publicado dia 06/11/2014

Pesquisador defende: esforços para mapear territórios apoiam a criação de arranjos de educação integral

por

“A cartografia vem no sentido de observar a realidade, ou seja, não só se deslocar, mas observar as interações mantidas, as relações de poder, interpessoais, geracionais, a forma como os espaços são utilizados, quais deles são negados”. É assim que o professor Juarez Melgaço Valadares, docente da Faculdade de Educação (FaE) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), define a atividade de cartografar, ou mapear espaços.

Para ele, o mapeamento é fundamental para a educação integral, uma vez que convida a escola e o território a se perceberem e interagirem. Nesse sentido, embora a atividade seja a de identificar em mapas pontos de interesse para uma determinada função, a cartografia torna-se uma ferramenta capaz de organizar e potencializar os arranjos socioculturais e educativos presentes em diversos territórios.

Leia também: Tem início o I Seminário Internacional do Teia, em Belo Horizonte

Em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral durante o I Seminário Internacional do TEIA-UFMG, Valadares discute a importância da escola se relacionar com seu entorno e de assumir outras possibilidades de aprendizagem que não necessariamente se encontram no ambiente escolar.  Contudo, o professor adverte que é preciso ter cuidado para não “escolarizar demais” as possibilidades de aprendermos com e no território.

Para Valadares, que coordenou o Grupo de Trabalho Cidade e Territórios Educativos, durante o seminário, é preciso compreender que existem relações simbólicas e individuais que cada pessoa estabelece com o espaço. “Não é só fazer com que a pessoa frequente o espaço; é uma questão autônoma do sujeito, que diz de seu empoderamento, de ver e criar significado para ele”.

Confira a entrevista na íntegra

Centro de Referências em Educação Integral: Cartografar, mapear espaços ganha um novo sentido com a educação integral?

Juarez Melgaço Valadares: Eu acho que sim porque ela parte de uma proposta orientada de atividade. Uma atividade que, diferentemente dos mapas tradicionais, também olham os sujeitos e as interações que acontecem naquele espaço. Por isso, afasta um pouco do conceito tradicional da cartografia com os mapas e aproxima mais de território. E a cartografia vem nesse sentido, de observar a realidade, ou seja, não só se deslocar, mas observar as interações mantidas, as relações de poder, interpessoais, geracionais, a forma como os espaços são utilizados, quais deles são negados.

Tudo isso, na verdade, faz parte do que hoje chamamos de cartografia. De maneira geral, ainda acho que temos compreendido pouco o significado da cartografia, tendo em vista as articulações e passagens que ela promove em seu curso, porque ela articula os sujeitos entre si, os sujeitos e o conhecimento, como também articula a relação dele com o espaço. Tenho percebido a cartografia como um elemento de passagem, articulador, transicional.

CR: A cartografia é então um elemento constituinte da ideia de cidade educadora? E quais são os outros elementos?

JV: A cartografia é um elemento importante, mas eu não tenho dúvidas de que os sujeitos são centrais desse processo. Vou partir de um exemplo, as ciclovias de São Paulo. A passagem, a presença desse sujeito na cidade, o que modifica, que tipo de olhar provoca? Os grupos que frequentam os espaços públicos ou mesmo os que não frequentam dizem dessa relação com a cidade. E estou falando de uma perspectiva de direito, porque temos direito ao centro da cidade, aos shoppings, e garantir isso é direcionar a centralidade do processo educativo para os sujeitos.

CR: A presença do sujeito em um espaço público, precisa ser mediada para que a aprendizagem aconteça?

JV: Acho que temos duas coisas aí. Um exemplo que eu gosto muito, sou professor de Física, e costumo brincar com o pessoal de Biologia, que as pessoas plantam feijões o tempo inteiro. Você faz isso na infância, na escola, e também quando se forma para dar aula. Quer dizer, tem um conhecimento aí que é geracional e que depende de uma intencionalidade educativa. Agora, tem uma questão que é própria do indivíduo, de tentar entender se aquele pé de feijão vai dar na ‘casa do gigante’. O que eu quero dizer com isso? Tem uma coisa própria de cada um, que diz da sua relação com o espaço, sem que se tenha essa necessidade da mediação. Então, veja que não é só frequentar o espaço, é uma questão autônoma do sujeito, que diz de seu empoderamento, de ver e criar significado para ele.

CR: E no caso da escola, não é necessário garantir uma intencionalidade pedagógica nessa relação?

JV: Sim, mas esse momento também requer cuidados. De fato, não é o levar por levar, mas também não é só deslocar a atividade escolar para outro espaço, que não o da escola, porque continuaremos impedindo que outras significações se estabeleçam nesses territórios. Temos que evitar o risco de escolarizar demais esse processo.

CR: As experiências de cidade educadoras são uma realidade?

JV: No sentido de concretude, acho que á uma caminhada. Mas vejo que quando nos apropriamos de algo, dificilmente voltamos atrás e vejo isso com a percepção dos territórios como elementos educadores. As escolas que têm assumido mais essas interações, dificilmente se fecharão para elas.

As próprias comunidades já tem essa percepção de que os alunos não tem que ficar fechados nos espaços escolares e isso pode ser sentido a cada incursão das escolas nesses territórios. Tenho o relato de uma experiência que define bem o sentido disso, o caso de uma escola localizada no pé de um morro bastante íngreme e que utilizava um espaço no topo dele com os alunos, que encaravam a subida e a descida; os próprios moradores se organizaram para deixar uma mesa com suco para os alunos. Além de fantástico, isso mostra que essas relações podem e devem ser construídas.

Em São Paulo, EE Canuto do Val investiu em mapeamento e investigação ativa para conhecer a comunidade escolar