publicado dia 05/07/2024

Educação no RS: desafios antes e depois das enchentes

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Resumo: Em artigo, a professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Jaqueline Moll, reflete sobre os desafios da tragédia climática para as escolas, estudantes e professores gaúchos. O texto foi publicado originalmente no jornal Zero Hora.

Os acontecimentos que vivemos no RS em maio de 2024, decorrentes da maior tragédia socioambiental de nossa história, nunca serão esquecidos. As águas das fortes chuvas transbordaram rios, inundando vales, bairros e cidades inteiras e transbordaram também nossos corações, pelo sofrimento de milhares de pessoas que perderam amigos e familiares, além de suas casas, pertences e memórias. As redes de solidariedade e ações institucionais foram fundamentais para salvar e estabelecer condições mínimas de sobrevivência.

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Na rede escolar, os estragos não foram menores. Muitas escolas, que nas horas iniciais serviram de abrigo, logo foram interditadas e tiveram destroçadas suas bibliotecas, salas de aula, refeitórios, cozinhas, hortas e outros espaços pedagógicos. Diante de tamanho desastre, a resposta para a pergunta “quais os caminhos para a recuperação das aulas perdidas por conta dos impactos das enchentes?” precisa partir do que é básico em relação à necessidade da limpeza e à reconstrução da materialidade das escolas.

Educação no RS desafios antes e depois das enchentes (2)

Limpeza na Escola Municipal de Ensino Fundamental Thiago Wurth em Canoas (RS)

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Retirados os entulhos é preciso reconstituir espaços, mobiliários e meios pedagógicos para permitir o retorno ao convívio no ambiente escolar, e reacomodar estudantes cujas famílias mudaram de bairro ou de cidade. Antes de voltar às aulas, é preciso acolher, escutar e refletir sobre as situações vividas, inclusive para modificar os projetos curriculares e ressignificar as aprendizagens, para que a ciência ajude a compreender o ocorrido e a modificar o futuro. Acolher também professores/as e funcionários/as, pois muitos foram atingidos e todos/as serão impactados/as pela complexidade das situações a serem enfrentadas.

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Tudo seria muito tranquilo e organizado se as condições gerais de vida das populações que vivem nas regiões atingidas, sobretudo nas periferias das cidades, fossem minimamente aceitáveis e se as escolas (com honrosas exceções) contassem com condições ideais de trabalho e funcionamento. Lembrei-me da poesia de Drummond que fala da pedra no meio do caminho. Ela existe e é imensa no caminho escolar de milhares de crianças e jovens gaúchos.

Acostumados a comparar nossos estudantes e seu desempenho a estudantes de países desenvolvidos (que construíram condições equitativas de vida para todos), muitos desconhecem o Brasil e o prognóstico de Darcy Ribeiro de que a crise da educação brasileira não é uma crise, mas um projeto.

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A recuperação das aulas e das aprendizagens precisa vir, portanto, com mudanças estruturais e gradativas nas condições de vida e de escolarização de nossos estudantes, contando com a reinvenção dos currículos para conexão da escola com a ciência e a vida, a participação ativa de professores concursados e comprometidos com suas escolas, o diálogo com as universidades e a efetivação de políticas públicas que restituam à escola pública o lugar que ela deve ocupar na consolidação e na qualificação da democracia, desafiada também pelos eventos climáticos extremos.

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