Reportagens

Reprovação, não; Reviravolta, sim

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Se alguém precisa ser reprovado somos nós adultos que não geramos as condições necessárias e suficientes para que todos tivessem condições de aprender

Por Tereza Perez
Diretora-presidente da Comunidade Educativa CEDAC

A pandemia desestabilizou nossas rotinas, nossas relações, nossas perspectivas de vida e interditou a escola, o único equipamento público frequentado diariamente por milhões de estudantes e educadores. As famílias dos estudantes se viram diante de um desafio inédito, de viabilizar os estudos dos filhos em casa; e os educadores, privados do espaço da sala de aula, tiveram de aprender novas práticas, buscar novas formas de alcançar os estudantes, de acompanhá-los.

Estamos chegando ao fim de 2020 sem saber ao certo o que conseguimos assegurar nesse processo nem para onde vamos, mas, dentre os aprendizados e reflexões que esse período nos proporcionou, uma coisa é clara: a reprovação dos estudantes não é um desfecho aceitável para este ano.  

Sim, o percurso foi para lá de acidentado. Sim, as condições foram ainda mais desiguais. Sim, teremos que olhar para as aprendizagens previstas, e considerar outras totalmente imprevistas, mas o ônus das dificuldades que enfrentamos na gestão dessa pandemia não pode recair sobre os estudantes. Precisamos conhecer o que foi aprendido, retomar e fortalecer as aprendizagens para que todos e todas possam ter condições de continuar aprendendo e seguindo sua trajetória escolar. Uma reprovação   aumentaria o risco da evasão que já tememos que seja grande. É hora de todos nós mostrarmos aos nossos e nossas estudantes que estamos dispostos a fazer uma escola melhor para eles. Que também aprendemos com essa experiência. É hora de construir com eles uma verdadeira reviravolta da escola.

Conscientes mais do que nunca da desigualdade de condições neste país, nós, educadores, não podemos simplesmente almejar um “novo normal”. Seria um desperdício propor um retorno que apenas considere as medidas sanitárias (não que isso seja tarefa simples), mas que se pretenda a retomar o percurso pré-pandemia, ajustando o planejamento para contemplar os conteúdos não ministrados ou ainda considerar já “trabalhados” os conteúdos ministrados nas aulas on line.

Essa reviravolta à escola que temos defendido é a proposta de novo início, mas também de retomada dos princípios da educação integral, que aparecem no Manifesto da Escola Nova (1932), na LDB (1996), nos PCN (1997), nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (2016), e na Base Nacional Comum Curricular (2017), e que ganharam nova concretude.

Alguns desses princípios inclusive já foram postos em prática em função das necessidades trazidas pela pandemia e não podem ser perdidos de vista: 

  1. Interdependência família-escola: As secretarias de educação e as equipes das escolas (diretores, coordenadores, professores) tiveram de interagir fortemente com as famílias, suas maiores aliadas nesse período. As famílias puderam perceber o papel único da escola no desenvolvimento dos seus filhos.
  2. Incorporação e valorização das aprendizagens construídas no universo familiar e comunitário.
  3. Constituição/Fortalecimento da redes de proteção social – aumentou a articulação da Educação com os conselhos, assistentes sociais, agentes de saúde,…. A pauta comum é garantir a integralidade das crianças, adolescentes e jovens. E deve continuar sendo!
  4.  Ampliação das competências digitais de educadores e estudantes: a guinada digital forçada e desigual que a pandemia nos impôs exige que olhemos para a questão do acesso de outra forma. A discussão sobre acesso, permanência e sucesso agora passa por acesso à internet e equipamentos.

Para além desses aprendizados que considero básicos, a preocupação com o abandono atual e  a previsão de evasão –  especialmente se aprovado o estudar em casa -, e com o acirramento das desigualdades nos provoca a olhar para outros funcionamentos da escola, dentre os quais destaco a organização da escola em agrupamentos fixos e estáticos que desconsidera a diversidade das aprendizagens.

Utilizo como base para minha reflexão o conceito de cronologia e monocromia da aprendizagem cunhado por Flávia Terigi.

Cronologia diz respeito à estruturação do sistema escolar: anos, agrupamentos por idade, unidades de tempo regular, bimestres, trimestres.

 A monocromia da aprendizagem diz respeito a tratar todas as crianças e estudantes como se fossem iguais e almejando que tenham as mesmas aprendizagens. Esse enfoque por si só desconsidera a diversidade característica das aprendizagens. Se queremos que todos tenham aprendizagens equivalentes precisamos considerar as diversidades.  A crença na monocromia é a principal responsável pelo não aprendizado, pelo abandono da escola e pela indisciplina.

Ao buscarmos estabelecer uma referência para a busca de aprendizagens equivalentes estabelecemos os currículos, mas sabemos que o que é projetado não é aprendido com a mesma qualidade por todos. Esse fator ficou ainda mais evidente no momento porque as condições de sua realização estão muito (a)variadas.

Estamos vivenciando a diversidade, a não linearidade da aprendizagem porque cada um está fazendo o que pode com os recursos disponíveis, em função de seus repertórios, das condições materiais, afetivas….  diante das condições atuais de fechamento parcial ou total das escolas sabemos que vamos precisar nos organizar, do ponto de vista curricular em períodos mais flexíveis do que o ano, estabelecer expectativas de aprendizagem por etapas/ciclos; organizar o tempo para adequar as diferentes necessidades e possibilidades de aprendizagem de cada estudante.

Podemos repensar a cronologia da escola propondo situações para serem realizadas em conjunto por  grupos heterogêneos de estudantes de diferentes anos escolares e idades, para que eles possam se ajudar e aprender mutuamente. Vamos deixar de lado a expectativa de monocromia e tratar as  diversidades e adversidades de modo criativo contando com a participação dos estudantes para elaborar novas formas de ação.

É hora de pensarmos em reorganizar e flexibilizar os currículos. 

Ao gerar condições adequadas de higienização e organização para abrir as escolas poderemos acolher as crianças e os estudantes com segurança. A participação de todos: estudantes, familiares, comunidade… na análise de cada contexto para a definição conjunta de prioridades, procedimentos, certamente trará melhor bem estar para todos.

Estamos num momento de pensar grande, de nos arriscarmos a sonhar, planejar e realizar práticas significativas evidenciando nossa responsabilidade pela educação.  

Qual é o papel social e a responsabilidade do e da educador (a)?

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