publicado dia 30/08/2018

Educadores discutem implementação da BNCC à luz da educação integral no 4º SIEI

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Como garantir o desenvolvimento integral do estudante e o direto à aprendizagem com uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC) orientada por uma visão fragmentada do conhecimento?

Foi esta a grande questão que norteou o debate “BNCC e educação integral: possibilidades e contradições”, parte da programação do 4º Seminário Internacional de Educação Integral (SIEI), que ocorreu entre o dia 28 e 29 de agosto, no Sesc 24 de maio, com o tema “A escola e a vida lá fora: (re)conhecer para transformar”.

O painel, moderado por Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare, abordou os caminhos e obstáculos para a implementação do documento que, se na introdução trouxe uma visão alinhada aos princípios da educação integral, no restante vê prevalecer uma noção desagregada dos componentes curriculares.

4º SIEI

Gestores e especialistas discutem BNCC e currículo no 4º SIEI

Crédito: Centro de Referências

BNCC como oportunidade

Para Natacha Costa, diretora geral da Associação Cidade Escola Aprendiz, é preciso ver a BNCC como uma oportunidade de fazer debate curricular. “Mas para isso é preciso superar a ideia de que estamos na escola para receber instrução. Estamos neste espaço para desenvolver competências”, pontuou.

Na Prática, projeto do Centro de Referências em Educação Integral, mostra caminhos para implementar a educação integral nas escolas. Para isso, traz diversas referências sobre currículo e um guia de implementação e construção coletiva da matriz curricular da rede.

Em sua apresentação, Natacha delineou o fio lógico para o processo de implementação, sugerido pela ferramenta Na Prática, desenvolvida pelo Centro de Referências em Educação Integral.

A metodologia indica que a BNCC oriente, em um primeiro momento, as diretrizes das redes, posteriormente, o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola e, finalmente, dialogue com as práticas pedagógicas. Isto tudo considerando os sujeitos reais que habitam a escola e o território no qual está inserida.

“Precisamos também parar de falar das escolas e redes como lugares áridos, onde nada acontece. Muita coisa boa já está acontecendo. Falta reconhecer e construir um conhecimento compartilhado sobre essas iniciativas”, apontou Natacha.

Novo currículo paulistano

Wagner Palanch, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, compartilhou a experiência de atualização curricular feita na rede paulistana a partir da Base. “Foi um longo percurso que se iniciou com o Ensino Fundamental e por meio da escuta dos alunos. Mais de 43 mil estudantes nos contaram o que, no entendimento deles, a escola deveria oportunizar. A partir desta escuta e do documento, criamos nossa matriz de referência.”

Batizada de Matriz de Saberes, a proposta curricular tem como objetivo formar cidadãos éticos, responsáveis e solidários que fortaleçam uma sociedade mais inclusiva, democrática, próspera e sustentável. “Mais do que dizer o que ensinar, ela diz de como e para que ensinar”, explica Wagner.

matriz de saberes da rede municipal de são paulo

Outro arrojo da Secretaria Municipal de São Paulo foi a articulação do novo currículo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. A agenda foi traduzida para o âmbito escolar ao colocar os ODS como temas inspiradores para a prática pedagógica.

“O ODS 6, por exemplo, que diz sobre acesso à água potável e saneamento, a depender do território pode ser olhado e trabalho de um jeito. Isto é um ambiente de aprendizagem contextualizado. A Base traz 10 competências gerais, mas cada território deve pensar nas suas especificidades e nas competências que estas exigem”, diz Wagner.

Outras experiências

Localizada em um bairro com alta vulnerabilidade social, a Escola Municipal Sérgio Alfredo Pessoa Figueiredo, em Manaus (AM), passou a trabalhar a concepção de educação integral a partir de 2017. Para isso, a instituição que atende 190 alunos da Educação Infantil ao Ensino Fundamental I passou por um profundo processo de reestruturação.

“Temos 9 ateliês de aprendizagens estruturados de acordo com os componentes curriculares. Cada professor/mediador possui um ateliê de acordo com suas habilidades. Não há salas de aula, o que há é um cronograma de estudo a partir do qual os alunos fazem um percurso dentro da escola”, conta Regeane Chaves, diretora da escola.

Confira o especial Educação Integral & BNCC, elaborado pelo Centro de Referências em Educação Integral. A plataforma reúne um apanhado de conteúdos que interpretam criticamente a elaboração e implementação da BNCC.

Os ateliês têm nomes de animais em risco de extinção e as turmas nomes de tribos localizadas na região amazônica: baniwa, kuripako, tikuna, barés, munduruku, cocamas, tucano, mura, maués. “É importante dizer também que primeiro ouvimos os alunos e depois é que fizemos o link com as competências gerais da Base.”

A importância da territorialidade também permeou a fala de David Moura, diretor Ciep Antônio Candeia Filho, localizado no bairro Acari da cidade do Rio de Janeiro, região com o IDS (Índice de Desenvolvimento Social) mais baixo do município. “Não adianta falar da matemática, dos fonemas que envolvem a alfabetização, sem a criança saber onde está, que bairro é aquele que ela habita.”

A instituição que atende 768 alunos construiu seu PPP visando apresentar para as crianças de Acari o bairro e sua história, permitindo que os alunos conheçam e aprendam através dele. “Não estamos na escola para nos adequar à BNCC, é a BNCC que está dentro do nosso trabalho”, diz David.

Atualmente em processo de revisão curricular com a assessoria da equipe técnica do Na Prática, Cristiana Berthoud, secretária de Educação de Tremembé (SP), destacou as mudanças de paradigma exigidas pela BNCC. “Como toda mudança, a implementação da Base é processual e repleta de desafios que vão para além do novo currículo.”

“Se as mudanças não forem feitas considerando os componentes de transformação necessários, apenas teremos um novo currículo”, Cristiana Berthoud, secretária de Tremembé (SP)

Entre os desafios de Tremembé, estava a ansiedade de querer fazer a revisão curricular muito rapidamente. “Fizemos reuniões e conversamos com todos os gestores sobre isso. O recado que passamos é simples: vamos acabar quando nós acabarmos. Também criamos o que chamamos de “zona de conforto”, grupos de estudo rodas de conversa para troca e sensibilização da comunidade escolar sobre estas questões.”

Outro ponto considerado foi o fato de cerca de 60% dos professores da rede de Tremembé não serem moradores do município, o que alertou para a necessidade de mostrar para os próprios professores os potenciais e desafios do território.

“Fizemos saídas pelos bairros para que eles pudessem estudar o território mesmo”, conta a secretária. “As possibilidades são muitas, porém, se as mudanças não forem feitas considerando os componentes de transformação necessários, apenas teremos um novo currículo e perderemos uma grande oportunidade de melhorar a educação”, finalizou Cristiana.

 

 

Educação integral e a implementação da BNCC