publicado dia 09/04/2026
Livro propõe olhar para as contribuições das turmas multisseriadas para a Educação
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 09/04/2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒 Resumo: Livro gratuito “Turmas Multisseriadas: estudos, pesquisa e memória” (Fundação Santillana e Roda Educativa) reúne pesquisas, memórias e reflexões para mostrar que, além dos desafios, as turmas multisseriadas guardam experiências pedagógicas, vínculos comunitários e potências que podem inspirar toda a Educação brasileira.
A narrativa comum em torno das turmas multisseriadas costuma ser o da precariedade, ressaltando falta de infraestrutura, materiais, formação e aprendizagem. Embora de fato essas escolas enfrentem inúmeros desafios, elas também apresentam soluções que, potencializadas com o apoio do poder público e de toda a sociedade, muito têm a ensinar a toda a Educação brasileira.
Dar visibilidade a esse cenário é o objetivo do livro digital gratuito “Turmas Multisseriadas: estudos, pesquisa e memória” (Fundação Santillana e Roda Educativa).
“Aprender a lidar com as diferenças e a diversidade em todas as escolas se faz urgente. É preciso desnaturalizar o padrão construído e deslocar essa modalidade para o centro das ações políticas […] Este livro lança luz sobre a potencialidade das turmas multisseriadas, ainda muito mais associadas a faltas e limitações do que reconhecidas por suas grandes potencialidades”, dizem Tereza Perez e Renata Grinfeld, da Roda Educativa, na introdução do livro.
Turmas multisseriadas são aquelas que reúnem em uma mesma sala de aula estudantes de diferentes idades e séries do Ensino Fundamental. No Brasil, estima-se que haja 80 mil turmas multisseriadas, majoritariamente localizados nas regiões do campo do Norte e Nordeste. Nos últimos anos, o fechamento de turmas e escolas fez o número de estudantes cair de 1,2 milhão para 911 mil entre 2019 e 2023. Os dados são do Censo da Educação Básica.
“As salas multisseriadas, por atenderem a um público heterogêneo, têm o propósito de que todos aprendam, mas em turmas multisseriadas modos e tempos variados e, dessa forma, coloca-se a necessidade de ensino instigante, integrado e participativo. Esse modelo possibilita que professoras e professores promovam a cooperação entre meninos e meninas de diferentes idades. Os mais velhos da turma aprofundam seus próprios conhecimentos ao ensinar os mais novos, enquanto estes trazem outras perspectivas sobre os temas trabalhados e se beneficiam da bagagem dos mais experientes. Essa relação de compartilhamento e cooperação é uma característica a ser valorizada no ambiente escolar”, destaca a publicação.
O livro surgiu a partir de uma pesquisa realizada em turmas multisseriadas no contexto do projeto Nós – Iniciativa pela Educação Integral em Territórios Amazônicos, e que foi conduzida pela equipe da Roda Educativa.
Para André Lázaro, Diretor de Políticas Públicas da Fundação Santillana, é fundamental conhecer melhor essas turmas para apoiá-las de forma adequada e promover os direitos de seus estudantes e famílias.
“É fundamental manter as escolas no campo para que as famílias permaneçam no campo. Isso é uma demanda do movimento social do campo há muito tempo, para não expulsar as famílias para a cidade”, afirma André, que concedeu entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral sobre o tema. Confira:
André Lázaro: Quase não se ouve falar sobre essas escolas, suas realizações, para além do que falta nelas, de baixa aprendizagem, baixa infraestrutura, entre outros. E muitas delas foram fechadas nos últimos anos. Um dos argumentos usados para fechar as escolas do campo é a sua precariedade pedagógica, o que atribuem a elas serem multisseriadas.
Ao invés de apoiar essas escolas e identificar o que elas trazem de inovador, como acolher os estudantes perto de suas casas, abordar a cultura local e sua importância política e social, desqualificam essas escolas.
Do ponto de vista pedagógico, o livro mostra as características das turmas multisseriadas, como a convivência de crianças de idades distintas na mesma sala de aula e a realização de atividades numa perspectiva de entrosamento, que rompem com a rigidez da seriação e garantem diferentes caminhos e dinâmicas de aprendizagem, e promovem uma socialização bastante interessante e responsável.
Do ponto de vista político-social, é fundamental manter as escolas no campo para que as famílias permaneçam no campo. Isso é uma demanda do movimento social do campo há muito tempo, para não expulsar as famílias para a cidade, o que, além de tudo, aumenta a concentração de terra no país e enfraquece a agricultura familiar.
André: Ele trata de uma pesquisa pequena do ponto de vista da sua representatividade, mas é uma pesquisa feita com tanto rigor, cuidado, zelo e valorização das pessoas com quem ela conversa, que o trabalho ganha relevância, ainda mais por ser antecedido e amparado por uma pesquisa bibliográfica muito rigorosa e consistente.
Ele também tem estudos sobre turmas multisseriadas no Amazonas, Amapá e Maranhão, e um caso mais detalhado em Açailândia (MA). Ainda, traz relatos de grandes educadores que foram alunos de turmas multisseriadas e, depois, foram professores desse tipo de turma. Os achados da pesquisa dialogam intensamente com aquilo que a pesquisa bibliográfica havia levantado.
E há um artigo muito importante sobre as potencialidades: O que as turmas multisseriadas trazem de elementos de transformação para a Educação como um todo?
André: Tem as inovações pedagógicas. Elas podem ser aproveitadas para romper certa visão uniformizante da Educação brasileira, que acha que deve ser tudo igual o tempo todo, como se isso fosse defender a igualdade. Igualdade é defender e respeitar as diferenças.
Tem também o vínculo com o território, porque essas escolas têm proximidade e diálogo com o território, com a comunidade, com as pessoas.
E tem também o poder de aprender com diferentes pessoas, de diferentes idades e momentos do desenvolvimento. Todos temos algo a ensinar e a aprender.
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