publicado dia 15/09/2026

“A escola é um espaço onde podemos resgatar e fortalecer a vida coletiva”, diz Gina Vieira

Reportagem: | Edição: Tory Helena

Resumo: Mediadora do Seminário Educação Integral em Debate 2026, Gina Vieira Ponte defende reconhecer o estudante em todas as suas dimensões, respeitar os professores e assumir a escola de Educação Integral em tempo integral como instrumento de justiça social e de fortalecimento da democracia. A especialista será mediadora de uma mesa sobre o tema no Seminário Educação Integral em Debate 2026, que acontece nos dias 23 e 24 de setembro.

Para Gina Vieira Ponte, educadora e formadora de professores, a escola brasileira atravessa um momento dramático: capturada por uma concepção estreita e empobrecida, foi sendo reduzida a um espaço de treinamento para provas, ao mesmo tempo em que os professores são desrespeitados e desqualificados.

Em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral, a autora do Projeto Mulheres Inspiradoras defende a Educação Integral como fonte de reencantamento e transformação do sentido da escola: o lugar do encontro, da criação e da convivência com a diferença, e da manutenção da democracia. 

“Estamos na iminência das Eleições. Quando os candidatos falam de Educação, precisamos prestar atenção se têm a compreensão de que é a partir da escola que se define o projeto de país que queremos. Queremos um país em que as crianças preservem a sua capacidade imaginativa, a sua capacidade de sonhar? Um país em que os adolescentes sejam críticos e não se tornem presas fáceis de discursos misóginos, racistas? Definimos o país que queremos a partir do que se desenha no Projeto Político-Pedagógico de cada escola”, diz Gina, que faz parte do Conselho Consultivo do Centro de Referências em Educação Integral e acumula experiência de 30 anos como professora da Educação Básica. 

A especialista será mediadora da mesa “Reencantar a escola: o lugar da Educação Integral no contexto atual” no Seminário Educação Integral em Debate 2026. Gratuito, o evento acontece nos dias 23 e 24 de setembro, das 10h às 17h30 (horário de Brasília), com emissão de certificado aos participantes e transmissão ao vivo pelo canal no YouTube do Centro de Referências em Educação Integral

O tema da mesa parte da carta-manifesto “Reencantar a escola, transformar o Brasil: a Educação Integral como resposta democrática aos desafios do nosso tempo”, que lista compromissos que o debate eleitoral deve assumir publicamente, da concepção de Educação Integral ao modo como se avalia a qualidade da escola.

A seguir, leia a entrevista completa: 

Centro de Referências em Educação Integral: Por que precisamos reencantar a escola hoje?

Gina Vieira Ponte: Porque estamos vivendo um momento muito dramático, em vários sentidos. Primeiro, no sentido de que a concepção que tem orientado muito do que se faz na escola é uma concepção estreita de Educação: empobrecida, limitada, aligerada, que reduz a escola a um espaço de treinamento, de padronização, de instrumentalização para passar em provas e testes. 

É papel da escola preparar todos os sujeitos para o mundo do trabalho formal e para entrar na universidade. Mas quando você reduz a escola a isso, e pior, quando organiza o trabalho pedagógico de maneira que negue todo o acúmulo construído nas ciências da Educação sobre o que é educar, a escola perde muito. 

Reencantar a escola é trazer para o centro do processo pedagógico o sentido primeiro do que é Educação e do que é escola. Escola é espaço de convivência, de desenvolvimento de habilidades emocionais, de interação, de encontro. É espaço do brincar, do sonhar, do imaginar, do criar, do ler, do se encantar. Uma escola aprisionada numa perspectiva bancária, instrumentalizadora, neoliberal é uma escola que abre mão de tudo isso. 

Tem um segundo motivo, que se liga a esse primeiro: a escola tem sido sequestrada e solapada por uma perspectiva muito empobrecida do que é educar, num momento em que o conhecimento é reduzido a mercadoria e passa a ser só uma alavanca para outros projetos. 

Me incomoda viver uma fase em que os professores, que são fundamentais no que acontece na escola, têm sido profundamente desrespeitados, atacados, desqualificados, perseguidos. Precisamos reencantar a escola para que ela seja um espaço em que os professores são respeitados como as autoridades que são. 

Um professor que decide trabalhar com crianças e adolescentes está escolhendo responder pela formação das novas gerações, ser fonte de inspiração, ser exemplo, ser aquele capaz de criar situações de aprendizagem adequadas ao perfil de cada estudante. Isso é tão grandioso, e estamos deixando de lado. 

Uma sociedade em que os nossos mestres, os nossos educadores, não são respeitados é uma sociedade em que todo mundo já perdeu. Não se faz escola sem professor e professora, e a escola é um espaço de convivência democrática com a pluralidade e com as diferenças. Qualquer tentativa de controlar, padronizar, empobrecer o que a escola propõe é uma forma de matar a escola.

CR: Qual é a contribuição da Educação Integral para o reencantamento da escola?

Gina: São muitas contribuições. A primeira tem a ver com uma brincadeira que quem aprecia a concepção de Educação Integral costuma fazer: se não é integral, não pode nem ser chamado de Educação. 

Porque a primeira acepção de Educação Integral que precisamos defender é a compreensão de que o sujeito inserido no processo pedagógico tem muitas dimensões. Ele não é só uma cabeça, um cérebro que aprende. É um sujeito sócio-histórico, dotado de intelectualidade, mas também de emoções, inserido numa cultura, situado num território histórico. É um sujeito cognitivo, emocional, social, cultural, e eu diria mais: um sujeito poético. 

A Educação Integral colabora muito no reencantamento da escola, porque é ela que nos dá as lentes corretas para olhar para o que estamos chamando de Educação.

Quando, além dessa concepção, pensamos numa escola de tempo integral regida por uma concepção de Educação Integral, fica ainda mais rico. Com a ampliação da jornada na escola, é possível equacionar outras questões, como a necessidade da equidade, da justiça social e da justiça curricular. 

Sabemos que somos um país profundamente desigual e que nem toda criança tem, no contraturno, a oportunidade de continuar se desenvolvendo depois que sai da escola. A Educação Integral, de tempo integral, nos dá a oportunidade de pensar numa escola comprometida com a formação integral desses sujeitos e com a promoção da justiça social e da justiça curricular.

CR: De que forma, ao falar de uma escola reencantada, dessa escola da Educação Integral, também se desenha um projeto de país? 

Gina: Aí entra uma máxima de um dos grandes idealizadores da Educação Integral, Anísio Teixeira, quando ele diz que a escola é a máquina de promoção da democracia. 

É na escola que vivenciamos aquilo que os especialistas chamam de socialização secundária. Eu saio de casa, onde tenho um núcleo definido, com valores, cultura e costumes que me são muito caros e que fazem parte da minha tradição familiar. Mas nem sempre os valores ensinados em casa vão dar conta de formar esse sujeito em condições de viver numa perspectiva republicana e democrática. 

É na escola que eu posso ampliar meus horizontes e meu repertório, sobretudo o cultural, e aprender a viver com pessoas diferentes de mim, que pensam diferente de mim e vivem valores diferentes dos meus. Quando tenho essa oportunidade a partir da escola, passo a ser uma pessoa em condições de exercer a cidadania. E ser cidadão é ter condições de viver na cidade e na sociedade de forma produtiva, positiva, propositiva, participativa. Não conseguimos pensar um projeto de país sem pensar um projeto pedagógico. 

CR: Como essa ideia de reencantar a escola se conecta com as Eleições 2026? 

Estamos na iminência das Eleições. Quando os candidatos falam de Educação, precisamos prestar atenção se têm a compreensão de que é a partir da escola que se define o projeto de país que queremos. 

Queremos um país em que as crianças preservem a sua capacidade imaginativa, a sua capacidade de sonhar? Um país em que os adolescentes sejam críticos e não se tornem presas fáceis de discursos misóginos, racistas? Definimos o país que queremos a partir do que se desenha no Projeto Político-Pedagógico de cada escola. 

Por isso, para falar dessa relação entre reencantar a escola e a democracia, precisamos de uma escola democrática, se quisermos um país genuinamente democrático. 

E não há escola democrática quando dela são retiradas a autonomia e a autoria, quando não se respeita a identidade do território e a identidade desses sujeitos, dos docentes que atuam nessa escola. Nessas condições, não há como ter uma escola encantada e autônoma, e, portanto, não há como preparar crianças e adolescentes para vislumbrar uma vida em sociedade de forma democrática. A relação é direta.

Vivemos um tempo histórico, uma fase do capitalismo que alavancou um individualismo absurdo a partir de várias ações, entre elas o uso cada vez mais tóxico das redes sociais e das telas por crianças, adolescentes e adultos. 

A escola é um espaço onde podemos resgatar e fortalecer a vida coletiva. Uma das coisas subestimadas pelas redes municipais, estaduais e federais ao desenhar a resposta pedagógica à pandemia, no trabalho remoto, foi a importância da convivência, do encontro e da interação social. Quando voltamos da pandemia, a maior urgência era ajudar crianças e adolescentes a recuperar a saúde mental, profundamente comprometida pela privação da socialização. 

Veja como é importante fazer uma defesa inegociável da escola como espaço de convivência, de interação, de desenvolvimento de habilidades sociais. Não existe democracia sem habilidade social: a habilidade de me relacionar com o outro, de ouvir, de escutar, de fazer a leitura da expressão facial, de argumentar, de contra-argumentar, de defender o meu ponto de vista e de escutar o do outro. A escola é um espaço muito potente para realizar tudo isso, porque é, por essência, coletivo, um espaço onde a gente se encontra e compartilha experiências. Ela tem um papel indispensável na promoção de uma cultura democrática.

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