publicado dia 21/05/2015

Amar se aprende amando, ler se aprende lendo

por

Assim ensina Carlos Drummond de Andrade: “O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo acha a razão de ser”.  Todo ser vem ao mundo e nele aprende a existir amparado pelo amor e cuidado do outro, um mediador entre nós e o desconhecido mundo. E seguimos aprendendo o cultivo e o encontro com novos amores e desamores. Não há truques, nem atalhos. É no convívio e contato cotidiano, entre alegrias e frustrações, mas sempre empenhados em aprender, que amadurecemos nossos sentimentos e nos preparamos para sermos mediadores dos novos seres que virão. É nosso destino enquanto humanidade – embora não estejamos nos saindo tão bem assim.

Mesmo em tempos digitais, o caminho – ou o processo – não muda. Tal qual aprendemos a ser humano e amoroso no convívio e no contato com os outros, aprendemos a ler mediante uma experiência repleta de altos e baixos, com dificuldades e superações. Aprendemos a ler expostos às experiências leitoras, no convívio e no contato cotidiano com livros, leitores e leituras. Aprendemos assim a refinar o gosto, apurar os sentidos, desbravar textos complexos e, de certa forma, descobrir, em nós, um leitor ávido em empreender leituras desafiadoras.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revela, desde sua primeira edição, a enorme importância de mães e professores na formação leitora de crianças e jovens. Mas o que estamos fazendo com essas informações reveladas? Alguma campanha ou política pública em nível nacional para apoiar adultos educadores, famílias e escolas no cumprimento desta tarefa tão fundamental? Há ações concretas para informar esses atores para que aprendam como formar leitor? E será que nos servimos proativamente do que indicam as pesquisas para além de lamentar em manchetes os déficits que revelam?

Se a educação é o exercício da esperança para que indivíduos se tornem seres humanos criativos, inovadores, generosos e cidadãos, com tudo o que a palavra encerra de responsabilidade e direitos, a leitura é a atividade e a matéria transversal. Mas de que leitura estamos falamos? Da leitura formativa, tal qual a descreve o professor Luiz Percival Leme Britto, “para além do cotidiano imediato, com níveis de complexidade variados, onde há outra esfera de produção intelectual relacionada com a escrita”. Da leitura que integra conhecimentos, que promove o desenvolvimento integral e percorre os caminhos das ciências, artes, formação e estudo, em que os textos trazem conteúdos e forma de organização que transcendem o imediatismo e o pragmatismo e exigem maior nível de metacognição.

Numa entrevista concedida em 2011, Eduardo Galeano, pensador e autor de obras de valor fundamental para a construção de humanidades, disse que a “vida não é feita de átomos, é feita de histórias, porque são as histórias que a gente escuta, recria, multiplica, são as histórias que permitem transformar o passado em presente e que permitem transformar o distante em próximo, possível e visível”. Para usufruir deste valioso patrimônio humano é preciso estar plenamente inserido na cultura escrita.

E se não temos como prometer se o resultado de mais e melhores leituras formará, necessariamente, seres humanos melhores, parece certo, olhando a História em retrospectiva, que com mais exercícios de alteridade – e a leitura, em especial de ficção, é um recurso estratégico -, tendemos mais a mais humanidade. Não se trata apenas de formar médicos, mecânicos, professores, atores e etc, mas como se formam, quem se tornam e quais compromissos assumem para evitar retrocessos e promover avanços relacionados às conquistas socioambientais. Em semear oportunidades para deixarmos “filhos melhores para este planeta”.

Outro dia me perguntaram o que seria do futuro da escrita. Não sei! Não sou linguista, nem futuróloga. Sou uma socióloga que teve o privilégio de receber do pai a coleção de Monteiro Lobato e não parar de ler nunca mais. Penso que está na hora de manter o olho no por vir com as mãos na massa do a fazer: assegurar um direito previsto em lei, a plena inclusão na cultura escrita, pestuara que do resto possamos correr atrás.

* Por Christine Fontelles, socióloga formada pela PUC-SP, possui MBA em Marketing pela FEA-USP e é diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo desde 1999. Trabalha na realização de projetos integrados com foco na promoção das competências de leitura e escrita, como o Biblioteca Comunitária Ler é Preciso e a Campanha “Eu Quero Minha Biblioteca”.

Como estimular a leitura entre crianças e jovens na escola?