publicado dia 16/09/2026
André Lázaro: “Reduzimos a qualidade da Educação à aprendizagem de certos conteúdos”
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 16/09/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
Resumo: O debate sobre a qualidade da Educação no Brasil precisa olhar mais para os desafios da atualidade e menos para o desempenho em avaliações externas. É o que defende o educador André Lázaro, que mediará discussão sobre a qualidade na Educação Integral no Seminário Educação Integral em Debate 2026.
O que se entende hoje por qualidade da Educação? Para André Lázaro, diretor de políticas públicas na Fundação Santillana no Brasil, a resposta que vem se consolidando na política educacional brasileira é estreita: reduz a escola ao ensino da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e atrela a avaliação da qualidade aos resultados de provas padronizadas.
Doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atuação no Ministério da Educação (MEC) entre 2004 e 2010, o especialista vai mediar discussão sobre o significado da qualidade para a Educação Integral no Seminário Educação Integral em Debate 2026.
Anual e gratuito, o evento acontece nos dias 23 e 24 de setembro pelo canal no YouTube do Centro de Referências em Educação Integral.
Em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral, André Lázaro defende que o papel da Educação é de “reconhecimento do passado e de construção de futuros”, em diálogo com os desafios atuais.
Leia a entrevista completa a seguir:
André Lázaro: Porque reduzimos a Educação à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a certos conteúdos, e reduzimos a qualidade à aprendizagem desses conteúdos.
Reduzimos a grande tarefa educativa de formação, de reconhecimento do passado e de construção de futuros a um exercício de memorização e de cumprimento de exigências que não dialoga com os desafios que se apresentam na vida hoje.
Não é uma questão de trabalhar o socioemocional na escola. O que precisamos é a construção de uma convivência em que o conflito tem lugar, porque a vida tem conflito, mas que ele é enfrentado de forma pedagógica.
Isso significa compreender as razões, as motivações desse conflito, e mudar as condições pelas quais o conflito se perpetua.
Nossa matriz curricular ignora o racismo e o debate democrático, portanto é muito conservadora do ponto de vista dos desafios atuais que temos enquanto país.
André: Estamos em uma enrascada grande do ponto de vista da política educacional, porque nos deixamos levar por uma visão que pretende controlar os profissionais da Educação e que não analisa os processos em que o trabalho pedagógico ocorre.
Um exemplo é a exigência de que as crianças estejam alfabetizadas no 2º ano do Ensino Fundamental. Mas como alfabetizar sem livros e sem estímulo à leitura? Não há biblioteca na maioria das escolas de Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
O que as gestões costumam fazer é ignorar essas condições precárias e penalizar os profissionais da Educação quando chegam os resultados das avaliações externas.
E tem outros casos, como um terço das redes municipais com contratos temporários. Nas redes estaduais, chega à metade. A precarização do vínculo tem impacto na aprendizagem e na permanência.
Então subtraem condições, infraestrutura e recursos, fragilizando o cotidiano escolar, e responsabilizam os profissionais da Educação.
André: A Educação Integral olha para o mundo e, a partir dele, olha para o currículo. O que o mundo pede de nós hoje? Pede o reconhecimento da urgência das crises: climática, democrática, de representação, de leitura, de relacionamento.
São questões que deveriam nos motivar a constituir um processo educacional que recupere a sua tarefa de manter viva a possibilidade de um mundo melhor.
Ele tem que olhar para o mundo em que estamos, e não de uma perspectiva adaptativa, mas transformadora. Vamos trabalhar para transformar um mundo que se deteriora ou nos adaptar ao mundo que se deteriora? É preciso que cada um tenha condições de reconhecer o seu papel e a sua responsabilidade nessas transformações.
É claro que as responsabilidades são desiguais. Empresas, bancos e nações têm responsabilidades grandes e insubstituíveis. Mas que cada um possa fazer escolhas políticas mais conscientes. O que é urgente diante do avanço da extrema direita, que não é qualquer coisa, é o retorno de uma visão que favorece as concepções nazifascistas.
André: Temos hoje um impasse delicado de trabalhar, porque a comunidade não pode ser vista como um núcleo de pureza e originalidade. As comunidades também são atravessadas pelas contradições que vivemos no mundo todo.
A escola tem que aprender com a comunidade, mas também é sua responsabilidade educá-la. É trazer os desafios que ali são vividos, fazer um diálogo franco e resolver os obstáculos por meio da democracia, da ciência e dos saberes tradicionais, em prol de uma convivência próspera, sustentável e pacífica.