publicado dia 20/03/2015

Respeitar é preciso: material orienta práticas educativas em diálogo com direitos humanos

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“Que tempos são esses em que é necessário defender o óbvio?”. Em tom de denúncia e reflexão, os alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Frei Francisco de Mont’Alverne Frei subiram ao palco da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato. O grupo representou militantes perseguidos e mortos durante o período da ditadura militar (1964-1985) e bradou a liberdade na forma de intervenções poéticas.

A apresentação da instituição diz muito sobre as expectativas que pairam sobre as escolas da rede municipal de São Paulo: de que elas eduquem em direitos humanos. A diretiva foi o que uniu a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) e a Secretaria Municipal de Educação (SME), em parceria com o Instituto Vladmir Herzog, e resultou no lançamento do material pedagógico “Respeitar é Preciso“, na manhã de sexta (20 de março).

Da esquerda para direita: Fernando Almeida (SME), Rogério Sottili (SMDHC), Emilia Cipriano (SME) e Ivo Herzog (Instituto Vladimir Herzog) durante lançamento do material.

Da esquerda para direita: Fernando Almeida (SME), Rogério Sottili (SMDHC), Emilia Cipriano (SME) e Ivo Herzog (Instituto Vladimir Herzog) durante lançamento do material.

Um trabalho integrado

A publicação surge como continuidade do programa Centros de Educação em Direitos Humanos (CEDHs), lançado pela Prefeitura de São Paulo no final do ano passado. São cinco cadernos que abordam orientações gerais e também temas específicos para orientar as práticas escolares: Igualdade e Discriminação, Democracia na Escola, Respeito e Humilhação e Sujeitos de Direitos.

O processo de construção do material partiu de um mapeamento prévio junto às escolas que hoje integram os Centros de Educação em Direitos Humanos. Nessa fase inicial são 20 instituições, atendidas pelos pólos criados nos CEUs São Rafael (zona leste), Jardim Paulistano (norte), Pêra-Marmelo (oeste) e Casa Blanca (sul). Dessa escuta inicial com os educadores foram levantadas questões e desafios presentes nas práticas cotidianas e que acabaram sendo sistematizadas ou abordadas em temas correlatos.

Para a coordenadora educacional do Vlado Educação, frente de atuação do Instituto Vladimir Herzog, isso traz um diferencial à orientação pedagógica. “Fazer com que essas instituições se sintam contempladas, é uma forma de estabelecer significado entre as reflexões e a prática”, reforça.

Na visão do coordenador de educação em direitos humanos, Eduardo Bittar, o diálogo proposto é necessário para que as escolas se apropriem do conhecimento e, a partir dele, possam transformar as suas realidades. “Somos conhecedores de vários processos lamentáveis vivenciados por nossas escolas, como a violência, o desprezo social, o próprio despreparo técnico, o bullying, atos de racismo e tantos outros”, enumera. “Entendo que para enfrentar essas questões é preciso construir essa educação em direitos humanos e, nessa perspectiva, queremos apoiar os gestores, os educadores e os estudantes”, atesta. Bittar acredita que a sociedade carece, sobretudo, de uma mudança de mentalidade para utilizar as ferramentas orientadoras disponíveis.

O pensamento também é compartilhado pela Secretaria Municipal de Educação. O diretor de orientação técnica, Fernando José de Almeida, entende que o trabalho é pela educação cidadã, diferente da educação pela cidadania. “Não queremos falar sobre conceitos de cidadania, mas promover a experimentação de práticas cidadãs que podem culminar em projetos de intervenção social”, esclarece.

Um processo de (re) construção

Os gestores são unânimes ao dizer que a primeira versão do “Respeitar é Preciso” não é a final. As 20 escolas serão acompanhadas pela equipe técnica do Instituto Vladimir Herzog nessa etapa de implementação. O processo, como frisa a diretora educacional do Vlado Educação, Ana Rosa Abreu, pretende ser dialógico e orientativo. “Queremos que cada unidade reconheça as possibilidades de atuação frente ao contexto em que estão inseridas”.

Dessa etapa sairão novos apontamentos que serão considerados para uma segunda edição textual, até que o material possa seguir para, pelo menos, metade da rede municipal, meta pensada para 2016.

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Imagem ilustrativa de um dos cadernos do Respeitar é Preciso. Créditos: divulgação

Esse percurso deve partir de um reconhecimento das escolas da urgência da educação baseada em valores, como retoma Ana Rosa. “É a partir das práticas escolares que as crianças percebem o respeito, e o fazem uma referência de vida. Para ela, as instituições educacionais são fundamentais não só por serem base da formação das gerações, mas também por serem espaços de convívio diário, no qual se faz essencial o acolhimento. “As escolas não vão consertar o mundo, mas devem contribuir com a formação de indivíduos capazes de estabelecer outras relações com a diversidade que os cercam”, finaliza.

Centros de Educação em Direitos Humanos transformam escolas, em diálogo com territórios