publicado dia 23/04/2026
ECA Digital abre caminho para dialogar sobre uso das redes com estudantes
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 23/04/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒️ Resumo: Já estão valendo as novas regras do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei 15.211/25), o ECA Digital. Na escola, a legislação abre oportunidade para os professores dialogarem com os estudantes sobre o uso das redes sociais, saúde mental e a exposição a riscos e violências.
“Estou jogando online e um colega que só conheço pela Internet me pede uma foto. Pode?”. A pergunta, feita pelo professor Rafael Alves aos estudantes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, revelou que muitas crianças, com idade entre 6 e 8 anos, já haviam sido expostas a situações de risco ou de violência no ambiente digital.

Estudantes da EMEFM Rubens Paiva participam de jogo sobre o ECA Digital e o uso seguro e crítico das redes sociais.
Crédito: EMEFM Rubens Paiva/Rafael Alves
A dinâmica aconteceu na EMEFM Rubens Paiva, em São Paulo (SP), durante a apresentação e discussão do ECA Digital com as turmas do 1º ao 3º ano. Diante de situações do cotidiano, os estudantes respondiam o que consideravam adequado, levantando placas com os dizeres “pode”, “não pode” e “depende”.
A partir das escolhas da turma, o professor mediava um debate para que as crianças compartilhassem suas opiniões e experiências. Ao final de cada discussão, era feita a leitura e a explicação sobre o trecho do ECA Digital (Lei n° 15.211/2025) sobre o tema.
”Eles se envolveram e falaram bastante”, avalia Rafael. “A atividade nos mostrou que muitas respostas eram baseadas em situações reais que as crianças já haviam enfrentado na Internet, como pessoas desconhecidas pedindo fotos ou até o endereço delas”, aponta Rafael.
A nova legislação entrou em vigor em março deste ano e é uma atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para proteger crianças e adolescentes dos desafios do ambiente digital, que vão do cyberbullying à publicidade predatória.
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Hoje, 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos são usuários de Internet, de acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025. Plataformas como Instagram e TikTok estão entre as mais utilizadas.
“As famílias e as escolas precisam ter muita atenção e trabalhar em conjunto para proteger as crianças”, diz Rafael Alves.
Destes, 30% relataram que tiveram contato com alguém na Internet que não conheciam pessoalmente. E 20% das crianças e adolescentes de 11 a 17 anos relataram já ter recebido mensagem ou solicitação com conteúdo sexual.
“Isso reforça que as famílias e as escolas precisam ter muita atenção e trabalhar em conjunto para proteger as crianças”, ressalta o professor Rafael.
O ECA Digital também prevê mais responsabilização das plataformas digitais e mecanismos facilitados de controle parental, o que também pode contribuir para enfrentar outro problema: o cyberbullying.
Antes restritas ao convívio pessoal, as violências intencionais e sistemáticas tinham mais chances de ganhar visibilidade por parte de adultos nas escolas, na rua ou na família. Agora estendidas também para o ambiente virtual, podem passar despercebidas com mais facilidade.
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A mesma pesquisa do TIC Kids Online mostrou que 29% dos usuários de Internet entre 9 a 17 anos relatam ter passado por situações ofensivas, de que não gostaram ou os “chatearam” no ambiente digital. Outros 12% reportaram que foram tratados de forma ofensiva na Internet e 42%, que viram alguém ser discriminado online.
“E os agentes da violência, muitas vezes, são as próprias crianças e adolescentes. Mas é preciso lembrar que eles são vítimas desse sistema que oferta conteúdos violentos de forma desenfreada, quando eles ainda têm pouca capacidade crítica e de autocontrole”, lembra Maria Antônia Goulart, diretora do Centro de Referências em Educação Inclusiva SESC Senac.
Por isso, a especialista alerta que a saída passa por criar espaços de diálogo, reflexão e de pactuação coletiva de regras, não por imposições ou punições, exceto quando o caso é grave, previsto em lei.
“Os estudantes precisam compreender por que consomem esse tipo de conteúdo e se engajam dessa forma nas redes sociais. Isso demanda muita escuta qualificada, acolhimento, encaminhamentos para a rede de proteção e diálogo com as famílias”, explica Maria Antônia.
Quando Maria Antônia participa de rodas de conversa com adolescentes, é frequente que eles compartilhem seus sofrimentos ligados à baixa autoestima e sensação de inadequação e falta de pertencimento.
“Eles estão querendo mudar o cabelo, a boca, o olho. Temos uma geração insatisfeita e deprimida porque é constantemente bombardeada por padrões estéticos irreais, porque são filtros e edições, e por estilos de vida inatingíveis para a maioria da população neste país tão desigual”, afirma Maria Antônia.

Cresce a quantidade de crianças e adolescentes insatisfeitos com a própria imagem corporal e que buscam cirurgias plásticas.
Crédito: iStockphoto
A última edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada em março, reforça a preocupação. No Brasil, o nível de satisfação com a própria imagem corporal caiu para todos os estudantes desde a última edição da pesquisa, em 2019, de 66,5% para 58%. A situação é pior entre as alunas.
Além disso, três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes e uma proporção semelhante já teve vontade de se machucar de propósito. Outros 18,5% pensam sempre, ou na maioria das vezes, que “a vida não vale a pena ser vivida”.
“Os estudantes precisam entender que essas plataformas foram projetadas para mostrar conteúdos que engajam e vendem, que são aqueles que mostram um mundo que não é real”, diz Maria Antônia Goulart.
Outro dado alarmante vem da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Entre 2011 e 2021, houve um aumento de 141% no número de procedimentos entre jovens de 13 a 18 anos. Entre as cirurgias mais procuradas estão os implantes de silicone, a rinoplastia e a lipoaspiração.
“Os estudantes precisam entender que essas plataformas foram projetadas para mostrar conteúdos que engajam e vendem, que são aqueles que mostram um mundo que não é real. Também porque temos visto crescer o endividamento e as apostas online em busca desse padrão de vida consumista”, explica Maria Antônia.
O design das plataformas também traz outro problema: o vício em telas.
Notificações, vídeos rápidos e infinitos, bem como algoritmos especializados em entregar mais conteúdos similares aos que o usuário assistiu por meio mais tempo, comentou ou compartilhou, criam um ambiente que aprisiona a atenção.
“Eles têm poucos momentos de lazer, de sair para ver um filme, ir na praça com os amigos, passear com a família. Eles ficam muito em casa, ociosos, então pegam o celular”, observa Nairim Bernardo.
“Mesmo com a proibição do uso do celular na escola, eu preciso falar toda hora para eles guardarem o aparelho”, relata Nairim Bernardo, professora de Artes no Ensino Médio do Senac Nações Unidas, em São Paulo (SP).
Ela relata que percebe os estudantes mais ansiosos, com dificuldade de concentração e socialização, impressões compartilhadas também por seus colegas de profissão.
“O tempo da escola é muito diferente do tempo das redes sociais, então até mesmo quando vou passar um vídeo de três minutos, parece que já é tempo demais para eles”, observa Nairim.
No começo do ano, para todo mundo se conhecer mais, ela pediu para os estudantes contarem o que gostavam de fazer e escolher um objeto que os representasse. O celular e assistir vídeos nas redes sociais foram as respostas que mais apareceram.
“Eu entendo a vontade de julgar essas respostas, mas temos que partir da realidade deles para nos aproximar, inclusive porque os adultos também têm muita dificuldade com isso [uso de telas]. Então eu falo que também gosto disso e começamos uma investigação em conjunto”, afirma a professora.
Ela também observa que o celular substitui o lazer para muitos estudantes.
“Eles têm poucos momentos de lazer, de sair para ver um filme, ir na praça com os amigos, passear com a família. Eles ficam muito em casa, ociosos, então pegam o celular”, observa.

Celular vira novo lazer das crianças e adolescentes.
Crédito: iStockphoto
Para dialogar sobre o tema, a professora costuma perguntar sobre o que gostam de consumir nas redes sociais, conversa com eles sobre os temas e eventualmente apresenta outros conteúdos e perfis que podem ser mais interessantes e educativos. Nisso, também debatem desinformação e discursos de ódio nas redes.
Em uma atividade mais direcionada, a professora assistiu a alguns episódios da série adolescente Para Sempre (Netflix, 2025). Na produção, um menino vaza um vídeo íntimo da protagonista.
“Dá para derivar muitas discussões a partir dela, mas fomos pelo caminho de discutir o compartilhamento de conteúdos próprios e de terceiros, e também levei um texto sobre masculinidades e sobre a lei, falando que é crime. Rendeu boas reflexões, principalmente sobre os meninos sentirem que tem que provar a própria masculinidade”, afirma Nairim.
“O objetivo é uma tomada de consciência sobre algo que antes não sabíamos”, afirma Maria Antônia Goulart.
É também nas redes sociais que os influenciadores afirmam ter a receita de como “ser homem” e conquistar mulheres e sucesso, conteúdos que engajam sobretudo meninos adolescentes.
Por todo o apelo que as redes sociais têm sobre as pessoas, sobretudo crianças e adolescentes, Maria Antônia defende que é responsabilidade dos adultos fazerem restrições no tempo e nos conteúdos consumidos pelos mais novos. Mas esse processo deve acontecer de forma dialogada, para que não se crie uma lógica de “nós contra eles”.
“O objetivo é uma tomada de consciência sobre algo que antes não sabíamos. É construir o entendimento de que se trata de um vício para todas as pessoas, que é difícil mesmo. E também que as crianças e adolescentes reflitam sobre o que acham de bom e de ruim nas redes sociais e façam escolhas melhores e mais conscientes sobre o que produzem e o que consomem. É uma aprendizagem profunda e cuidadosa”, sintetiza.