publicado dia 13/02/2015

“É um erro não usar erros como parte do processo de aprendizagem”

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Texto de Richard Curwin, especialista em motivação e problemas de disciplina, publicado originalmente no portal Edutopia e traduzido pelo Centro de Referências em Educação Integral.

Recentemente, eu vi uma palestra com Brian Goldman, um médico que admite ter cometido erros. Em uma linguagem muito emocional, ele descreve alguns erros significativos em prontos-socorros e, então, defende fortemente que haja uma mudança na maneira que a profissão médica responde a tais coisas. Ele acredita que a medicina irá melhorar se médicos forem livres para debater seus erros, sem julgamento, permitindo que eles aprendam uns com os outros. Mas, ele continuou explicando que como médicos são julgados por seus erros, eles são temerosos demais para discuti-los. No lugar disso, as falhas geralmente são encobertas, atribuídas a outros ou ignoradas.

Escutar essa palestra criou em mim uma grande necessidade de examinar muitos erros que eu cometi em minha vida. Eu descobri que meus erros se dividem em quatro categorias:

1. Aqueles que eu escondi;
2. Aqueles com os quais eu não aprendi nada;
3. Aqueles com os quais eu aprendi;
4. Aqueles com os quais eu aprendi e dividi meu novo conhecimento com outros.

São essas duas últimas categorias que eu penso que possuem grande potencial para aumentar o aprendizado e o ensino.

Encontrar valor no erro

Professores, assim como médicos, são tidos como livres de erros. Administradores, pais ou até outros docentes julgam eles muito negativamente quando cometem erros. No entanto, quando um professor mantém uma forte relação com outro colega, eles compartilham seus problemas livremente, pedem e dão conselhos, e aprendem uns com os outros. Isso também acontece em escolas onde professores mentores compartilham ideias com novos professores.

O que aconteceria se estas duplas se expandissem para incluir um pequeno grupo de professores, mais os administradores, conselheiros ou até departamentos inteiros ou mesmo todo o corpo docente? Eu sei que algumas escolas criaram a confiança necessária para tais debates. Eu penso que isso poderia crescer para incluir um número maior de escolas, talvez até se tornar um procedimento regular para todos os docentes. O que você pensaria desta ideia? Ela é factível? Vale a pena? É útil?

Um importante efeito colateral de discutir erros pode ser mudar a percepção sobre eles, não apenas para professores, mas para estudantes também. Quando professores aprendem de seus erros, eles podem se tornar mais dispostos a deixar os estudantes a aprenderem com os deles.

Mudar a percepção sobre os erros dos estudantes é a segunda melhor maneira sobre como erros podem melhorar a aprendizagem. Na vasta maioria das salas de aulas, erros são avaliados como desempenho fraco. Notas são rebaixadas devido a erros. Estudantes são encorajados, formal e informalmente, a não cometerem erros.

Este sistema de crença é um absurdo. Quando eu pensei nos erros que cometi ao longo dos anos, percebi que quanto maior erro, maior tinha sido a aprendizagem. Eu aprendi a partir do meu sucesso também, mas nem de perto tanto. Eu imagino que cada leitor deste texto aprendeu e ainda aprende de erros.

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9 maneiras de ensinar com erros

O problema para os estudantes não é que eles cometem erros. O problema real é que professores não usam estes erros para permitir e promover a aprendizagem. Como a vergonha está comumente associada ao erro, estudantes têm medo de arriscar, explorar e pensar por si próprios. Como um claro exemplo do quão danosa essa visão pode ser, olhe para a composição das turmas dos mais talentosos e dotados [prática bastante comum no sistema norte-americano de ensino e em algumas escolas brasileiras].

Em muitas escolas, os estudantes destas salas não são os que assumem riscos de maneira criativa ou os pensadores únicos. Eles são estudantes que conseguiram altas notas em testes padronizados. Portanto, nós chamamos de talentosos ou dotados os estudantes que cometem menos erros. Eu acredito que é um erro pensar em erros como algo ruim. Quando erros se tornam oportunidades de aprendizado, tudo muda. Estudantes se arriscam mais, pensam em novos caminhos, trapaceiam menos e resolvem mistérios que antes não conseguiam.

Assim, aqui estão algumas coisas que podemos fazer na sala de aula para mudar esta forma de pensar negativa, incluindo tanto processos formais quanto informais de avaliação:

1. Pare de marcar erros em provas e trabalhos sem explicar porque eles estão errados. Dê explicações suficientes para ajudar o estudante a entender o que aconteceu de errado e como consertá-lo. Um grande x vermelho é insuficiente.

2. Dê uma chance aos estudantes para corrigir seus erros e refazer o trabalho. Isso permite que erros se tornem oportunidades de aprendizado.

3. Melhorias e avanços devem se tornar fatores significativos no processo de avaliação. Quanto mais um estudante melhorar, maior sua nota. Nada mostra melhor a aprendizagem por erros do que o avanço.

4. Quando um estudante cometer um erro em uma discussão na classe, não diga coisas como “Errado, alguém pode ajuda-lo?”; não apenas chame outro aluno sem fazer nenhum comentário a mais. Ao invés disso, pergunte para o aluno “Por que você acha isso? Você pode dar um exemplo? Se você pudesse se perguntar uma questão sobre sua resposta, qual seria?”.

5. Minha amiga e colega, Madeline Hunter, sugere começar pelo o que está correto. Se um professor pergunta “quem foi o primeiro presidente dos Estados Unidos?” e um estudante responde “Barack Obama”, ao invés de dizer “você está errado”, tente dizer: “Barack Obama é um presidente, você está certo nisso. No entanto, ele não foi o primeiro. Vamos voltar na história”. Até questões tolas podem ser respondidas dessa maneira.

6. Se um estudante precisar de ajuda com a sua resposta, deixe que ele escolha um colega para ajudar. Chame este ajudante de algo como “consultor pessoal”.

7. Ao invés de – ou, ao menos, em complemento a – paredes cheias com as conquistas dos alunos, tenha um painel no qual os estudantes possam vangloriar-se de seus maiores erros e do que eles aprenderam.

8. Faça reuniões a cada duas semanas onde estudantes compartilhem um erro que cometeram, o que aconteceu depois e o que eles aprenderam.

9. Conte à turma sobre seus próprios erros, especialmente se eles são engraçados, e o que você aprendeu com eles.

Eu adoraria ver uma placa na entrada de cada escola que diga: “Todo mundo que entra aqui, irá aprender”. Aprender significa não ter medo de examinar erros que professores cometem e encorajar estudantes a pensar de maneira que possam produzir erros. Use todos estes erros para aprender deles, para melhorar e para se sentir bem sobre o progresso individual.

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