publicado dia 10/09/2026

Programa AFETO aproxima e promove laços entre crianças, famílias e escolas 

Reportagem: | Edição: Tory Helena

🗒️ Resumo: Conheça o Programa AFETO: Aliança entre Famílias e Escolas Transformando Olhares. Por meio de diálogos e atividades lúdicas, pais, mães e responsáveis aprendem sobre como apoiar o desenvolvimento das crianças e, os professores, como aproximar as famílias do cotidiano.

Aos 8 anos, Alexandre, filho de Joyce Martins, tem uma convicção: terça-feira é o melhor dia na sua escola, a Lar Monsenhor Felippo, em Potim (SP). Não pela aula favorita ou pela hora do recreio, mas porque é o dia do Programa AFETO na unidade de ensino onde a criança estuda. Com as atividades, mãe e filho conseguem ter um tempo só para os dois, explica Joyce. “Foi uma forma de passarmos mais tempo juntos, porque em casa é mais difícil de ter tempo de qualidade. Foi satisfatório para mim e para ele”, afirma.

Esse tempo compartilhado entre pais e filhos, e entre famílias e escola, é o que Cristiana Berthoud, educadora e idealizadora do AFETO, chama de coração da Educação Integral. 

“Educação Integral não é tempo a mais na escola, nem mesmo o currículo diferenciado. É essa união, principalmente da família e de demais pessoas da comunidade escolar”, afirma Cristiana.

O significado do programa está no próprio nome: AFETO é sigla para “Aliança entre Famílias e Escolas Transformando Olhares”. 

“São mães, pais, professores e educadores em geral formando uma aliança em benefício do melhor desenvolvimento das crianças”, afirma Cristiana, que também é doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O programa já chegou a redes de ensino do interior de São Paulo, da Paraíba, do Rio Grande do Sul, de Pernambuco e de Minas Gerais, adaptando-se a cada território e comunidade.

Uma reunião de pais às avessas

A metodologia é baseada no Family Engagement Framework, estudo da pesquisadora Karen Mapp, da Universidade de Harvard, referência internacional em engajamento familiar.

Cristiana explica que adaptou o trabalho ao contexto e às necessidades do Brasil. “Os professores, em geral, não foram formados para trabalhar com as famílias, e as famílias, por sua vez, nunca tiveram onde aprender a apoiar a escola. Ambos temos que aprender e o programa faz isso”, diz.

O processo todo dura um semestre e começa com uma etapa de sensibilização da equipe da secretaria até diretores, coordenadores e professores. Depois, começam há três reuniões com os pais.

“Hoje nós temos reuniões que falam do passado, porque o pai e a mãe são chamados no final do bimestre para contar o que aconteceu. E o passado já passou, não dá para fazer mais nada com isso”, afirma. 

Na proposta do AFETO, a família é chamada no começo do mês e o professor explica o que vai trabalhar, por quê, e qual é o papel da família em casa, além de conversas entre o grupo sobre os desafios de criar um filho.

Cristiana cita o exemplo de uma rede que escolheu trabalhar fluência leitora na alfabetização e cada família combina com a professora uma meta e uma rotina simples, como dez minutos diários de leitura ou de um jogo de montar palavras.

“A proposta não é virar professora do filho, mas ler um pouco juntos trabalha tanto a questão pedagógica quanto o vínculo entre eles e da criança com a leitura”, diz. Segundo dados apresentados por Cristiana, numa das redes atendidas a evolução das crianças em fluência leitora chegou a 58,3% ao longo de um semestre, acima da faixa de 20% a 30% que ela aponta como avanço esperado para o período.

Depois, são realizados seis encontros em que as famílias vão à escola para jogar com as crianças, comer juntas e conversar. O programa tem jogos autorais, como um baralho sobre inteligência emocional, um jogo de tabuleiro sobre comunicação familiar e um de contação de histórias para os menores. 

A comunidade entra na escola

Na EMEI Patrícia Calheiros, em Potim (SP), no Vale do Paraíba, a diretora Flávia Domiciano viu a relação com o entorno mudar. “A comunidade entendeu que a escola não é só aluno e professor. Eles também fazem parte e têm o papel deles na Educação dos filhos”, diz. 

Parte das sessões com as famílias foi conduzida por voluntários da própria comunidade. Mariana Oliveira, que coordenou o programa na escola, conta que os pais se abriam mais quando o voluntário era do mesmo gênero, o que levou a separar rodas de pais e de mães. “O engajamento das famílias com a escola aumentou e muitas pediram que o programa continuasse”, lembra Mariana.

Cristiana também lembra de uma mãe, auxiliar de enfermagem numa pequena cidade do Vale do Paraíba, que batia o ponto atrasada todos os dias por causa do horário de entrada na escola e o de seu trabalho.

“Ela deixava o filho no portão e saía correndo, sem conhecer ninguém a quem pudesse pedir ajuda. Depois das semanas de encontros, ela passou a contar com outros pais para receber a criança”, diz Cristiana.

Para Pamela Ribeiro, estudante de Pedagogia e voluntária do programa, as conversas com as famílias revelavam quase sempre um mesmo ponto: a falta de tempo de qualidade com os filhos. 

“Um momento pequeno, simples, pode fazer tanta diferença para a vida e para o desenvolvimento das crianças. Não tem uma receita de bolo, é de cada um, mas estamos falando de dez minutos sem celular, ler uma página antes de dormir, e isso já muda tudo para as crianças e para os os adultos”, diz Pamela.

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