Brockwood Parck School: uma experiência de aprendizagem multicultural

Publicado dia 10/09/2014

“Essa é a função da educação. Nós precisamos construir uma sociedade em que todos possam viver felizes, em paz, sem violência e em segurança. Como estudante, você é responsável por isso”. (J. Krishnamurti).

Créditos: Reprodução

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O pensamento do educador e filósofo indiano Jiddu Krishnamurti (1895 -1986) segue em prática pela Brockwood Parck School (Escola Parque Brockwood), instituição que fundou no final da década de 60. Localizada em Hampshire, a sudoeste de Londres, a escola atende cerca de 70 alunos a partir dos 14 anos, e procura desenvolver os valores da responsabilidade, cooperação e carinho. Contrária à definição de internato, a escola entende seu corpo estudantil como uma ‘grande família multicultural’, constituída a partir da diversidade de origem de cada um deles – são 25 países diferentes -, principal patrimônio educativo local. A partir dessas diferenças, a escola valoriza a troca cultural e o ensino de novos idiomas, ampliando as possibilidades de aprendizagem dos adolescentes.

A instituição mantem salas de aula com pouco número de alunos, entendendo que essa é melhor forma de otimizar a atenção, a interação e, consequentemente, o aprendizado. Os adolescentes são cotidianamente convidados e estimulados a tomar decisões conjuntas com professores e demais gestores, e também a decidirem sobre o seu percurso de aprendizagem, possibilitando uma postura autônoma diante do conhecimento.

A educação nas esferas pessoais e sociais

Na instituição, a construção do conhecimento também vai para além das salas de aula. Há a valorização das habilidades e qualidades pessoais de todos os envolvidos com a instituição, que os considera educadores. Os funcionários são estimulados a promover trocas diárias com os alunos a partir de competências e experiências próprias de suas funções, sejam elas realizadas no jardim, na cozinha ou em qualquer outra dependência. Essa interação reforça uma das principais missões escolares de preparar os alunos para a vida, a partir de valores como cooperação e vida em comunidade.

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A escola vê a vida comunitária como fundamental para o desenvolvimento integral dos estudantes, valorizando os contextos sociais, econômicos e políticos não apenas do estudante, mas de todo quadro docente e equipe escolar. “Deve o jovem tomar o mundo como ele é, aceitando uma educação que lhe permite se ‘encaixar’ na sociedade, ou pode ele se apropriar de questionamentos a partir dos quais sinta-se capaz de responder a diversas situações de maneira criativa?”, problematiza a instituição.

Paralelamente, a Brockwood Parck School parte do entendimento que a excelência acadêmica é absolutamente indispensável para o desenvolvimento integral dos indivíduos, mas também agrega igual importância aos saberes existentes na vida cotidiana. Por isso, nas práticas diárias, os alunos são convidados ao repensar de seus próprios pensamentos e condutas, e também de seus pares, estimulando uma convivência democrática e pacífica.

Intenções pedagógicas

Algumas diretrizes tornam-se bastante visíveis na vivência educativa ofertada. A partir do seu currículo, a instituição entende que é possível explorar como a liberdade e a responsabilidade se apresentam nas relações com o Outro e, portanto, com a sociedade; limitar as ações egocêntricas e diluir os conflitos internos; compreender e reconhecer seus próprios talentos; valorizar a excelência nos estudos acadêmicos;  se apropriar de condutas de cuidado com o corpo e valorizar exercícios; apreciar o mundo, a partir do entendimento do papel cidadão e de suas responsabilidades; entender o sentido da ordem e apreciar o silêncio.

Essas características são trabalhadas com todos os alunos, para os quais não há um perfil específico. Na comunidade escolar convivem estudantes de diversas nacionalidades, raças, línguas e mesmo condição social, visto que o Fundo de Bolsas da Escola permite o ingresso de adolescentes de situações econômicas menos privilegiadas. Igualmente diverso é o nível de aprendizagem que contempla estudantes que vieram de colégios tradicionais, mas também do ensino domiciliar.

O trabalho é orientado para que os alunos se apropriem do autoquestionamento e sejam capazes de fazê-lo amparados pelos seus amigos, professores, familiares e toda a comunidade. Por isso, o estímulo a uma conduta flexível, capaz de avaliar criticamente alguns preconceitos, atitudes, crenças ou simbologias. Os pais também são considerados no processo, pois a instituição defende que haja um pacto dos familiares com sua proposta pedagógica.

No início do percurso pedagógico, os familiares são convidados a assinar uma Carta Aberta, que traz os princípios defendidos pela escola. Parte das aprendizagens se volta para os casos em que há violações de acordos entre os responsáveis e a escola, e podem, dependendo do caso, implicar em consequências para os envolvidos. É reservada aos familiares uma escuta aproximada,  para que eles possam ser mediadores de soluções conjuntas para demandas específicas de seus filhos.

Currículo

Em diálogo com os pensamentos do filósofo J. Krishnamurti, o currículo se configura como um terreno fértil para a aprendizagem. Isso faz com que suas diretrizes remem contra os modelos escolares tradicionais, que situam os alunos dentro de uma sala de aula à espera do professor que lidera o ensino de conteúdos programáticos. Na instituição, há o estímulo à iniciativa, à participação, ao estudo independente e aos processos colaborativos entre alunos-professores e destes entre si. A ideia é traduzir o entendimento de que a aprendizagem se relaciona com conhecimentos acadêmicos, mas também com aqueles que permeiam a vida diária, e é com isso que o ensino das disciplinas procura dialogar.

A matemática, por exemplo, apoia para que o estudante compreenda como as coisas se organizam; as ciências permitem engajamento com o mundo ao redor, e dimensionar a observação a partir do território; a história permite aprendizados sobre si mesmo e valores. De maneira geral, essas e outras aprendizagens não são limitadas por fronteiras disciplinares, mas integradas a áreas diversas, como humanidades, ciências e matemática, artes, estudos sociais e ambientais, permitindo a descoberta de questões e mesmo temáticas para projetos dos alunos.

_MG_2069Nos idiomas, o inglês sempre se apresenta como primeira língua, seguido de outras duas, francês e espanhol, fundamental para valorizar a diversidade cultural da comunidade escolar. Na área de humanidades, há um incentivo para que os alunos se coloquem diante de vários contextos, econômicos, sociais e políticos e os entendam com propriedade. Nas matemáticas e ciências, a ideia é descaracterizar os procedimentos mecanicistas e promover o entendimento dessas áreas como fundantes de pensamentos práticos; as artes buscam resgatar a criatividade autêntica e fomentar a participação e experimentação; as artes cênicas, com foco em dança, música e teatro, buscam trabalhar a autoestima, confiança e protagonismo dos alunos.

Estudante este que no início do percurso educacional passa por uma entrevista que tem o objetivo de reconhecer suas necessidades, talentos e expectativas, condicionantes para um plano de estudo equilibrado com seu projeto de vida. Tudo isso é valorizado por uma interação mediada diretamente por um educador de referência. Cada professor tutora um número máximo de nove alunos, garantindo acompanhamento preciso e em constante diálogo.

Este tutor ainda tem entre suas funções  acompanhar suas atividades dos estudantes tendo em vista a manutenção de seu engajamento social, sono, dieta e padrões de exercício, e possível reconhecimento de eventuais problemas ou dificuldades. Esta figura é o ponto de contato direto das famílias, que podem participar no ajuste de possíveis condutas para garantia do pleno desenvolvimento de seus filhos.

Nas avaliações, o foco também se volta para o aluno e seu desenvolvimento, não dando ênfase apenas à aprendizagem que a instituição gostaria de promover. A instituição entende que sem essa ancoragem, os testes podem mostrar apenas a capacidade que os alunos tiveram de decorar sua resolução. No processo, então, as habilidades individuais de cada estudante aparecem como norteadoras de um processo único de monitoramento do seu desempenho à luz do seu projeto de vida e expectativas da escola.

De acordo com a demanda, a Brockwood Parck School procura diversificar a oferta de cursos aos alunos. A cada ano escolar, os alunos são colocados em contato com novos projetos, atividades e oportunidades educativas, em um processo contínuo de aprendizagem e maturidade no percurso pedagógico. Isso também é fortalecido a partir de uma multiplicidade de temáticas que se desdobram via oficinas: teatros, exposições, diálogos sobre consciência corporal, música, saúde e nutrição, escrita criativa, entre outras.

Na aula-projeto Cuidado com a Terra, a escola busca resgatar que para pensar o planeta de forma sustentável, é preciso entender mundo atual, suas pluralidades, e quais são os cuidados fundamentais que ele necessita. Para tanto, os alunos são envolvidos em atividades práticas, como preparo de hortas orgânicas, e estudo da ecologia humana, pelas quais perpassam temas como alterações climáticas, extinção de espécies e desigualdades globais. Há também um eixo pedagógico de Cultura Física, que relaciona a disciplina de educação física aos cuidados com o corpo.

Transformação pela investigação

Essa era uma das principais paixões de Krishnamurti (1895-1986), autor de diversos livros sobre a natureza da consciência humana e as possibilidades de mudança adquiridas com a pesquisa. Em diálogo com pensadores, políticos e cientistas como Ivan Illich, Bernard Levin, Indira Gandhi, e David Bohm, ele defendia que, se os jovens eram condicionados por raça, nacionalidade, religião, tradição ou crenças, não poderiam se descobrir por si mesmos como seres humanos completos, defendendo a constante interação com o outro.

Para tornar o ambiente escolar um espaço de convivência, há valorização do carinho, afeto e informalidade pelos ambientes. Os alunos não utilizam uniformes, fazem uso de um tratamento respeitoso, mas íntimo com seus pares, e muitos deles, possuem seu próprio quarto, embora aconteçam situações de partilhamento do cômodo, como forma de expandir a interação social e estimular a amizade. Os acordos e entendimentos dessa vivência são apresentados a todos os presentes, alunos e funcionários, por meio da Carta Aberta; a mesma pactuada pelos pais. Durante as noites e finais de semana, abrem-se outras oportunidades para os estudantes, buscando momentos de lazer e descontração. São organizadas atividades como jogos, leituras livres, visitas guiadas a outros espaços e até mesmo viagens, se for do consentimento dos familiares.

Também são priorizadas ações de saúde e bem estar para garantir a integridade dos adolescentes ao longo do percurso de aprendizagem.  Na perspectiva da garantia do bem-estar também são trabalhados temas como desenvolvimento físico e emocional, educação sexual, racismo, questões de gênero, uso e abuso de drogas, e nutrição. Também há uso de instalações desportivas que são utilizadas para valorizar as habilidades e elaborar planos de aptidão individuais com os alunos.

Principais resultados

Após passarem pela Brockwood, grande parte dos alunos dão continuidade aos seus estudos em universidades ou escolas de formação contínua, geralmente no Reino Unido, EUA, ou países de origem. A instituição entende que a aceitação de seus alunos na vida acadêmica em muito diz do preparo para a vida, e do trabalho com o indivíduo a partir de várias dimensões.

O percurso de aprendizagem também prevê esse momento de apoio aos objetivos profissionais, com direcionamento de pesquisas, simulação de testes e entrevistas, e elaboração de currículos. A instituição valoriza as vocações de cada aluno e recebe relatos de estudantes que seguiram áreas diversas, como antropólogos, advogados, músicos, professores, construtores, médicos, entre outras carreiras.

Os ensinamentos de J. Krishnamurti

J. Krishnamurti é autor da filosofia pedagógica seguida pela escola. Foto: Reprodução

J. Krishnamurti é autor da filosofia pedagógica seguida pela escola. Foto: Reprodução

A instituição ainda mantem um programa chamado Mature Students que prevê a imersão de jovens pesquisadores (alguns, inclusive, egressos da Parck School) que buscam aprendizado sobre os pensamentos e ensinamentos do filósofo J. Krishnamurti. A pesquisa desenvolvida por eles é valorizada pela escola, que também os possibilita envolvimento com atividades de tutoria acadêmica ou acompanhamento em outras dimensões dos alunos, como esportes ou cultura. Também são direcionados a eles fóruns de discussão para que os ensinamentos do educador e filósofo fundador da Brockwood Parck School sejam confrontados na prática com a realidade. São previstos dois momentos de estímulo a essas reflexões, um que toma como base materiais do próprio Krishnamurti, como aúdios, vídeos e textos, e outro que não parte de elementos disparadores, buscando valorizar as associações próprias dos pesquisadores.

 

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