdos acadêmicos, trazendo às aulas de português, ciências e matemática, discussões como cultivo de pomar, apicultura, uso de sementes e hortaliças, preservação do meio ambiente e da água e descarte de lixo.

Na prática

Um relato da educadora exemplificou o trabalho feito a partir do umbuzeiro, espécie vegetal comum ao sertão. Inicialmente, partiu-se dos conhecimentos prévios dos alunos, para ampliá-los a partir da leitura de textos específicos, trabalhando o letramento diretamente relacionado à questão presente na vida da região. Aos poucos, a partir das descobertas feitas no processo, a professora incentivou os estudantes a outras investigações: “Na matemática, consideramos a descoberta da altura e diâmetro da espécie, bem como realizamos cálculos feitos a partir da venda de sua matéria-prima; nas ciências, buscamos entender como preparar o solo para seu cultivo; e na geografia, estudamos outras localidades que possuem a espécie vegetal”.

Em diálogo constante com a turma, a professora trabalha a integração dos conhecimentos e dos estudantes de diferentes faixas etárias também com atividades práticas, aplicando os conhecimentos e as diferentes leituras dos estudantes em atividades que traduzem os estudos em bens para a comunidade e para a própria escola. A unidade possui um quintal produtivo e uma agrofloresta, mantida pelos alunos e pela comunidade, que passou a se ver contemplada em meio aos ensinamentos escolares e criou vínculos com a instituição.


Local:
 Ouricuri (PE)
Início e duração: 2004 até os dias atuais.
Responsáveis: Prefeitura Municipal de Ouricuri
Envolvidos e parceiros: Prefeitura Municipal de Ouricuri

Principais resultados

A experiência da educação contextualizada vem sensibilizando outros territórios, até mesmo internacionais. A unidade tem sido frequentemente procurada para intercâmbios de outras comunidades escolares que querem conhecer a metodologia, sua aplicação e resultados.

Crianças apresentam trabalho feito com as histórias do sertão. Foto: Andreia Coelho

Crianças apresentam trabalho feito com as histórias do sertão. Foto: Andreia Coelho

Segundo a educadora, a experiência educativa vivenciada na escola tem modificado a realidade de aprendizagem das crianças. “Antes tínhamos alunos saindo do quinto ano sem saber ler e escrever, e sem leitura de mundo. Hoje, se você pergunta no segundo ano sobre cuidados com plantas, água ou qualquer coisa do tipo, eles sabem dizer”, comemora Izabel.

Ela também reconhece uma mudança de comportamento na comunidade que, além de ter se aproximado das práticas da escola, se apropriou de formas mais saudáveis de se relacionar com o meio ambiente evitando, por exemplo, o uso de agrotóxicos, antes bastante comum na região.

Acesse aqui o projeto da escola para o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa.

Ao reconhecer e se apoiar nos saberes locais, a escola motiva a participação ativa dos familiares que passaram a, inclusive, levar os conhecimentos das crianças para os roçados e quintais de suas casas. A escola também comemora o fato de estimular o pertencimento das crianças ao local em que vivem, encorajando práticas de cuidado e preservação ambiental, e paralelamente, que os pequenos e suas famílias descubram e invistam em novas formas de desenvolvimento local e social para a comunidade.

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