publicado dia 11/07/2016

Mendonça Filho nomeia defensor do Escola sem Partido como assessor especial do MEC

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O ministro da educação, Mendonça Filho, nomeou o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Adolfo Sachsida, como assessor especial do MEC. Em seu blog, o pesquisador defende claramente propostas do Escola sem Partido, além de sustentar outras posições conservadoras, como o apoio ao ajuste fiscal e à saída da Grã-Bretanha da União Europeia, por exemplo.

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Em seu canal no Youtube, Sachsida gravou um vídeo junto com Miguel Nagib, idealizador do Escola Sem Partido, Orley José da Silva, outro dos principais defensores do movimento, e Marisa Lobo, defensora da cura gay.

A nomeação foi publicada hoje no Diário Oficial da União. O pesquisador também já manifestou seu apoio ao movimento em sua conta no twitter. Em outro tweet, ele convoca um encontro da direita brasileira para outubro, em Brasília.

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Essa não é a primeira vez que o novo ministro da Educação dá espaço para defensores do Escola sem Partido. Pouco depois de assumir o posto, em maio de 2016, Mendonça Filho recebeu em seu gabinete o ator Alexandre Frota e o líder do Revoltados OnLine, Marcelo Reis. Em vídeo gravado depois do encontro, eles afirmam que entre as propostas que levaram ao ministro estavam as do Escola sem Partido.

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Especialistas em educação acreditam que as propostas do grupo visam censurar os professores, além de não terem nenhuma sustentação pedagógica. Figuras como Renato Janine Ribeiro, José Arthur Gianotti, Leandro Karnal e diversos educadores rebateram as propostas do Escola sem Partido.

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“[O movimento Escola sem Partido] tem uma visão cruelmente deturpada da educação escolar. A sala seria um cativeiro no qual alunos completamente inocentes estariam passivos e indefesos frente ao poder absoluto do professor de impor as suas concepções, seja através da sua doutrinação maliciosa ou da violência física praticada por aqueles que já foram sequestrados intelectualmente pelo professor”, afirmou o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernando Penna que também integra o movimento Professores Contra o Escola Sem Partido.

Recentemente,  Associação Brasileira de Escolar Particulares (Abepar) divulgou uma nota criticando as propostas. Para o grupo formado por 20 colégios, a partidarização do ensino é um desvirtuamento da atividade docente, mas que a saída para casos como esse passa pelo diálogo entre a escola, estudantes a comunidade escolar e as famílias.

“A democracia é o valor maior que professamos, o que implica ampla aceitação das diferenças políticas, ideológicas, religiosas ou culturais. Acreditamos, assim, na pluralidade política e ideológica da sociedade brasileira. Entendemos, por isso, que iniciativas que visam interferir na sala de aula, ainda que bem-intencionadas, podem contribuir muito mais para punir a diversidade, o pensamento livre e a fomentar a exclusão do que a limitar a partidarização”, afirmaram as escolas no manifesto (veja íntegra no final da matéria).

Bolsonaro, estupro e “ideologia de gênero”

Sachisda mantém um blog onde defende suas ideias e divulga textos sobre economia, política e educação. Em um post ele defendeu o deputado federal Jair Bolsonaro com relação à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que tornou o deputado réu por apologia ao estupro.

Para o novo assessor especial do MEC,  “Bolsonaro é conhecido por seu duro combate ao crime e aos criminosos. Bolsonaro é conhecido por sugerir penas pesadas aos criminosos (entre elas pena de morte para determinados crimes e castração química para estupradores). Bolsonaro esta pagando o preco por fazer uma oposição dura e corajosa ao PT, às esquerdas, e ao politicamente correto”.

Sachisda também escreveu um post em que considera absurda a decisão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) que considera, em caso de estupro ou assédio sexual, que a palavra da vítima tem valor de prova no processo e pode ser suficiente para condenar o agressor.

“Se a palavra da suposta vítima tem valor probatório superior ao do suposto agressor, então resta evidente que o princípio do contraditório e do amplo direito de defesa foi violado”, escreveu o novo assessor especial do MEC.

O blog do pesquisador também se dedica a atacar também a luta das feministas. Ele mantém um canal no YouTube com o título “Conversando com o Sachsida” em que produz entrevistas com pessoas que considera referência para sua atuação. Em um desses vídeos ele entrevista Sara Winter que foi militante do movimento Femen e atualmente se diz anti-feminista e anunciou em fevereiro uma parceria política com Jair Bolsonaro.

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Para Sara Winter “o propósito do feminismo em disseminar a ideologia de gênero é promover a destruição da família tradicional e de todos os valores morais da sociedade. Tudo isso, claro, com a desculpa de enfrentamento ao preconceito e homofobia”, afirmou em entrevista ao site Gospel Mais.

Dialogar é melhor que proibir

Tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei que vem inquietando a comunidade educacional e produzindo desconforto junto a professores, coordenadores e mantenedores de escolas. Pretende esta iniciativa evitar a “partidarização” do ensino, proibindo por decreto que professores atuem na sala de aula como “doutrinadores políticos e ideológicos”.

A “partidarização do ensino” – entendida assim em sentido absoluto, como aparece formulada no projeto – é, foi e sempre será um desvirtuamento da atividade docente. Com a saudável intenção de combater essa prática, que nenhum educador defende, o legislador termina por validar regras que poderiam cercear e até inviabilizar o trabalho pedagógico.

É preciso levar em conta que a ação pedagógica se dá por meio de um delicado equilíbrio de forças, de pesos e contrapesos, envolvendo professores, alunos, famílias, escolas e sociedade. O diálogo franco e aberto é sempre o melhor recurso para a correção de eventuais desvios. E é assim que fazemos em nossas escolas.

Os educadores comprometidos com os seus alunos recusam qualquer tipo de doutrinação política, ideológica, cultural, religiosa ou comportamental. Sabem eles que o papel da escola e do professor é sempre o de contribuir para a autonomia intelectual e existencial do aluno – o que pressupõe acesso amplo e sem restrições a um conjunto diversificado de teorias políticas, culturais, sociais, científicas e econômicas.

Bons professores nunca são “doutrinadores”. Os melhores docentes são aqueles que se revelam capazes de mobilizar a inteligência do aluno, levando-o a refletir e a compreender a excepcional complexidade dos fenômenos históricos, políticos, sociais, culturais e científicos. E esses bons professores estão espalhados pelo Brasil. Muitos deles estão reunidos em instituições ligadas à Abepar (Associação Brasileira de Escolas Particulares).

A democracia é o valor maior que professamos, o que implica ampla aceitação das diferenças políticas, ideológicas, religiosas ou culturais. Acreditamos, assim, na pluralidade política e ideológica da sociedade brasileira. Entendemos, por isso, que iniciativas que visam interferir na sala de aula, ainda que bem-intencionadas, podem contribuir muito mais para punir a diversidade, o pensamento livre e a fomentar a exclusão do que a limitar a partidarização.

Por tudo isso, por tudo o que vivenciamos em nossa rotina de trabalho, confiamos plenamente no diálogo com toda a comunidade escolar para superar eventuais desvios. Atuamos lado a lado com nossos professores e coordenadores buscando estimular cada vez mais o senso crítico de nossos alunos em relação às mais diversas tendências, correntes, partidos, crenças e ideologias.

Acreditamos falar em nome de muitos educadores, gestores, mantenedores, professores e de tantos outros que militam na área ao propor aos membros dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário de todas as instâncias, aos integrantes do Ministério Público, um diálogo franco e aberto com a comunidade escolar.

A Abepar, que reúne a escola particular, estará sempre pronta a participar de todas as iniciativas que visem aprimorar a educação em nosso país. Estamos dispostos a oferecer nossos melhores talentos para que esse diálogo com as instituições seja o mais profícuo possível. Se isso de fato acontecer, estaremos nos credenciando coletivamente para superar o atraso que ainda se verifica na qualidade da educação em nosso país.
Abepar (Associação Brasileira de Escolas Particulares)
Julho de 2016
Relação de Escolas Associadas à Abepar:
– Carandá Vivavida Educação
– Colégio Bandeirantes
– Colégio Elvira Brandão
– Colégio Guilherme Dumont Villares
– Colégio Mackenzie
– Colégio Magno
– Colégio Oswald de Andrade
– Colégio Palmares
– Colégio Pentágono
– Colégio Santa Cruz
– Colégio Uirapuru
– Escola BeLiving
– Escola CEB
– Escola da Vila
– Escola Lourenço Castanho
– Escola Móbile
– Escola Santi
– Escola See-Saw Panamby
– Escola Vera Cruz
– Escola Viva

 

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Site do Programa Escola sem Partido
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