Escola rural de Ouricuri (PE) valoriza experiência dos estudantes com o semiárido

Iniciativa: Escola Municipal Maria do Socorro Rocha de Castro

Pública ou privada: Pública

Descrição: “Qual a altura e diâmetro de um umbuzeiro? Qual o valor agregado à sua matéria-prima, depois de processada?”Esses questionamentos, distantes da realidade das grandes cidades, mas fundamentais no cotidiano rural do Nordeste, são estruturantes para a aprendizagem dos alunos da Escola Municipal Maria do Socorro Rocha de Castro, localizada no município de Ouricuri (PE). A unidade rural, localizada na comunidade Agrovila Nova Esperança, busca ressaltar as características do território e valorizar a experiência que cada aluno tem com a região em que vive.

Foto_Andreia_Coelho_Prof Izabel e alunos no banco de sementes da escola

Estudantes da escola de Ouricuri apresentam o banco de sementes que construíram. Foto: Andreia Coelho

A abordagem vem da metodologia de educação contextualizada, que considera a formação a partir da realidade em que as pessoas estão inseridas, com valorização às diferenças individuais, aos conhecimentos natos e ao planejamento de conteúdos orientados pelas necessidades dos educandos.  A aprendizagem se molda também a partir de uma conduta inclusiva e participativa que considera os educadores, as famílias e a comunidade.

Além da valorização dos conhecimentos locais existentes, estão implícitos o respeito às diferenças étnicas, sociais e culturais,  a defesa de um currículo adaptado ao ciclo agrícola regional, o planejamento flexível, a união entre a teoria e a prática e a participação coletiva de todos os envolvidos.

Essa diretiva parte do reconhecimento de que a educação não acontece só na escola, mas também a partir dos contextos informais, com a socialização dos indivíduos; formais, como proposto pelas escolas; e não-formais, constituídos a partir da participação deles em organizações sociais ou movimentos. A educação contextualizada reconhece esses outros saberes e entende que considerá-los em meio ao processo de aprendizagem é uma forma de valorizar a vida da população sertaneja e potencializar as atividades por eles desenvolvidas, como uma bagagem sócio-cultural.

Leia +Sertanejo se torna doutor em Educação para denunciar mazelas e propor alternativas ao ensino no Semiárido

A educação e o contexto local

Crianças apresentam o quintal da escola. Foto: Andreia Coelho

Crianças apresentam o quintal da escola. Foto: Andreia Coelho

O modelo surgiu na escola em meados de 2004, com a chegada da professora Izabel de Jesus Oliveira. A docente já tinha vivenciado a experiência, inicialmente como aluna e depois como professora, na Escola Rural de Ouricuri, na década de 90. A escola, em que estudou e lecionou a docente, nasceu de um desejo da comunidade local de orientar as crianças para o mercado de trabalho, mas teve seu plano pedagógico reorientado a partir da percepção de que a educação deveria considerar o contexto local, com o qual as crianças e seus familiares conviviam diariamente, inclusive na relação com o trabalho.

E foi essa vivência que a docente levou para a comunidade de Agrovila Nova Esperança. Inicialmente como voluntária, realizando atividades complementares com os alunos para além daquelas orientadas em sala de aula, Izabel percebeu um déficit de aprendizagem relacionado à escrita e leitura, habilidades fundamentais para o pleno desenvolvimento daqueles alunos. Esse diagnóstico possibilitou a criação de projetos multidisciplinares, porta de entrada também para os saberes locais na comunidade escolar.

Aprendizagens em diálogo

Na sala de aula, que reúne em uma proposta multisseriada 12 crianças do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, as aprendizagens nunca acontecem dissociadas do interesse dos estudantes e da relevância que têm para a comunidade. A iniciativa valoriza as próprias atividades exercidas no contexto local, em diálogo com os conteúdos acadêmicos, trazendo às aulas de português, ciências e matemática, discussões como cultivo de pomar, apicultura, uso de sementes e hortaliças, preservação do meio ambiente e da água e descarte de lixo.

Na prática

Um relato da educadora exemplificou o trabalho feito a partir do umbuzeiro, espécie vegetal comum ao sertão. Inicialmente, partiu-se dos conhecimentos prévios dos alunos, para ampliá-los a partir da leitura de textos específicos, trabalhando o letramento diretamente relacionado à questão presente na vida da região. Aos poucos, a partir das descobertas feitas no processo, a professora incentivou os estudantes a outras investigações: “Na matemática, consideramos a descoberta da altura e diâmetro da espécie, bem como realizamos cálculos feitos a partir da venda de sua matéria-prima; nas ciências, buscamos entender como preparar o solo para seu cultivo; e na geografia, estudamos outras localidades que possuem a espécie vegetal”.

Em diálogo constante com a turma, a professora trabalha a integração dos conhecimentos e dos estudantes de diferentes faixas etárias também com atividades práticas, aplicando os conhecimentos e as diferentes leituras dos estudantes em atividades que traduzem os estudos em bens para a comunidade e para a própria escola. A unidade possui um quintal produtivo e uma agrofloresta, mantida pelos alunos e pela comunidade, que passou a se ver contemplada em meio aos ensinamentos escolares e criou vínculos com a instituição.


Local:
 Ouricuri (PE)
Início e duração: 2004 até os dias atuais.
Responsáveis: Prefeitura Municipal de Ouricuri
Envolvidos e parceiros: Prefeitura Municipal de Ouricuri

Principais resultados

A experiência da educação contextualizada vem sensibilizando outros territórios, até mesmo internacionais. A unidade tem sido frequentemente procurada para intercâmbios de outras comunidades escolares que querem conhecer a metodologia, sua aplicação e resultados.

Crianças apresentam trabalho feito com as histórias do sertão. Foto: Andreia Coelho

Crianças apresentam trabalho feito com as histórias do sertão. Foto: Andreia Coelho

Segundo a educadora, a experiência educativa vivenciada na escola tem modificado a realidade de aprendizagem das crianças. “Antes tínhamos alunos saindo do quinto ano sem saber ler e escrever, e sem leitura de mundo. Hoje, se você pergunta no segundo ano sobre cuidados com plantas, água ou qualquer coisa do tipo, eles sabem dizer”, comemora Izabel.

Ela também reconhece uma mudança de comportamento na comunidade que, além de ter se aproximado das práticas da escola, se apropriou de formas mais saudáveis de se relacionar com o meio ambiente evitando, por exemplo, o uso de agrotóxicos, antes bastante comum na região.

Acesse aqui o projeto da escola para o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa.

Ao reconhecer e se apoiar nos saberes locais, a escola motiva a participação ativa dos familiares que passaram a, inclusive, levar os conhecimentos das crianças para os roçados e quintais de suas casas. A escola também comemora o fato de estimular o pertencimento das crianças ao local em que vivem, encorajando práticas de cuidado e preservação ambiental, e paralelamente, que os pequenos e suas famílias descubram e invistam em novas formas de desenvolvimento local e social para a comunidade.

Deixe um comentário!

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

14 COMENTÁRIOS

  1. Izabel de Jesus Oliveira disse:

    Essa é a proposta de Educação Contextualizada que desenvolvemos na escola e que vem dando certo devido a inclusão, a participação coletiva, a interação, a valorização dos conhecimentos prévios e o repeito as diferenças individuais.
    A gradecemos pela socialização da experiência desenvolvida na escola da Agrovila Nova Esperança.

  2. Izabel de Jesus Oliveira disse:

    Essa é a proposta de Educação Contextualizada que desenvolvemos na escola e que vem dando certo devido a inclusão, a participação coletiva, a interação, a valorização dos conhecimentos prévios e o repeito as diferenças individuais.
    A gradecemos pela socialização da experiência desenvolvida na escola da Agrovila Nova Esperança.

  3. Izabel de Jesus Oliveira disse:

    Essa é a proposta de Educação Contextualizada que desenvolvemos na escola e que vem dando certo devido a inclusão, a participação coletiva, a interação, a valorização dos conhecimentos prévios e o repeito as diferenças individuais.
    A gradecemos pela socialização da experiência desenvolvida na escola da Agrovila Nova Esperança.

  4. Elizangela Sales Lopes disse:

    Com certeza é um exemplo a ser seguido pela demais Escolas e Professores(as).

  5. Antonia Simone disse:

    Com certeza,um grande exemplo a ser seguido por todas as escolas e professores(as) da região, e do Brasil,como um todo,assim melhorando a educação brasileira.

  6. Sonia Maria disse:

    Ótima iniciativa. Parabéns para a Professora e os demais colaboradores;

  7. EDINE EDITE DE BRITO disse:

    Gostaria de levar minha escola para conhecer suas experiências sustentáveis. Qual o procedimento que devo tomar?

  8. Olá! Quero parabenizar pela visibilidade dessa ação acompanhada pela nossa Instituição. Tenho uma outra sugestão de pauta ligada a educação contextualizada.
    Basta acessar nosso site http://www.caatinga.org.br/municipio-de-santa-cruz-envolve-educacao-contextualizada-ao-desfile-do-sete-de-setembro/
    Qualquer dúvida é só entrar em contato.
    Mais uma vez agradeço a divulgação.
    Att.

    Andréia

  9. ANGELA MARIA NUNES DA SILVEIRA TAVARES disse:

    A luta pela terra e a educação do campo esteve presente no Brasil desde sua colonização.Nesse sentido, compreendemos que um a Educação do Campo é herdeira de ensino católico é fruto direto da luta pela terra realizada pelos movimentos sociais no campo.Sendo assim, o texto destaca que experiências as realizadas na escola tem contribuído para as crianças terem uma aprendizagem significativa…

  10. Boa tarde eu gostaria de saber como eu consigo um projeto igual de vocês eu gostaria de fazer uma escola rural no ceará eu ja telho um predio e uma terra para a escola

  11. Rildo de souza wanderley disse:

    Presenciei uma reportagem na tv universitária no dia 12 de abril de 2016 eu e minha esposa e ficamos muito emocionados ao ponto de ficar com os olhos lacrimejantes e muito emocionados. Queremos parabenizar todo o corpo docente e as famílias com seus filhos nesta grande luta que é a educação infantil. todo o nosso Parabéns do fundo dos nossos corações. Abraços Rildo e Eliane Wanderley.

  12. Paulo disse:

    Excelente iniciativa. Estamos vendo aqui um exemplo de alfabetização e letramento de fato. Parabéns à escola pelo trabalho.

  13. Ana Lucia Lima Ferreira disse:

    Bastante produtivo a proposta de trabalho desenvolvida pela escola. Partir da realidade da criança. Buscar a sua vivência. O que está inserido no seu dia a dia.