Escola argentina de ensino médio encara desafio da diversidade social e da inclusão

Publicado dia 14/07/2015

Com informações do Canal Encuentro e Página 12

Em um dos bairros mais nobres da cidade de Buenos Aires, a Recoleta, adolescentes de diferentes classes sociais compartilham as mesmas salas de aula em um tradicional colégio de ensino médio da capital argentina que, hoje, é considerado um modelo de inclusão. A escola, fundada em 1892, costumava receber os filhos da elite até a segunda metade do século passado. Com a crise neoliberal pela qual o país passou a partir da segunda metade da década de 1990 – que culminou com uma crise econômica e política aguda, em 2001 – a instituição passou a receber muitos jovens de famílias carentes, sobretudo oriundos da Villa 31, uma das maiores favelas da cidade, localizada no bairro de Retiro. Cerca de 70% dos estudantes vivem na favela, hoje em processo de urbanização. Muitos deles são alunos que foram expulsos de outras instituições – alguns por indisciplina e comportamento violento – e ali são acolhidos. Com o objetivo de assegurar a permanência desses estudantes, foi criado o projeto Ajudantes na Aula. Trata-se de uma equipe de apoio, formada por docentes, oficineiros e profissionais especializados em recreação que atuam junto aos estudantes, dentro e fora da sala de aula. Atualmente, frequentam a instituição cerca de mil jovens.

Um dos princípios norteadores é que o comportamento violento aparece, nos jovens, quando há um descompasso entre os seus desejos e as possibilidades concretas que esse adolescente tem de realizá-los. Entende-se que a própria distância entre esses anseios e a realidade concreta é uma violência por si só.

“Que ao caminhar as pessoas olhem feio para eles só porque se vestem com boné, calça esportiva; que a polícia os revistem, que não tenham o que comer e que vivam em condições precárias, que não sejam escutados. Tudo isso gera violência”, lista outra integrante da equipe, Veronica Barrionuevo. A diretora da escola, Roxana Levinsky, aposta que toda conduta problemática pode ser revertida e, para isso, o principal é escutar e dar atenção aos jovens, para combater o “grau de solidão” com que chegam à escola.

Apoio (mais que) escolar

O projeto Ajudantes na Aula foi realizado de forma pioneira pela Escola Sarmiento, a partir de uma demanda concreta. “[O projeto] nasce da preocupação com as altas taxas de repetência e abandono escolar nos primeiros anos”, conta Veronica Fulco, uma das coordenadoras da proposta. “Nós começamos dando aulas de reforço dentro do horário escolar. A ideia não era fazê-los memorizar o conteúdo para fazer uma prova, mas justamente trabalhar com uma pedagogia que permitisse certa autonomia crítica aos jovens”, completa.

recoleta veronica alunos

Veronica, uma das coordenadoras do projeto, conversando com estudantes

O trabalho dos “ajudantes” só se aprofundou a partir do estreitamento dos vínculos afetivos entre eles e os estudantes. Veronica conta que uma prática comum é ir buscar os jovens que estão faltando em suas casas, conversar com eles, conhecer a família e as condições em que vivem. Além disso, durante o tempo em que os estudantes estão no colégio, os ajudantes, por meio desse vínculo de confiança, estão sempre orientando e ajudando os adolescentes a organizarem sua vida escolar. Funcionam, de alguma maneira, como tutores.

Veronica acredita que esse papel de apoio, orientação e incentivo é fundamental em um contexto onde a educação perdeu certo status. “Antes havia outros valores e princípios, se sustentava a escolaridade. Agora vemos que muitos jovens chegam sem o apoio de seus pais, que caminham pelas margens. Então, os ajudantes se convertem em adultos significativos, dão um entorno de aprendizagem mais personalizado”, agrega.

Carlos Vidal, outro dos coordenadores, afirma que a equipe não busca ocupar um lugar intermediário ou de mediação, mas busca construir redes entre espaços do ensino médio pouco desconectados. “Fazemos acompanhamento específico com algum adolescente que esteja apresentando dificuldades maiores, acompanhamos professores nas aulas, ajudamos a prepará-las”, enumera. Para Carlos, o projeto acabou mudando a conduta de diversos docentes da escola que tiveram que repensar suas práticas pedagógicas e como construíam suas relações com os alunos.

“[Os ajudantes] te aconselham, te escutam […] são como qualquer outro companheiro”, define Franco Gabriel. Aos 14 anos, no primeiro ano, Gabriel, usuário de drogas, chegou a agredir uma professora. A reação da maior parte da comunidade escolar foi pedir sua expulsão. A diretoria, recém empossada, resolveu buscar soluções alternativas ao banimento do aluno. Foi realizado um seguimento pessoal, envolvendo a família e, após um período, se reintegrou à rotina de estudos e atividades da escola de forma satisfatória, com bom rendimento.

(Vídeo em espanhol)

Teatro Colón

O Colégio Sarmiento também se abre aos estudantes que trabalham ou estudam no Teatro Colón. Alguns estudam música, outros dança, sempre na parte da manhã. À tarde, cursam o ensino médio. A instituição busca não gerar divisões entre os estudantes com diferentes perfis, mas justamente integrá-los e fazer da diversidade existente um diferencial.

A escola também busca parcerias com universidades, como a Universidad Nacional de las Artes (UNA), que realiza oficinas de artes no contra-turno. Outra atividade é o trabalho dentro do arquivo histórico da própria escola, sob a coordenação de um dos professores de História. Os estudantes que participam do projeto recebem uma bolsa e aprendem noções básicas de arquivologia, ao passo que entram em contato direto não só com a história da instituição, mas também com a história da educação na Argentina.

Local: Buenos Aires, Argentina.

Duração: desde 2007

Principais resultados: já no primeiro ano do projeto, a escola logrou diminuir as taxas de repetência de 50% a 10%. Os docentes afirmam que o perfil inclusivo da escola acaba gerando uma cultura de maior tolerância entre seus estudantes, que possuem mais ferramentas para resolver conflitos diários. Outro ponto destacado é o esforço dos docentes em repensar suas práticas, buscando sempre manter a qualidade das aulas.

Contato: 54 11 4812-1518; e-mail: col2de1@buenosaires.edu.ar