publicado dia 10/06/2015

Especialistas debatem como transformar a educação integral em práticas cotidianas

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Formação de professores, novas linguagens pedagógicas, oportunidades educativas em diálogo com o território e processos de avaliação que observem o desenvolvimento integral dos estudantes. Potencialidades e desafios que se apresentam cotidianamente às escolas e secretarias que observam a Educação Integral como um direito de todos os estudantes. “Quando passamos a olhar para essa integração entre escolas e cidades, somos convidados a repensar as duas estruturas. Precisamos que nossas escolas se abram aos territórios e que nossas comunidades se reorganizem para receber e apoiar os estudantes em seus processos de desenvolvimento”, justifica Natacha Costa, diretora da Associação Cidade Escola Aprendiz, no Seminário Internacional de Educação Integral: Práticas para uma Cidade Educadora, que acontece hoje e amanhã (11/6) na capital fluminense.

Para Anna Penido, as parcerias e conexões estabelecidas nos territórios beneficiam todos os envolvidos e potencializam as possibilidades da ampliação da jornada escolar. Entre os exemplos, ela cita a experiência Merenda com o Chef, em que colégios do Bairro-escola Rio Vermelho, iniciativa que reúne escolas e comunidade em Salvador (BA) se integraram aos chefs e restaurantes locais para apoiar as merendeiras na qualificação das refeições e na oferta de atividades com os estudantes. “Precisamos encontrar na escola e no território novos caminhos para apoiar cada estudante na sua aprendizagem, garantindo um caminho personalizado e que observe seu desenvolvimento integral”, justifica.

Nessa perspectiva, buscando organizar e otimizar as relações entre as unidades educativas formais e não formais, o distrito de Ciutat Vella, em Barcelona, na Espanha, investiu na concepção e organização de um Plano Educativo Local, capitaneado por um consórcio que articula as diversas instituições. “Somos um distrito que compreende seis bairros e mais de 100 nacionalidades e origens étnicas, reunindo inúmeras diversidades: econômicas, sociais, culturais. O plano foi o caminho de darmos atenção a essa pluralidade, respeitando o contexto individual de cada instituição e objetivando que todos pudessem se desenvolver individual e coletivamente”, apresenta Julia Quintela, da equipe de Direção de Serviços às Pessoas e ao Território do Distrito de Ciutat Vella, nas áreas de Educação, Infância e Juventude.

Helena Singer e Julia Quintela: como pensar uma educação que contemple a diversidade do território?

Helena Singer e Julia Quintela: como pensar uma educação que contemple a diversidade do território?

Para a especialista, os desafios brasileiros são muito semelhantes aos encontrados na Espanha e na Europa como um todo. Altos índices de evasão no equivalente ao 2º ciclo do ensino fundamental e ensino médio, distanciamento entre o currículo e os desejos de aprendizagem dos estudantes e resistência de parte da comunidade escolar às estruturas e práticas pedagógicas. “Os desafios estão sendo vencidos aos poucos, na construção de entendimentos coletivos, no compartilhamento das dúvidas e caminhos. É um processo necessariamente dialógico, que se apoia no resultado das ações. Ao passo que avançamos, esses caminhos tornam-se referências”, exemplifica. Para tanto, Julia justifica a importância da formação docente e dos educadores envolvidos com a proposta.

Educadores preparados

André Lázaro, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador internacional da sede brasileira da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais insiste na importância da formação docente para a educação integral, apresentando práticas pedagógicas que fortaleçam o papel do professor frente aos desafios apresentados pela sociedade contemporânea. Contudo, o pesquisador pontua que a garantia do direito à educação e o processo de universalização do ensino foi feito a custa de muitos diretos trabalhistas, o que necessariamente convoca o país a valorizar a carreira do profissional da educação.

Nessa perspectiva, Patrícia Mota, gerente de Educação da Fundação Itaú Social, entende que uma das formas de valorizar os professores é garantir o direito que têm à formação continuada e em serviço. Para ela, é preciso ainda pensar em processos formativos para toda a comunidade escolar, apoiando famílias e educadores da comunidade a compartilharem seus saberes com a unidade escolar. “Muitas famílias subestimam o poder de influência que têm sobre o desenvolvimento integral dos jovens”. Esse processo, para os especialistas, deve ser permanentemente acompanhado em diálogo com a avaliação educacional como um todo.

Caminhos a percorrer

O Seminário apresenta o lançamento da plataforma Educação Integral: Na Prática, ferramenta de apoio a gestores e equipes técnicas municipais e estaduais para implementação de políticas de educação integral, reunindo materiais formativos sobre dez dimensões interdependentes, incluindo as de formação continuada, educação no território e avaliação e monitoramento.

Uma escolha para avaliação

Para Daniel Brandão, diretor da Move – Avaliação e Estratégia em Desenvolvimento Social, avaliar é fazer uma escolha política. “Ela em si não serve para nada, está a serviço de um processo de intervenção e é um ato de aprendizagem”, justifica. Contudo, para que ela possa acontecer em um processo de educação integral, ela precisa identificar espaços, conteúdos e tempos que correspondam à essa proposta.

O especialista se apresenta otimista e que, apesar de todas as denúncias e críticas em relação ao processo de avaliação, que muitas vezes imobilizam o avanço na discussão, o Brasil está avançado e vive um momento propício para aprofundar o debate sobre o tema. “A necessidade de entender a importância da avaliação e de implementar processos de avaliação participativos já está superada, mas o desafio está instalado na construção de tecnologias que respondam aos indicadores que já acessamos”, exemplifica.

Da esquerda para direita: André Lázaro, Patrícia Mota, Daniel Brandão, Anna Penido, Sônia Kruppa e Natacha Costa.

Da esquerda para direita: André Lázaro, Patrícia Mota, Daniel Brandão, Anna Penido, Sônia Kruppa e Natacha Costa.

Já a professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), Sônia Kruppa, destaca pontos de atenção para a construção desses indicadores, matrizes e processos avaliativos em curso no país. “Infelizmente essas matrizes têm ditado uniformemente qual o currículo a ser adotado por nossas escolas. E isso se agrava ainda mais quando olhamos para as avaliações externas internacionais, a exemplo do Pisa, que desterritorializou o mundo: pode ser chinês, brasileiro ou africano – todos vão passar pela mesma régua, o que normaliza e induz o sistema”, preocupa-se.

Para Lázaro, é preciso avançar no apoio à educação integral como um todo, na continuidade da proposta, para além de uma política indutora. “O Mais Educação é um grande programa, apresentando essa agenda à sociedade. Contudo, ainda temos grandes desafios para efetivamente construir essa política em nossas cidades e estados: precisamos avançar na intersetorialidade, na remuneração adequada e valorização dos profissionais e nas normatizações que regulamentem a interlocução do poder público e sociedade civil”.

Colaborou Roberta Tasselli, do Portal Aprendiz

Práticas pedagógicas para a Educação Integral