publicado dia 16/11/2016

“Estamos lutando para que todos possam ter uma educação pública de qualidade”

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“Estamos lutando para que todos possam estudar”. A frase resumiu a participação dos secundaristas Ana Julia Ribeiro, Jordan Campos da Costa, Lidiane de Paula Ferreira e Lucas Eduardo no Seminário Internacional Desafios Curriculares do Ensino Médio realizado pelo Instituto Unibanco e  Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) na última semana, em São Paulo.

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Convidados para compor a mesa “Do ensino médio que temos ao ensino médio que queremos”, que contou com a mediação de Djamila Ribeiro,  secretária-adjunta de Direitos Humanos de São Paulo, os estudantes elencaram alguns aspectos que gostariam de modificar em suas escolas.

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A estudante Ana Julia compôs a mesa “do ensino médio que temos ao ensino médio que queremos”.

Crédito: Divulgação

A voz estudantil

O desejo de serem ouvidos ecoou em todas as vozes. Jordan criticou o modelo curricular existente,  a seu ver, “desconexo com a realidade dos estudantes”, opinião partilhada por Lidiane. “Temos muitos conteúdos e pouco aprofundamento, estamos lá para decorar e sair bem nas provas”, colocou a jovem que também questionou o fato do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ser o grande norteador da etapa.

Ana Julia reforçou a necessidade do ensino dialogar com as necessidades dos estudantes e prepará-los para a vida. “Temos que ver na escola um lugar de conforto, de debate para que possamos aprender e nos sentir mais preparados”, apontou.

A participação ativa na vida escolar também esteve entre as pautas dos adolescentes. Além de pedirem participação nas decisões, na maioria das vezes circunscritas aos gestores escolares, os participantes reivindicaram a existência de espaços democráticos de fato. Lidiane apontou que em muitas escolas existem falsos grêmios estudantis, instâncias burocráticas e que não cumprem com a representatividade esperada. “Temos condições de decidir com o mesmo peso de voto o que é melhor para nossas escolas”, pontuou a jovem.

Os jovens também citaram a falta de estrutura geral das unidades escolares, enumerando laboratórios sucateados, problemas de infiltração, falta de material pedagógico e superlotação das salas de aula e reivindicaram a valorização dos docentes por meio da melhora nas condições de trabalho como, por exemplo, mais tempo para planejamento de aulas. “Isso certamente melhoraria a relação professor-aluno. Não somos inimigos”, reforçou Lidiane.

Ocupações e críticas ao governo

Os jovens foram unânimes em dizer que as ocupações foram a maneira encontrada de protestarem e serem ouvidos. “Quando você ocupa a escola, você incomoda, só assim conseguimos visibilidade”, colocou Ana Julia ao reafirmar que a luta é por uma educação pública de qualidade.

Mais de mil escolas ocupadas
As reivindicações contra a reforma do ensino médio e contra a PEC 241 (atual PEC 55 no Senado) levaram os estudantes a ocupar mais de mil escolas em todo o país.

Os estudantes voltaram a questionar a reforma do ensino médio proposta pela Medida Provisória (MP) 746 e a PEC 55 que deve diminuir os gastos com saúde e educação. “Não reconhecemos a MP como uma medida que vai suprir as nossas necessidades”, sentenciou Ana Júlia.

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Lucas também questionou os impactos no orçamento da educação. “Como é possível desenvolver um país sem os recursos adequados? Pra mim isso vai precarizar ainda mais a situação dos mais pobres”, refletiu.

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Questionados sobre a legitimidade das ocupações, e se elas não iam na contramão dos direitos dos que querem estudar, os estudantes falaram sobre o caráter democrático do movimento. “Realizamos assembleias em todas as escolas e os estudantes têm direito ao sim e ao não. Aderimos pelo que a maioria escolhe. E não estamos impedindo ninguém, estamos lutando para que todos possam ter uma educação pública de qualidade”, reforçou Ana Julia.

A barricada contra os violões

Um grupo de cerca de 50 estudantes secundaristas chegou a ocupar a frente do Instituto Tomie Ohtake que sediou o Seminário Internacional Desafios Curriculares do Ensino Médio nos dias 9 e 10 de novembro. Os jovens questionavam a agenda do evento, marcada pela presença de fundações e institutos privados e pediam mais diálogo.

Secundaristas ocupam entrada do Thomie Othake em São Paulo.

Secundaristas ocupam entrada do Thomie Ohtake em São Paulo.

Crédito: Ana Luiza Basilio

O Centro de Referências em Educação Integral conversou com a estudante Sarah Jeniffer. “Os mais interessados em discutir educação são os secundaristas, não é com gente grande que eles têm que discutir”, colocou. O vídeo completo do depoimento pode ser conferido na página do Centro de Referências em Educação Integral no Facebook.

Na ocasião, o Instituto Unibanco direcionou representantes e palestrantes para conversarem com os estudantes no saguão do prédio e também se posicionou por meio de nota:

O Instituto Unibanco esclarece que dialogou com o grupo de estudantes que se manifestaram do lado de fora do evento, por meio de seus representantes e palestrantes do seminário. O evento não foi interrompido e os jovens  deixaram espontaneamente o local. O Instituto reafirma que respeita todo tipo de manifestação e está sempre aberto ao diálogo. Reitera, ainda, que atua em parceria com as secretarias estaduais de educação com o intuito de contribuir com a melhoria da qualidade do Ensino Médio público e para que os jovens tenham garantido seu direito à aprendizagem. O Seminário Internacional Desafios Curriculares do Ensino Médio, realizado em São Paulo, nos dias 9 e 10 de novembro, é mais um passo neste sentido, trazendo experiências internacionais ao país e o estímulo ao debate de ideias e caminhos possíveis no campo da educação pública, em direção da construção de uma escola que faça sentido para os jovens.

No segundo dia, a manifestação dos estudantes foi impedida no saguão do prédio pela instalação de barricadas na entrada principal. Também por meio de nota, o Instituto Unibanco informou que a medida foi de inteira responsabilidade da administração do condomínio e que dialogou para garantir a retirada das barreiras e garantir o livre acesso ao prédio, o que não aconteceu até o término do evento. Os estudantes se organizaram em roda na parte exterior do prédio com faixas e violões.

Administração predial do Tomie Ohtake impede acesso de estudantes com barricada.

Administração predial do Tomie Ohtake impede acesso de estudantes com barricada.

Crédito: Ana Luiza Basilio

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