publicado dia 22/04/2015

Macaé Evaristo explica programa que avançou na transformação de Belo Horizonte

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Quando ainda nem imaginava se tornar Secretária de Educação de Belo Horizonte, a professora Macaé Maria Evaristo dava aulas em duas escolas na periferia da cidade – até que foi convidada a ensinar na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela se lembra ainda hoje da reflexão que teve, a caminho para dar sua primeira aula na Faculdade de Educação, se valeria a pena continuar lecionando também na rede municipal, onde trabalhava como coordenadora pedagógica, enfrentando todos os desafios e carências, da escola e dos alunos, tão bem conhecidos pelos quase dois milhões de professores do País.

Ao pisar pela primeira vez na sala de aula lotada de universitários, ouviu alguém gritar “professora Macaé!”. E ao indagar, surpresa, como aquele aluno a conhecia, ele deu a senha: “A senhora foi minha professora no Sebastiana Novaes”. Logo daquele colégio, localizado no bairro de Tupi, na zona norte, a região que tem o IDH mais baixo do município, saíra um aluno que se dizia diretamente influenciado por ela para escolher a sua profissão. A “professora Macaé”, que gerava até ciúmes na família do aluno, de tanto que ele falava nela, fora sua inspiração.

Anos mais tarde, já como Secretária de Educação, ela voltaria a encontrar seu ex-aluno, agora trabalhando como coordenador do Programa Escola Integrada de outra escola da periferia de Belo Horizonte. Este programa, inovador e muitíssimo bem 108 – Trilhas Educativas articulado, como se verá na entrevista que se segue, pretende envolver todos os alunos do ensino fundamental em um consistente programa de educação integral que já mostra sinais de sucesso, mesmo com apenas três anos de existência, prazo curtíssimo para mudanças significativas em educação. Há casos de escolas que turbinaram seu Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 3,8 para 6,0. Milagre? Não. A explicação pode ser encontrada no tripé planejamento, investimento nas escolas e nos professores e articulação eficiente com outras instâncias de governo e organizações privadas e não governamentais, como o Aprendiz. E, não menos importante, tendo à frente uma professora capaz de disseminar seu entusiasmo pedagógico a quem dela se aproxime. A febre educacional da professora Macaé Maria Evaristo é contagiosa, felizmente.

No quadro geral da rede pública municipal, qual a proporção das escolas que fazem parte do programa de educação integral?

Na educação fundamental temos em torno de 100 mil alunos matriculados em 2010 e cerca de um terço deles frequenta a Escola Integrada. A meta é chegarmos a 65 mil alunos atendidos pelo programa de educação integral do município em 2012 e, mais adiante, toda a rede de ensino fundamental. A proposta da Escola Integrada abrange os nove anos do Ensino Fundamental. Para a educação infantil e creches, as necessidades são outras, embora também estejamos pensando na educação em tempo integral.

Como esta atual experiência de reorganização dos espaços e dos tempos escolares dialoga com a Escola Plural, que aconteceu na década de 90, também em Belo Horizonte?

E no que mais se diferencia daquela experiência? Acho que a nossa atual experiência não teria sido possível se, antes, não tivéssemos formado quadros de funcionários e educadores dentro de uma concepção de educação cuja centralidade se encontra nas necessidades de aprendizagem do aluno. O processo 109- Trilhas Educativas educacional precisa ter, como centro, o aluno. Este era o foco da Escola Plural e continua sendo o foco da Escola Integrada. Por outro lado, algumas iniciativas que a Escola Plural apenas apontava, ou conseguiu avançar timidamente, como o trabalho envolvendo diversas secretarias e a maior mobilidade das crianças pelos bens culturais que a cidade oferece, foram ampliadas pelo Programa Escola Integrada.

Como a Escola Integrada mexeu com a vida nos bairros da cidade? A Sra. poderia dar algum exemplo?

Eu gosto de falar do caso de um motorista de ônibus, que comentou com uma professora que, desde que viu aquelas filas de estudantes caminhando pelas ruas do bairro, passou a dirigir com atenção redobrada. E nesse processo de circulação pelo bairro com os estudantes, os próprios educadores se deparam com algumas surpresas, como, por exemplo, descobrirem que perto da escola existe um lixão a céu aberto. Ora, as crianças passavam por aquela área há muito tempo, mas foi preciso que a escola saísse com seus alunos para que os professores descobrissem aquele problema. Então, temos que buscar articulação com outras instâncias do poder público para que aquele lixão seja removido dali. Mas há, também, muitos outros casos de mobilização nas comunidades provocada pelo programa, como o envolvimento dos artistas locais em atividades dentro das escolas.

A inserção de artistas locais, como oficineiros contratados, ajuda também no reconhecimento social dessas pessoas em suas comunidades, não?

sso é muito importante porque mexe muito com a comunidade. Como critério de contratação, esse artista local, que será oficineiro na escola, precisa ter uma boa inserção naquela comunidade e deve criar um projeto de trabalho com crianças e adolescentes. O que eu acho mais importante é que esse movimento criou uma aproximação muito grande de jovens artistas com a educação. São dois movimentos muito fortes hoje em Belo 110 – Trilhas Educativas Horizonte: a aproximação dos artistas locais com a escola e, também, a maior participação nas escolas dos estudantes universitários.

Essa participação dos universitários, como se dá? Eles são alunos dos últimos anos? De quais áreas?

Temos parceria com onze universidades de Belo Horizonte, no âmbito de seus cursos de extensão. São alunos de várias áreas. Como queríamos ampliar o campo do conhecimento dos alunos e professores, era interessante incorporar outras áreas que não se encontram configuradas dentro dos cursos de licenciatura. Então, passamos a trazer também alunos do bacharelado nesses cursos de extensão, desde que eles estivessem vinculados a um projeto de pesquisa sob supervisão de um professor universitário. Isso nos possibilitou, por exemplo, trazer estudantes da área de música para trabalhar a musicalização na escola, ou alunos das faculdades de jornalismo para ministrarem oficinas de rádio na escola e jornal escolar. Essas experiências servem também para ampliar os horizontes de alunos e professores, além de aproximar os estudantes universitários da realidade escolar.

A Secretaria de Educação acaba de lançar o edital do prêmio BH Cidade Educadora. Qual a expectativa em relação a esta iniciativa?

A ideia é premiar e dar visibilidade à infinidade de parceiros do programa Escola Integrada. Queremos mostrar para a cidade a enorme quantidade de universidades, organizações não governamentais, clubes privados, associações e pessoas, todas parceiras desse movimento de tornar a tarefa educacional uma tarefa coletiva, de uma cidade inteira.

Participar da Associação Internacional de Cidades Educadoras rende que tipo de troca de experiências ou de inspiração para novos projetos?

Belo Horizonte hoje preside a Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE) e essa participação tem sido muito produtiva para nós, seja porque podemos compartilhar as experiências de outras cidades educadoras, como Santo André e Sorocaba, seja porque podemos divulgar o que estamos fazendo aqui.

A Sra. teria algum exemplo de experiência feita em outro lugar que inspirou alguma em Belo Horizonte?

Como exemplo de adaptação ao contexto de Belo Horizonte de uma experiência feita em outra cidade eu poderia citar o caso de Lisboa. Lá, eles fizeram um projeto que se chamou “A Natação no Currículo Escolar”. Eu gosto de citar esse caso porque você sabe que mineiro adora o mar, e Belo Horizonte é uma cidade longe de qualquer praia. É muito difícil que uma criança que estude em escola pública aqui consiga praticar a natação. Então, nós conseguimos aprovar na Câmara um projeto de lei que oferece um desconto de 30% no IPTU dos clubes particulares e associações esportivas que recebem, em dias programados, os alunos das escolas públicas da região para aulas de natação e uso das piscinas. Com isso, muitos alunos passaram a ter natação no período escolar. Nós também temos associações de tênis que vem fazendo um trabalho maravilhoso com estudantes das escolas públicas. Temos, ainda, uma professora de ginástica rítmica, dona de uma escola particular, que treina estudantes que jamais teriam oportunidade de frequentar essa escola. Também poderia citar a experiência de mapeamento dos museus da cidade feita em Medellín, na Colômbia, que nos inspirou a fazer o mesmo.

Foi feita uma pesquisa de acesso aos bens culturais em BH. Ela ajudou a nortear as diretrizes da Escola Integrada?

Nós fizemos um mapeamento dos recursos culturais da cidade e nos surpreendemos. Descobrimos que temos 36 museus, muitas vezes em lugares que as pessoas do bairro 112 – Trilhas Educativas nem conhecem. É uma grande capacidade instalada que estava esperando uma política voltada para o seu uso, até para capacitar esses museus a receberem em seus espaços grupos de crianças e jovens, além de adequar a orientação aos professores. Nós também encomendamos uma pesquisa, feita pelo Vox Populi no primeiro semestre de 2010, na qual perguntávamos aos estudantes que tipo de programa cultural eles frequentavam, como cinema, teatro, shows, bailes funk e, até, acesso às redes sociais. Alguns dados interessantes que surgiram dela: a imensa maioria dos estudantes vão aos museus levados pela escola. E como a pesquisa também ouviu os pais dos alunos, há muitos relatos de pais que ficaram interessados em conhecer museus depois que seus filhos estiveram lá. Então, dá para perceber o incrível potencial de cultura que a escola pode construir a partir do mapeamento da cidade.

E a participação da Associação Cidade Escola Aprendiz no Programa Escola Integrada, como se deu?

Nosso primeiro contato com o Aprendiz foi para a organização de um curso de formação que integrava funcionários de diversas secretarias da prefeitura, para explicarmos o conceito do Bairro-Escola. Uma premissa fundamental para se promover um projeto como este, de educação integral em uma cidade, é que as diversas instâncias de governo trabalhem integradas dentro de um mesmo conceito, o de tornar aquela uma “cidade educadora”. Ter crianças circulando pelo espaço urbano implica trabalhar conjuntamente com áreas como transporte, saúde, esportes, segurança, as próprias administrações regionais etc. Isso porque as nossas escolas são muito descentralizadas e a maioria das que integram o Programa Escola Integrada estão localizadas em regiões mais periféricas ou socialmente vulneráveis. Assim, qualquer saída do ambiente escolar precisa ser muito bem planejada e precisamos contar com outras pessoas, de outras áreas do governo municipal. Nesse processo de construção do Programa Escola Integrada, nós tivemos a participação muito intensa de algumas secretarias, atuando em conjunto com a Educação. Foi o caso da Secretaria de Esportes, que foi fundamental para realizar aquele mapeamento dos clubes e associações esportivas da cidade que eu citei. Então, aquele primeiro passo, que surgiu de uma parceria com o Aprendiz, nos 113- Trilhas Educativas permitiu integrar diversas outras instâncias de governo no nosso projeto. Também poderia citar o Aprendiz em outras fases importantes, como a questão da intervenção em parques e praças públicas, ou, ainda, as trilhas culturais. Para dar suporte ao nosso mapeamento, nós nos inspiramos muito no que o Aprendiz fez em São Paulo. A parceria com os artistas locais também tem um diálogo com as ações feitas na Vila Madalena. Da mesma forma, eu posso falar da questão da educomunicação, dos jornais e rádios nas escolas: temos conversado com o Aprendiz porque queremos que os estudantes se engajem cada vez mais na realização desses projetos de comunicação. Esta é uma parceria que se iniciou em 2007, no ano seguinte ao que fizemos um programa-piloto da Escola Integrada com dez unidades, ainda na gestão da Professora Maria Pilar [atual Secretária de Educação Básica do Ministério da Educação]. Eu era gerente de articulação da política educacional e cuidava dessa parte na Secretaria.

Mesmo que a intenção não seja realizar dois tipos de educação no mesmo município, devem ter surgido algumas diferenças entre os índices de desempenho das escolas em tempo integral das demais. Essas diferenças foram suficientes, por exemplo, para elevar o Ideb das escolas envolvidas na experiência?

Nós fizemos um levantamento interessante, analisando três grupos de alunos: os que participavam do Programa Escola Integrada, os que estavam em escolas do programa mas não aderiram a ele (já que a adesão é feita pelo aluno, voluntariamente, desde que existam vagas) e os que estudavam em escolas que estavam fora do programa. E identificamos, primeiro, uma mudança muito importante que foi a maior presença desses estudantes em ambientes de cultura, menos tempo de permanência diante da televisão, além de melhoras nos hábitos alimentares e na higiene. Houve uma diferenciação muito grande naqueles alunos que participam do programa, mas também observamos um movimento naqueles que não participavam do programa, mas que estudavam em escolas nas quais o programa estava operando. Eles apresentaram índices melhores de aproveitamento do que os alunos das escolas sem o programa. A nossa hipótese é que o Escola Integrada acaba mudando a relação de muitos estudantes com o ensino-aprendizagem e com a própria comunidade. Então, se 114 – Trilhas Educativas uma biblioteca pública do bairro se abre a uma participação maior dos estudantes vinculados ao programa, ela também se abre para os outros alunos da escola, mesmo que estejam fora dele. E se a maioria dos alunos de uma escola passa a frequentar aquele espaço em vez de ficar vendo TV em casa, mesmo os que não estão no programa adotam alguns hábitos novos. A mesma coisa acontece com a frequência aos centros culturais, museus, clubes etc. Em relação ao Ideb, houve uma melhoria significativa, apesar do tempo muito curto desde o início do projeto. Como a maioria das escolas vinculadas ao programa estão em regiões mais carentes, com muita vulnerabilidade social, nós temos casos de escolas que tiveram um salto no Ideb de 3,8 para 6,0!

Como fazer para que uma experiência tão rica como esta não seja interrompida com uma eventual mudança de governo? Foram criados alguns mecanismos para tornar essa experiência uma política pública do município, em vez de política de governo?

Nós estamos trabalhando no sentido de inserir o projeto de educação integral na Lei Orgânica do Município. Algumas mudanças já estão incorporadas, como a lei que isenta em até 30% o IPTU dos clubes que recebem alunos das escolas municipais. Nosso objetivo agora é que o Conselho Municipal de Educação regulamente o Programa Escola Integrada como integrante da proposta de educação para Belo Horizonte.

Entrevista de Ricardo Prado publicada na Coleção Tecnologias do Bairro-escola: Trilhas Educativas, Volume 2, da Associação Cidade Escola Aprendiz

Para especialista, educação integral apoia formatação de políticas públicas