Coletivo Cinemateus transforma a realidade de bairro a partir do audiovisual

Publicado dia 06/12/2013

Iniciativa: Coletivo Cinemateus

Pública ou Privada: Comunitária

Sabe aquelas pessoas que não desistem diante de um não? Geisson Silva é uma delas. Para a alegria de muitos e, especialmente da comunidade de São Mateus, bairro da zona leste de São Paulo. Ainda na escola, na efervescência de seus 16 anos, o adolescente quis desenvolver um trabalho sobre a temática “racionamento de água”. A certeira ideia de produzir um vídeo sobre a questão esbarrou na negativa da diretora, justificada pelas palavras de que “ele era muito novo para fazer aquilo!”

Geisson Silva à esquerda da foto.

Geisson Silva à esquerda da foto.

Longe de se sentir reprimido, Geisson buscou novos caminhos para alcançar o seu objetivo. Ele não fazia ideia do movimento que estava por iniciar. Fora do ambiente escolar, começou a mobilizar conhecidos e desconhecidos para a sua causa. Foi conhecer, inclusive, o CEU São Mateus, instituição local que ele sequer tinha entrado antes. E foi ali que seu vídeo ganhou vida e repercussão com o apoio da coordenadora de cultura da época, Marcia Salgado. Era plantada a semente do Coletivo Cinemateus.

Primeiros passos

Oportunidade dada, participantes envolvidos, era hora de definir a atuação do coletivo, que não queria apenas retratar a vida da comunidade a partir do audiovisual, mas sim transformá-la a partir da proposição de iniciativas. A partir do empoderamento da juventude local, envolvida com o processo, a proposta era que o território se articulasse a uma agenda cultural e educativa, fortalecendo o desenvolvimento integral de cada habitante.

O caminho não foi fácil. Até porque todos os participantes tinham dedicação voluntária. Foi comum, ao longo do tempo, que o coletivo perdesse integrantes para o mercado de trabalho – hoje, da reunião inicial, apenas Geisson persiste no grupo, ao lado de 20 novos participantes, que se mobilizam conforme a disponibilidade.

A primeira atuação do Cinemateus junto ao bairro foi uma pesquisa para levantar as necessidades e demandas locais. A vulnerabilidade social comum ao território revelou, sobretudo, a falta de espaços de lazer e convivência. Inicialmente, a saída encontrada foi abrir a casa de alguns integrantes para a exibição de filmes e momentos de debate junto à comunidade, a partir de temas importantes para os moradores e, em especial, para o desenvolvimento integral dos jovens.

Em paralelo, o grupo olhava para os editais culturais e possibilidades de financiamento oferecidas por algumas organizações. E escrevia projetos. O primeiro aporte financeiro veio em 2011 por meio do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI). Da verba, nasceram o Projeto Interligados, o Projetando para o Futuro e um curta metragem – Qual é? Sem Camisinha não rola.

Projetos

O Projeto Interligados nasceu com o objetivo de promover os potenciais do bairro, a partir da valorização do território pelos próprios moradores. Para isso, o coletivo propôs a criação de um programa online, veiculado no Youtube, feito com três quadros principais: um de entrevistas, um chamado “Na Lata” – em que os moradores podiam dizer sobre os problemas do bairro -, e o “Silas Cool”, em que o repórter recebia uma missão dentro do próprio bairro, que só se resolveria a partir da interação com outros moradores que também eram convidados a se envolver na proposta.

O Projetando para o Futuro dialogou com crianças do bairro Jardim São Gonçalo em exibições de filmes infantis, seguidas de brincadeiras lúdicas e pedagógicas. A ideia era que os mais jovens pudessem ter acesso a oportunidades de lazer, ao mesmo tempo em que recebiam uma complementação pedagógica e descobriam mais sobre o território.

A manutenção das ações, na época, foi possível graças ao financiamento alcançado com a participação na quinta edição do Prêmio Criando Asas, do Instituto Criar de TV e Cinema. O Projetando para o Futuro aconteceu até 2012 e hoje se encontra em stand by. O Interligados está em vias de chegar à sua terceira temporada e pode ser conferido no canal do Coletivo Cinemateus no Youtube.

Curta-metragem e campanha

O filme “Qual é? Sem Camisinha não rola” abriu ainda outros caminhos. Além de ser entregue como produto ao VAI, o material foi inscrito no edital da Mac Fund Aids (instituição que trabalha com a prevenção da AIDS e o acompanhamento a portadores do HIV), em parceria com a MTV e a Ashoka, e teve o aporte financeiro esperado.

Lançado oficialmente no final de 2012, o vídeo reuniu a comunidade em sessões gratuitas e deu início a um movimento nas redes sociais, em ações organizadas pelo próprio coletivo. O material despertou o interesse da EMEF Jardim da Conquista II, localizada dentro do Céu São Mateus , que pretendia fazer uma ação piloto de conscientização com os alunos.

A partir do trabalho, nasceu a campanha Comigo, sem camisinha não rola! que atua em parceria com as escolas locais em um processo de diálogo e conscientização. Uma das outras características do bairro, é a vulnerabilidade na garantia da saúde reprodutiva das meninas e meninos, muitas vezes, expostos ao sexo sem segurança.

Resultados

Jovens participam de oficina do Cine Mateus.

Jovens participam de oficina do Cine Mateus.

A campanha Comigo, sem camisinha não rola! já realizou oficinas nas escolas EMEF Coelho Neto e Escola Estadual Professor Wilfredo Pinheiro. As ações também foram desdobradas para outras organizações como Centro de Profissionalização para Adolescentes – Dona Chantal (CPAC), Centro da Criança e Adolescente (CCA) e Instituto Nextel. Em 2013, a campanha ainda rumou para o exterior ao participar de uma Conferência sobre AIDS/HIV na cidade do México.

Estima-se que mais de mil jovens já tenham sido impactados pela iniciativa. Para 2014, o coletivo espera dar continuidade às ações com as escolas – envolver outras unidades públicas e também particulares –, e levar a discussão do direito ao sexo seguro para o âmbito das políticas públicas, em parceria com secretarias da Saúde e Educação.

Início e duração: de 2004 até hoje.
Local: São Mateus, bairro da zona leste de São Paulo.
Responsáveis: Geisson Silva e equipe
Envolvidos e parceiros: CEU São Mateus, EMEF Jardim da Conquista II, EMEF Coelho Neto e Escola Estadual Professor Wilfredo Pinheiro
Financiamento: Programa Aprendiz Comgás (PAC), Instituto Criar de TV e Cinema, Mac Fund Aids, Programa Geração Muda Mundo (da Ashoka), Programa IAM – Iniciativa Jovem Anhembi Morumbi, Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI). Os financiadores são sazonais e não direcionam verba para a manutenção do coletivo.

Contatos:

Geisson Silva
Fone: (11) 2731-1892
Site: http://www.cinemateus.com.br/
Campanha: http://cinemateus.com.br/comigonaorola
Facebook: 
www.facebook.com/coletivocinemateus

Escola

Professor apoia formação de coletivo feminista em escola