publicado dia 24/09/2014

Ensino Médio: desafios e oportunidades da educação inclusiva

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A vida de Renata Basso, 18 anos, difere da grande maioria das crianças e adolescentes com deficiência. A jovem com Síndrome de Down cursa o ensino regular na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, no Colégio Coronel Pilar. Mas, essa não é a realidade de 140 mil indivíduos que estão fora da escola devido à deficiência, transtornos de desenvolvimento, autismo e superdotação, como indica a base de dados dos que recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

O percurso escolar de Renata, que demanda esforços da família, equipe escolar e atendimento educacional especializado, é retratado no documentário “Outro Olhar”, uma iniciativa do Instituto Rodrigo Mendes, com apoio do Instituto Unibanco, Instituto Alana e Itaú BBA, e produção de Maria Farinha Filmes.  Seu lançamento, na última terça (23/09), em São Paulo, foi o ponto de partida para que os convidados discutissem o Ensino Médio, seus desafios e oportunidades para a educação inclusiva.

Mudança de perspectiva

Da esquerda para direita: Rodrigo Mendes, Liliane Garcez e Ricardo Henriques.

Da esquerda para direita: Rodrigo Mendes, Liliane Garcez e Ricardo Henriques.

Para os especialistas, é fundamental que as experiências de educação inclusiva saiam do campo do extraordinário para o ordinário. Essa passagem pede, necessariamente, a eliminação de algumas dicotomias presentes na sociedade, como observa a assessora especial da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, Liliane Garcez. “Lidamos com a inclusão a partir de duas principais ideias: de ‘trazer para dentro quem está fora’ ou de adotar uma educação específica para as pessoas com deficiência”. Para ela, essas questões devem ser substituídas por um repensar das escolas, de modo que elas se efetivem como locus orientador de políticas públicas.

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Um dos caminhos, segundo a especialista, é traçar um plano político pedagógico que se afaste do assistencialismo camuflado e procure estabelecer diálogo com os atores envolvidos durante o processo. A opinião também é defendida pelo superintendente executivo do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, que problematiza a visão conteudista e enciclopédica das escolas, pouco indutora de espaços de encantamento e de projetos de vida dos estudantes.

Essa configuração, na opinião dos convidados, em muito se ancora na formação inicial e continuada dos professores, aproximada de uma visão teórica que não considera os conhecimentos cognitivos e socioemocionais. “A fragmentação é tanta que parece que formamos os professores para escolas e alunos inexistentes”, considera Liliane, reiterando a importância do docente se aproximar de seu objeto de estudo para então efetivar seu planejamento. Ricardo Henriques acredita que também predomina uma visão de ensino a partir de escolas e alunos ideais, “estigmas que se configuram como a máxima da intolerância, por não considerarem a diversidade”, avalia.

Esforço intersetorial

A gestão escolar também foi discutida pelo entendimento de que ela deveria permitir processos mais transformadores entre seus agentes. A defesa é que a escola faça parte de um arranjo educativo local pautado sobre o território em que está inserida. A política educacional deve trazer para si as discussões sobre currículo, formação de professores, orçamento e financiamento, e se construir em um plano intersetorial prevendo o desenvolvimento integral dos indivíduos com ou sem deficiência.

“Hoje, depositamos sobre a inclusão uma visão de segunda categoria a partir da percepção de que a pessoa com deficiência precisa só de tratamento. Isso definitivamente não dialoga com a educação emancipatória e participativa que devemos garantir a esses indivíduos. Precisamos de esforços igualitários nos campos da assistência social, cultura, esportes, saúde, para o atendimento de todos”, conclui Liliane Garcez.

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