publicado dia 09/08/2018

A formação de professores para o contexto da escola brasileira

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Selo Especial Eleições 2018 caminhos para a escola brasileira“A forma como o educador aprende é a forma como o educador ensina”. É a partir dessa máxima que José Pacheco, um dos criadores da Escola da Ponte, em Portugal, explica um dos imbróglios da escola brasileira: a formação de professores. “Logo, tudo que quisermos transformar depende dessa formação e da reelaboração dessa cultura profissional”, acrescenta o educadorEm outras palavras, a transformação da escola começa antes mesmo dos professores entrarem nela.

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Recentemente divulgada, a pesquisa Profissão Professor, produzida pelo Todos pela Educação em parceria com a Fundação Itaú Social com professores das redes municipais, estaduais e privada de todo o País, mostrou, por exemplo, que não há  consenso sobre o papel da formação inicial.

Essa reportagem integra o Especial Eleições 2018 – Caminhos para a Escola Brasileira, do Centro de Referências em Educação Integral. A série de matérias irá abordar como os principais temas da educação se relacionam com o projeto de país em disputa com as eleições que se avizinham, dando ênfase para as questões identitárias brasileiras, direitos humanos e políticas públicas de educação.

Se 1/3 dos professores afirmou que a formação inicial os preparou para os desafios do início da docência, outro 1/3 discordou. A satisfação foi maior, no entanto, entre os professores das etapas iniciais, que cursaram Pedagogia e também entre aqueles com mais tempo de carreira. Além disso, chama atenção no estudo o fato da grande maioria (82%) ter elencando como o elemento mais importante trabalhado na sua formação inicial o conhecimento sobre didáticas específicas da sua disciplina.

Formação conteudista

Afirmações como estas podem ser melhor entendidas quando olhamos para a formação de professores sob um viés histórico. Cláudia Passos Sant’Anna, coordenadora de projetos da instituição EcoHabitare, explica que a escola atual foi desenhada a partir da Primeira Revolução Industrial e teve sua função idealizada para aquele contexto histórico e de civilização, que hoje se mostra ultrapassado.

“Existia uma necessidade de processos estruturados e repetitivos para uma produção em escala. Agora temos outras necessidades, como entender o mundo em rede: o que acontece em um lugar, impacta em outro. Temos que sair da visão cartesiana e entrar para a visão sistêmica. Mas como integrar todas as partes se a escola ainda pensa a História desconectada da Geografia, que não dialoga com a Matemática, e assim por diante?”, questiona Cláudia.

Na formação de professores, explica Pacheco, essa estrutura ultrapassada se traduz em alunos conhecendo teorias inovadoras de educação por meio de métodos arcaicos uma contradição.

“O Ensino Superior trabalha a partir da noção de instrução, com aulas expositivas, transmissão do conhecimento para um aluno depositário de informação, a ser testado por uma prova. Nada disso faz sentido se o objetivo é alinhar a prática escolar e formativa ao século XXI, e acabar com todos os efeitos funestos que a escola atual provoca: insucesso, ignorância, violência, evasão, e doenças nos professores”, diz Pacheco.

Aprender a ensinar

Bernadete Gatti, presidente do Conselho Estadual de Educação de São Paulo (CEE-SP), atenta para o fato de que o docente deve aprender a criar ambientes de aprendizagem para os alunos se desenvolverem. Não é isso, contudo, que a formação de professores tem exercido.

Em suas pesquisas, Bernadete relata que é comum se deparar com professores bem formados nos conteúdos específicos de sua área, mas que não sabem ensinar. “Nos cursos de licenciatura o aluno não estuda Sociologia ou Antropologia cultural para entender a juventude. Não estuda fundamentos da Educação e vai ser um educador. As universidades precisam dar formação em metodologia e mostrar as várias possibilidades didáticas”, explica a especialista.

É comum se deparar com professores bem formados nos conteúdos específicos de sua área, mas que não sabem ensinar, diz Bernadete Gatti

Assim, quando em sala de aula esse professor encontrar dificuldades, ele saberá buscar outros meios de ensinar. Essa capacidade de encontrar soluções, ser criativo e estar em constante aprendizagem é, inclusive, desejável não somente para os professores em formação, mas para os alunos.

“É urgente fazer com o que os docentes compreendam que não há dificuldade de aprendizagem dos alunos, mas de ‘ensinagem’ dos professores”, reforça José Pacheco.

Diálogo com os sujeitos e território

Lúcia Helena Alvarez Leite, docente e integrante do grupo Territórios, Educação Integral e Cidadania (TEIA) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FAE/UFMG), avalia que o primeiro passo para a formação de professores se tornar mais significativa é aproximar os docentes das escolas brasileiras.

É nesse contato com as escolas que os educadores em formação poderão compreender as diversas realidades que convivem em uma mesma sala de aula. Além disso, é no chão de escola que terão consciência da importância que as tecnologias digitais têm para os jovens, por exemplo, e das dificuldades próprias desse ambiente.

“Da mesma maneira que a escola tem que se abrir para o bairro, a universidade tem que se abrir para as realidades do País, para conhecer quem são os nossos alunos”, diz Lúcia, apontando ainda para a necessidade dos professores lerem o mundo criticamente, entendendo as visões de mundo que os alunos têm a partir de seus contextos de vida.

“A educação para uma criança indígena não é a mesma para outra que vive em ambiente urbano ou na periferia. E assim como a presença, a ausência desses sujeitos na escola também precisa ser pensada”, afirma. Por isso, a especialista defende que a formação de professores seja feita por meio da experiência, de oficinas, saídas e trocas com as escolas, e conversas com os egressos.

Sala de aula, com alunos sentados em carteiras, e professora dando aula

É indispensável aproximar os professores em formação da realidade das escolas onde irão atuar.

Crédito: Hedeson Alves/ ANPr

Formação inicial

Encarar a realidade brasileira também significa olhar para o expressivo número de professores sem formação adequada, ainda que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e o Plano Nacional de Educação (PNE) prevejam que todos os docentes tenham formação específica de nível superior, obtida em curso de Licenciatura na área em que atuam.

Dos quase 2,2 milhões de professores da Educação Básica do País, mais de 480 mil só possuem Ensino Médio. Outros 6 mil, apenas o Ensino Fundamental. Cerca de 95 mil têm formação superior, mas sem cursos de Licenciatura. Os dados são do Censo da Educação, divulgado em 2016.

“Um professor precisa conhecer o currículo da Educação Básica, ter formação cultural, e saber criar ambientes de aprendizagem, porque ele é a base de tudo. A ausência de formação inicial, ou quando ela é feita de forma precária, faz com que a formação continuada seja um supletivo, gastando duplamente o esforço da educação”, diz Bernadete, afirmando que é preciso uma ação incisiva do Governo Federal no sentido de reverter o quadro.

Em outubro de 2017, o Ministério da Educação (MEC) anunciou a nova Política Nacional de Formação de Professores, que contém medidas como a criação de uma Base Nacional Docente, a ampliação do ProUni, do ensino a distância, e o Programa de Residência Pedagógica.

No entanto, a política enfrenta resistência de especialistas e entidades educacionais. Dentre as críticas, menciona-se que o documento responsabiliza unicamente o professor pelo desempenho dos alunos, e desconsidera a falta de investimento, as condições precárias de trabalho e a baixa remuneração dos educadores.

Condições de trabalho

A formação de professores não é a única responsável pela qualidade da educação. As condições de trabalho também interferem diretamente. Uma pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) aponta que 71% dos 762 profissionais de educação da rede pública, entrevistados em 2017, ficaram afastados da sala de aula por problemas psicológicos e psiquiátricos nos últimos cinco anos.

Só nas escolas estaduais de São Paulo o número de professores afastados por transtornos mentais ou comportamentais quase dobrou de 2015 para o ano seguinte: foi de 25.849 para 50.046.

“Há um forte discurso de valorização da educação, em que não se valoriza o professor”, explica Lúcia Alvarez, citando as formas de contratação dos docentes como exemplo, que por vezes têm contratos temporários e jornadas incompletas.

“Muitos professores chegam a três turnos de trabalho para sustentar a família. Como pensar em formação continuada? Há um discurso de que professor não inova, mas muitas vezes são as condições de trabalho que não permitem concretizar essas ideias”, diz a professora da UFMG.

“O professor que está na rede é um herói, tamanho os obstáculos que ele tem que superar. E eles querem demais ser professor. Então vamos de encontro ao desejo dele, dar uma boa formação docente e as condições de trabalho”, defende Bernadete.

“Estamos sendo convidados a mudar o nosso próprio caminho. E a escola tem que acompanhar, porque ela é um elemento estratégico na construção e manutenção de uma cultura”, finaliza Cláudia.

Universidades, redes e escolas são essenciais para qualificar formação docente