Ensino de inglês deve mirar a interdisciplinaridade

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“É quase impossível trabalhar o Inglês de forma isolada”. A frase é da professora Karla Pereira dos Santos, da rede estadual de Goiás, e resume um dos principais pontos trazidos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino do idioma nas escolas regulares: a importância de inserir a aprendizagem da língua inglesa em contextos onde ela seja de fato usada e que são, por sua vez, interdisciplinares.

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Historicamente, o ensino de língua estrangeira no Brasil focou em aspectos linguísticos e, com a chegada dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), no estudo da língua escrita. “Encara-se ainda hoje o ensino de Inglês como um fim”, destaca Andreia Alves, professora da Escola da Vila, na capital paulista, e consultora no ensino da disciplina. É daí que vem o antigo estigma de que as aulas focam excessivamente em aspectos formais da língua, como a conjugação do verbo to be. “Agora, passamos a enxergar o ensino como um meio. Então, quando ensinamos o simple present, por exemplo, nos perguntamos o porquê dos alunos aprenderem esse conteúdo gramatical”, completa a especialista.

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Nesta perspectiva, uma das possibilidades abertas é a de relacionar a aprendizagem do Inglês com projetos desenvolvidos por meio de outros componentes curriculares. “Não é obrigatório que isso aconteça, mas é possível e interessante”, afirma Andreia. A professora Karla exemplifica: “No Inglês, é quase impossível escapar de levantar aspectos culturais, históricos e geográficos, porque a aprendizagem da língua está ligada a realizar trocas com pessoas que vivem em outros contextos.”

O Inglês e a área de Linguagens

No texto da BNCC, a dimensão intercultural aparece como um dos eixos que organizam o componente curricular. “O tratamento do Inglês como língua franca impõe desafios e novas prioridades para o ensino, entre os quais o adensamento das reflexões sobre as relações entre língua, identidade e cultura, e o desenvolvimento da competência intercultural”, afirma o documento.

Logo, o trabalho feito dentro das aulas de Inglês deve mirar também a parceria com professores de outras disciplinas. Na escola de Karla, por exemplo, em 2018, todos os professores trabalharam diferentes aspectos ligados à violência doméstica e contra a mulher. Nas aulas de Inglês, o repertório dos estudantes foi ampliado com textos que mostravam materiais produzidos em outras situações de aprendizagem a respeito do mesmo tema. “Tratar de um tópico que já era de conhecimento dos estudantes facilitou a compreensão dos textos e vídeos que apresentei”, comenta a professora.

Além disso, a inserção do componente dentro da área de Linguagens promove essa articulação e pode alavancar o trabalho. “Os alunos podem ser convidados, por exemplo, a relacionar aspectos da linguagem artística aos seus conhecimentos linguísticos do Inglês”, exemplifica Telma Gimenez, docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

A criação de estratégias de leitura também é fundamental para diversos componentes: conhecimentos adquiridos com a apreciação de imagens nas aulas de Arte podem servir de apoio para a leitura de textos em Inglês que possuam fotos e ilustração. Assim como o uso de algumas estratégias de leitura aprendidas nas aulas de Português. “Sempre que lemos um texto, devemos nos apoiar em títulos, legendas, imagens e palavras-chave para conseguir compreendê-lo”, afirma Andreia. Essas habilidades também são importantes para o ensino do Inglês e aparecem dentro dos descritores previstos na BNCC.

Inglês para investigar a história local

No município de Araçariguama, no interior de São Paulo, uma das propostas cogitadas por professores da rede durante os grupos de estudo sobre a BNCC foi a exploração da Língua Inglesa para a descoberta da história da região. “Temos aqui uma mina de ouro desativada que foi explorada por uma companhia inglesa”, conta Luciana Cury, pedagoga, então à frente da superintendência da Educação do município. Nesse caso, a disciplina poderia entrar como um importante apoio para a exploração desse momento histórico local ao propor, por exemplo, que os alunos busquem documentos e informações em língua inglesa sobre o episódio em questão.

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Outro caminho possível é o de identificar as heranças deixadas pelos imigrantes que vieram trabalhar na corporação. “Hoje, a cultura inglesa pode parecer muito distante, mas seria muito interessante propor aos alunos que observassem esse ponto de contato que tivemos com esse país”, destaca a gestora.

São costuras como estas que permitem que habilidades ligadas aos componentes de História, Geografia, Ciências da Natureza, entre outras, sejam integradas e aprofundem os conhecimentos dos estudantes sobre essa relação que se estabeleceu no passado e, mais do que isso, atribuam sentido às aprendizagens de hoje.