Letramento e cultura digital
Práticas

Criação do primeiro livro

O Primeiro Livro incentiva estudantes a escreverem livros como atividade pedagógica, além de desenvolver a imaginação, o trabalho ajuda a melhorar a escrita e a autoestima dos jovens.

A prática, que parte do pressuposto do respeito à liberdade de expressão e autonomia dos estudantes, tem por objetivo incentivar que os estudantes criem seus primeiros livros, desde a concepção da ideia, seleção do gênero literário, criação dos personagens, seguindo até a prototipagem da capa, diagramação e publicação da obra. A ideia é desenvolver e incentivar, junto aos alunos, um processo intenso de autodescoberta, de leitura de mundo e de narração da sua própria história.

O processo de criação da obra valoriza a liberdade de expressão e a autonomia dos estudantes, estimulando a consciência de que aprender a ler e escrever é, antes de tudo, aprender a ler o mundo. Uma metodologia que não se dá por meio da manipulação mecânica das palavras, mas numa relação dinâmica que vincula a linguagem e a realidade em que crianças, jovens e adultos estão inseridos.

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A escrita, assim, torna-se objeto do pensamento e da vida. Segundo Paulo Freire, não é um “caminhar sobre as letras”, mas interpretar o mundo e poder lançar sua palavra sobre ele. Logo, o professor, identificando a singularidade e a riqueza do repertório de cada estudante, valoriza-o como sujeito que está em permanente evolução a partir do seu próprio aprendizado.

Durante as atividades, os alunos praticam a escrita e o estudo da Língua Portuguesa, aprendem ortografia e gramática e se apropriam de múltiplas ferramentas e estilos linguísticos. Descobrem, especialmente, sobre seu potencial criativo, sentindo-se responsáveis por suas escolhas e recompensados pelo trabalho que desenvolveram. Tornam-se, ainda, sujeitos ativos e autônomos, capazes de reconhecer a importância de serem autores de sua própria história.

Como fazer

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Implemente

Diagramando

Há vários programas disponíveis para fazer a diagramação dos livros. Uma dica é utilizar o Publisher, disponível no Windows. Veja também um tutorial que traz orientações sobre como diagramar a produção dos alunos.

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Publicando   Caso não seja possível imprimir as obras, hoje já é possível publicá-las de forma online. Entre as opções de ferramentas gratuitas está o Issuu, uma plataforma de publicações digitais.

Materiais necessários

Aprendendo com quem faz

Projeto Primeiro Livro

A oportunidade de escrever um livro é o que o projeto educacional “Primeiro Livro”, criado pelo professor Luís Junqueira, possibilita aos estudantes. A ideia surgiu após estagiar com a professora Davina Marques, na Escola do Sítio (na cidade de Campinas, interior de São Paulo), e tem como premissa que, para desenvolver uma experiência literária, a prática deve chegar antes da teoria.

Assim, durante um ano, os integrantes do projeto auxiliam os estudantes na criação da obra, desde gênero, passando por texto, personagens, ilustrações, entre outros. Nessa proposta, o professor dá atenção individualizada a cada um dos alunos e trabalha com eles a questão da liberdade de criação. O projeto procura desenvolver a autonomia dos adolescentes e aprimorar o uso da linguagem na esfera do letramento, com o domínio de códigos de múltiplos textos, o jogo de cintura linguístico, o conhecimento de diferentes gêneros, a expressão segundo as regras de cada contexto e a percepção e uso do significado social da linguagem.

O passo seguinte é fornecer, a esses alunos, referenciais que enriqueçam seu repertório. “Trabalhamos com muita escrita e ilustração. Somos como tutores, disponíveis para sentar ao lado deles e atendê-los de maneira bem individualizada. Não usamos lousa, nem damos aulas teóricas, pois a teoria vem com a prática”, relata Luís. A tecnologia é aliada do projeto, pois os estudantes escrevem e salvam o material escrito em um serviço de compartilhamento de textos online. O projeto gráfico também é colocado no computador e trabalhado com softwares livres. “O uso da plataforma ajuda a solucionar dificuldades de ortografia e de gramática dos alunos, o que costuma tomar tempo de aula dos professores para serem sanadas. Isso libera tempo para que outros temas importantes sejam discutidos em aula, como ideias criativas, foco narrativo, autobiografia, entre outros”, comenta a professor.

Dessa forma, as crianças e os adolescentes têm liberdade para escolher o tema – de ficção ou baseado em fatos reais – e também são responsáveis pelas ilustrações. Cada capítulo é acompanhado por Junqueira e sua equipe, durante encontros presenciais ou por arquivos virtuais compartilhados. Os retornos são feitos em mensagens de texto ou videoaulas, que apontam melhorias e sugestões. Dessa forma, o projeto conseguiu envolver diversas disciplinas. Os professores de Arte entraram por causa das ilustrações, os de Matemática, porque calculam os custos de produção dos livros, os de Informática, porque os alunos diagramam no computador, e assim por diante.

Em 2015, o projeto passou a ser desenvolvido por escolas públicas, em dois centros da Fundação Casa, em São Paulo, na Escola Municipal de Educação Fundamental Campos Salles, em Heliópolis, também em São Paulo, e em duas escolas em São Miguel dos Campos, em Alagoas.

Acesse também o banco de dados do projeto e veja alguns exemplos de publicações produzidas pelos alunos.

Nas Tramas da Memória

Outra prática que proporcionou aos estudantes uma rica experiência de letramento foi o projeto “Nas Tramas da Memória – Tecendo Saberes e Vivências da nossa História”, uma iniciativa de duas educadoras do município de Maracás, na Bahia. As professoras de Língua Portuguesa Edna Fontes e Neila Portela decidiram criar a iniciativa depois que observaram a falta de conhecimento dos estudantes sobre a memória coletiva do território.

Em várias sequências didáticas, as educadoras trabalharam o uso da linguagem oral e escrita a partir do relato de memórias e narrativas, apoiadas por uma metodologia de trabalho investigativa, como a realização de entrevistas, roda de conversa, pesquisa de documentos, acervos, fotografias, transcrição de textos, entre outros.

Como o projeto tinha um caráter interdisciplinar, professores de Geografia e História se envolveram intensamente nas atividades, trazendo diversos aspectos de Maracás, como o relevo, o clima, a rua onde os escravos viveram. Eles explicaram, também, sobre a história da cidade, os casarões, a importância de preservar o patrimônio histórico, o que culminou na visita a uma fazenda que serviu como recepção de escravos. Ao final do percurso, a escola organizou um seminário aberto ao público, e os alunos apresentaram slides com fotos e explicações de todo o projeto, além dos “Textos de Memória”. Muitos professores abraçaram a iniciativa, e a escola tem a intenção de publicar um livro com todo o material produzido.