Ensino-aprendizagem na cidade
Práticas

Trilhas educativas

As trilhas educativas podem ser entendidas como caminhos pedagógicos, isto é, percursos de aprendizagem que integram campos diversos do conhecimento, com base em contextos temáticos de estudo, contribuindo para a investigação dos interesses e indagações levantadas pelos educandos. Trata-se de metodologia de ensino-aprendizagem orientada pela concepção de Educação Integral e que incorpora os saberes locais ao currículo escolar.

Nesta perspectiva, as trilhas apresentam-se como uma alternativa diferenciada de organização curricular, na medida em que possibilitam a integração de diferentes saberes, comunitários e científicos, atrelados às oportunidades educativas da cidade. Buscam, também, contribuir para a construção de uma relação autônoma e prazerosa com o conhecimento, uma vez que conectam o processo de ensino-aprendizagem à vida do educando.

Leia + Por que aprender e educar no território?

A metodologia das trilhas educativas fundamenta-se em três eixos teóricos básicos. São eles: (1) a perspectiva de cidade educadora; (2) a proposta do Bairro-Escola desenvolvida pela Associação Cidade Escola Aprendiz; e (3) os princípios da educação democrática. Tais eixos conferem consistência pedagógica à prática, pois possibilitam a convergência para uma concepção integral do processo educativo e do desenvolvimento humano.

No que diz respeito às cidades educadoras, encontramos, em texto de Jaqueline Moll (2007), referência a movimentos amplos que buscaram abarcar a complexidade do processo de ensino-aprendizagem, procurando transformar os modos de atuação das instituições escolares e conectando a escola às redes sociais e aos itinerários educativos no entorno urbano. O território, tomado como espaço educativo, é, nessa concepção, meio e também agente da educação, incorporando todas as dimensões da Educação Integral.

Acesse  A metodologia das trilhas educativas foi sistematizada pela Associação Cidade Escola Aprendiz e pode ser conferida em uma publicação específica sobre este tema. Acesse aqui.

O conceito Bairro-Escola, como arranjo educativo local, busca articular as diferentes oportunidades educativas do território baseadas em redes sociais, envolvendo diversos agentes, políticas públicas e iniciativas comunitárias.

Nessa perspectiva, comunidades educativas, compostas de seus múltiplos atores e sujeitos sociais, responsabilizam-se pela educação das crianças e adolescentes, debatendo, em parceria com a instituição escolar, projetos educativos que visam o desenvolvimento integral de seus indivíduos e comunidades. Compreende-se, portanto, que escola e território devem ter, em essência, um projeto educativo comum – algo possível mediante uma construção profundamente democrática.

Como fazer

Planeje

Mapeamento de potenciais educativos Acesse essa matéria especial produzida pelo Centro de Referências em Educação Integral e saiba como mapear atividades e intervenções na cidade

Implemente

Exemplo 1º passo da Trilha “Futimania”: o tema “futebol” como campo de pesquisa surgiu durante a realização de rodas de conversas e atividades lúdicas de sensibilização com as crianças e os adolescentes de escolas públicas do município de São Paulo participantes do projeto “Escola da Praça”, desenvolvido pela Associação Cidade Escola Aprendiz.

Leia também: Mapeamento: olhar para a cidade é oportunidade de aprender

Após realizá-las, o grupo pode elaborar uma cartilha denominada “Calor do Jogo”, com regras próprias de conduta adequada no futebol, além de propor a realização de jogos amistosos com equipes formadas pelas crianças e também campanhas para fomentar o blog criado por elas, que continha informações sobre a trilha, assim como a cartilha.

Exemplo 2º passo da Trilha “Futimania”: nessa trilha específica foram realizados mapeamento virtual, caminhadas pelo bairro, visitas às quadras do entorno e entrevistas com moradores que vivem na região. Descobriu-se, por meio do mapeamento, que moravam no bairro colecionadores de relíquias do futebol. Foi formulado, então, um roteiro de entrevista para conhecer esses colecionadores e o que pensavam, além de visitas programadas aos seus acervos. Quanto às questões relativas aos conflitos nos jogos de futebol, foi formulado um outro roteiro de entrevistas para ser aplicado nas escolas do bairro, com crianças e professores.

Para mapear!

Atualmente, é relativamente simples a obtenção de mapas das mais variadas localidades, acessando serviços como Google Maps, disponíveis gratuitamente na Internet. Este serviço permite o acesso a mapas com variados níveis de detalhamento. Consulte: http://maps.google.com.br. Confira também a plataforma virtual “Mapas de Vista” que colabora na criação de projetos de mapeamento e pode ser utilizada por escolas e comunidades para identificar potenciais educativos na região.

Avalie

Exemplo 3º passo “Futimania”: as crianças, em diálogo com os educadores, preencheram os instrumentos de avaliação escolhidos, no início e no final da trilha. Esses instrumentos consistiam em escalas e questões abertas que avaliavam os níveis de aprendizagem do grupo e de cada educando, em relação às habilidades do plano curricular elencadas para aquele percurso. Isso possibilitou que as crianças pudessem refletir sobre seu próprio processo de aprendizagem.

Institucionalize

Exemplo 4º passo “Futimania”: nesta trilha, o percurso do grupo e seus aprendizados foram sistematizados em um blog e em uma pasta do grupo (acessível às crianças), na qual foram registradas todas as produções.

Materiais necessários

Aprendendo com quem faz

Escola Estadual Clara Camarão

No bairro de Felipe Camarão, em Natal (RN), a Escola Estadual Clara Camarão tem descoberto, nessa conexão escola-comunidade, uma força para transformar a realidade de seus jovens. Desde 2003, a instituição atua em parceria com o Conexão Felipe Camarão, projeto que busca, no contato com mestres e griôs das tradições da capoeira, boi de reis, rabeca e teatro de bonecos, transformar a realidade local. “A gente trabalha nesse bairro esquecido pelo poder público, e a escola tem um papel fundamental na transformação dessa comunidade. Se ela se abre, abarca as demandas e se torna um espaço, se ela consegue trazer a comunidade para dentro de si, ela vira essa gotinha de transformação no oceano, uma referência para a população”, afirma Rosângela Filgueira, gestora da Clara Camarão.

Para saber mais

Publicações:

– Coleção Tecnologias do Bairro-escola / Volume 5 – Articulação Escola-Comunidade

– Manual de mapeamento coletivo (em espanhol)

– Territórios Educativos para Educação Integral MOLL, Jacqueline. Um paradigma contemporâneo para a educação integral. Pátio – Revista Pedagógica. Porto Alegre: Artmed, 2009.

Matérias:

– Plataformas virtuais fomentam criação de mapeamentos colaborativos