publicado dia 24/07/2018

Qual a vocação educativa das organizações da sociedade civil (OSCs)?

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Texto de Cecília Garcia, publicado originalmente no Portal Aprendiz.

Existem cerca de 400 mil organizações da sociedade civil (OSCs) no Brasil, de acordo com o IPEA. De diferentes portes e atuando transversalmente em direitos como educação e saúde, elas encaram desafios tão múltiplos quanto as diversidades do país.

Organização da Sociedade Civil é o nome dado para entidades que desenvolvem projetos sociais com finalidade pública. Segundo a ABONG, elas são equipamentos que servem à comunidade, realizando um trabalho de promoção da cidadania e defesa dos direitos coletivos.

Fonte: Plataforma Educação&Participação

Nazira Arbache, diretora do CENPEC, que coordena o Prêmio Itaú-Unicef, reconhecedor de iniciativas inovadoras de organizações sociais e educação, afirma: “As organizações desenham suas propostas em sintonia com o cenário de políticas públicas em determinado contexto nacional, porque elas acabam por representar a verdadeira vocação e a demanda do território onde estão inseridas”.

Mesmo que diversas, as OSCs possuem em comum sua elasticidade de atuação. Por brotarem de anseios de seus próprios territórios, elas criam pontes intersetoriais e se relacionam com políticas públicas, muitas vezes aprimorando-as ou levando-as até territórios onde antes não conseguiam chegar.

Assim, ao articular diferentes agentes e trabalhar com espaços diversos como a escola, as UBS (Unidades Básicas de Saúde) ou o CRAS (Centro de Referência em Assistência Social), as organizações sociais também cumprem um papel fundamental no desenvolvimento integral do sujeito.

A organização social e o território

Nos mais de 400 mil m² da Liga Solidária, instituição que atua na periferia da zona oeste paulistana, crianças andam de skate, adolescentes acessam as estantes coloridas da biblioteca e educadores fazem rodas de leitura debaixo das árvores. É difícil distinguir quem é de fato atendido pelos oito programas sociais mantidos pela quase centenária instituição, ou quem é simplesmente da comunidade e está fruindo da OSC.

Isso ocorre porque tem sido feito o esforço de aumentar a porosidade entre a gigantesca instituição e o território que a cerca – repleto de vulnerabilidades como também de potenciais educativos.

voluntária lê para duas crianças na liga solidária

Voluntária lê com criança atendida pela Liga Solidária / Crédito: Liga Solidária

“Não adianta fazer da portaria para dentro uma ilha da fantasia. Pôr um véu e dizer que está tudo lindo nas quatro horas que crianças e adolescentes passam aqui”, define Marina Nambu, gestora do CCA (Centro de Criança e Adolescente), que atende 500 crianças e adolescente no contraturno escolar. “É necessário discutir o território. Discutir a violência, e enxergar uma oportunidade educativa na possibilidade de mostrar que ele pode ser diferente. E isso se faz trazendo cidadania, arte e cultura. Não de outros lugares, mas as que são produzidas no território mesmo.”

A programação de atividades que permeia o calendário da Liga Solidária é unificada com o território e seus potenciais educativos. Regiane Rosa, orientadora pedagógica da instituição, relata uma experiência exemplificadora: “Um projeto fotográfico com as crianças, onde elas trazem fotos de pontos que elas acham educativos no território, como um espaço de funk ou um muro grafitado. Elas vão nos ajudar a olhar esse território e aprender o que é legal nele.”

A relação território e organização social também se derrama sobre o semiárido do distrito de Cachoeira, na cidade de Maranguape (CE). É lá que funciona o Ecomuseu de Maranguape. Mais do que o prédio físico, localizado em um antigo casarão, o museu existe porque se espraia em diferentes pontos do território: desde a casa da Dona Saudade, uma senhora contadora de histórias no quintal de seus oitenta anos, até hortas de agricultura familiar que se configuram como salas de aulas a céu aberto.

“O território é o grande polo disseminador da ideia de patrimônio, muito cara ao Ecomuseu”, explica Márcio Carvalhal, um dos idealizadores do projeto. “E se relacionar com a escola e com comunidade mostra o potencial de simbiose da organização social”.

senhora lê para roda de crianças em seu quintal

Todo quintal é um potencial educativo no território. Contação de histórias em Maranguape / Crédito: Facebook do Ecomuseu de Maranguape

A OSC e a intersetorialidade

O Ecomuseu de Maranguape se relaciona fortemente com os equipamentos da região, reconhecendo neles saberes tradicionais da cultura, comércio, festividades e natureza. A Escola Municipal José de Moura é agente importante nessa constelação de equipamentos, e tanto os estudantes quanto os funcionários pautam o que a OSC trabalha e atende. “A relação é tão forte que o Ecomuseu incidiu no PPP [Projeto Político Pedagógico] da José de Moura”, explica Márcio.

Já na Liga Solidária, por estar e atender um território alargado, a intersetorialidade se faz uma necessidade. Só no CCA, por exemplo, são 35 escolas que dialogam diretamente com a Liga.

Relações com tão amplas e diversas instituições são desafiadoras, mas como Marina afirma, um dos grandes trunfos tem sido trabalhar a relação por meio da análise e discussão dos casos das crianças e adolescentes. “Se a criança está na OSC, se a criança está na UBS, se a criança está na escola, é o mesmo ser, e temos que parar para discuti-la em conjunto”, afirma Marina.

Discutir com as escolas e outros equipamentos tensionou a Liga a pensar na vocação educacional de sua instituição. Desde o ano passado, a instituição tem desenvolvido um PPP em conjunto com diversos atores de seus territórios.

Plano Político Pedagógico em OSC

Comumente se associa o PPP à escola. Assumir o desafio de criar um na OSC é pensar que aquele espaço é tão responsável por educar quanto a instituição escolar. É criar um documento que de fato responda aos anseios do território atendido, e que seja construído com sua colaboração e participação de toda comunidade.

Regiane comenta que revisitar as práticas pedagógicas e tecer um PPP é muito mais do que simplesmente escrever o que é feito. “O primeiro ponto é entender que se deve criá-lo em equipe, não só a de educadores, mas com as crianças, os funcionários e a família. Começamos por ouvir as crianças, entender o que elas sentiam em relação às práticas. É um desafio revisitar a própria prática pedagógica. Às vezes, o educador acha que está fazendo o bastante, e percebe que pode aprender, modificar, melhorar.”

Adolescentes investigam manifestações culturais de cada região do país / Crédito: Cecília Garcia

Adolescentes investigam manifestações culturais de cada região do país / Crédito: Cecília Garcia

Um outro desafio tem sido envolver as famílias no PPP, fazendo-as perceber que também pertencem ao espaço e que discuti-lo vai além de pensar o comportamento da criança.  “É com elas que temos que quebrar o paradigma de que um lugar é só escola, ou é só assistência social, mostrando que todo território é de fato educador”, reforça Marina.

O PPP, ainda inconcluso, é visto com bons olhos: sua reinvenção e sua revisão significam que está vivo, sujeito a transformações. Ambas as coordenadoras já têm sentido seu resultado no cotidiano. “O posicionamento da equipe, sua postura e seu jeito de olhar para o que fazemos aqui estão mais alertas. Não somos escola, mas podemos contribuir de fato para a educação integral do sujeito”, acrescenta Regiane.

“Ao mesmo tempo que entendemos o PPP como vivo e orgânico, sabemos que há valores dos quais não abrimos mão, que são a educação, a cidadania, a solidariedade e a cultura de paz. O PPP está nos provocando. Estamos em ebulição”, conclui Marina.

10 materiais para discutir intersetorialidade e educação integral