publicado dia 22/09/2017

“Depois de colocar no aluno o selo ‘problema’, é muito difícil ele se enxergar de outra forma”

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Toda escola tem ao menos um aluno que arruma briga e atrapalha as aulas. Vira costume colocar para fora da sala, levar para a diretoria, chamar os responsáveis e aplicar uma suspensão. Percebendo quão pífios eram os resultados dessas ações, o Colégio Professor José de Souza Marques, na zona norte do Rio de Janeiro, decidiu experimentar uma nova abordagem.

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“Sob a minha direção, tento fazer com que estes alunos percebam que podem ter visibilidade sem necessariamente transgredir pelo lado negativo”, conta o diretor

Em 2015, André Luis Barroso assumiu a direção da escola e se deparou com vários alunos com questões de indisciplina no 1º ano do Ensino Médio. Após meses de reflexão do que fazer, decidiu reuni-los em um mesmo time de futebol para disputar, poucos dias depois, um campeonato contra outra escola.

Perderam. E o intuito não era outro. Ao final da partida, conversou com os meninos frustrados sobre a importância da união, do preparo e da dedicação, e que sem isso pouco se alcançava.

A partir deste momento, André abriu um canal de comunicação com estes jovens. Formaram um time, jogaram e aprenderam juntos. A experiência do diretor foi retratada no documentário Nunca me sonharam, de Cacau Rhoden, que estreou em 2017.

O esporte como caminho

André Luis Barroso, diretor do Colégio Professor José de Souza Marques, no Rio de Janeiro

Crédito: Acervo pessoal

“Uma vez, um aluno levou um tiro porque estava assaltando um carro, quase morreu. Quando voltou para a escola, virou um mito, todo mundo queria ouvir a história. Sob a minha direção, tento fazer com que estes alunos percebam que podem ter essa visibilidade sem necessariamente transgredir pelo lado negativo”, diz André, sintetizando sua forma de agir.

A ideia de recorrer ao futebol veio da experiência própria. Quando aluno, ele, que é filho de um cozinheiro e uma dona de casa, também teve dificuldades na escola e conta que “não era o aluno exemplar”. Depois de envolver-se com esportes, a situação mudou. Hoje, não só dirige uma escola como tem doutorado e especialização.

O esporte mudou a minha visão de escola, meu senso de responsabilidade. Passei a sentir que eu era importante, e tudo o que o aluno quer é ser notado, só que às vezes ele nunca teve a experiência de ganhar visibilidade por fazer a coisa certa. Mas deu certo comigo, pensei que poderia dar com eles também. E deu.”, comemora.

Gestão democrática

A partir desta experiência, o diretor do colégio, que atende 907 jovens de Ensino Médio majoritariamente oriundos de comunidades, tomou algumas medidas para mudar o funcionamento da escola.

Primeiro, democratizou a direção, que agora é composta por ele e mais duas coordenadoras pedagógicas, duas diretoras-adjuntas, duas articuladoras e um agente de leitura.

Tudo o que eles decidem é, ainda, debatido em conjunto também com o grêmio estudantil e os representantes de cada turma. “Todo mês a gente senta e conversa para ouvir as necessidades, o que eles têm para dizer, e decidir onde será investida a pouca verba que temos”, explica.

Sala de informática e biblioteca foram erguidas com recursos da escola e parcerias externas

Crédito: Acervo pessoal

Articulação

Foi por meio da articulação deste grupo que conseguiram construir uma sala de informática e uma biblioteca, com recursos da comunidade escolar e parcerias externas. “Isso não deve, no entanto, substituir o poder público e não ameniza a falta de cuidado do Estado com a educação, mas temos que começar a mostrar que a escola é de responsabilidade da sociedade como um todo”, diz o diretor.

Em seguida, André também passou a ouvir mais os contextos familiares dos alunos e a repassá-los para os professores com um duplo intuito: mostrar que a relação de ensino-aprendizagem vai além da disciplina e para convencê-los de que existem outras formas de ensinar que não só pela aula expositiva.

Para ilustrar a situação, André conta que recentemente uma professora não deixou uma aluna entrar em sala porque ela chegou 15 minutos atrasada.

“Mal sabia ela que a menina tinha ido ao hospital acompanhar a mãe em quimioterapia, porque são só as duas. Nós não temos ideia dos milhões de sonhos, frustrações e problemas que circulam em uma turma”, diz o diretor.

André também pondera que a escola não está preparada para lidar com o que chama de “questões colaterais da Educação” por falta de funcionários, tanto em quantidade quanto em capacitação. “O Estado deveria oferecer um psicólogo para cada escola, porque eu entendo que o professor não pode, além da aula, fazer atendimento psicológico. Mas precisamos adequar essa aula de alguma forma”, avalia.

Engajamento que transforma

Nesta tentativa, André tem convencido cada vez mais professores de que é possível outro tipo de ensino, mais envolvente e integral. Agora, cada ano letivo recebe um tema que é trabalhado ao longo dos quatro bimestres por meio de diferentes atividades.

O tema de 2017 é o respeito à diversidade cultural e religiosa, e permeia todo o projeto político pedagógico da escola. No último bimestre, os alunos fizeram apresentações em sala, cartazes, espetáculos de dança e teatro, e um sarau com participação de um MC da comunidade e a presença de familiares e amigos dos alunos.

“Tudo o que o aluno quer é ser notado, só que às vezes ele nunca teve a experiência de ganhar visibilidade por fazer a coisa certa”

A escola pertence a um território, que é muito maior do que ela, por isso fazemos questão de envolver o entorno nas atividades”, diz.

O tema do próximo bimestre gira em torno da Semana de Consciência Negra, marcado pelo dia 20 de novembro, semana em que terão oficinas, palestras, debates e atividades artísticas e culturais em todos os horários no lugar das aulas expositivas.

Organizar essas várias atividades para além da sala de aula, ao longo do ano todo, tem feito com que os alunos gostem mais da escola e queiram se envolver mais, conta o diretor, que também tem recebido, cada vez mais, apoio dos professores.

Resultados

Um dos indicadores dessa mudança foi a queda na taxa de reprovação, que passou de 40% para 25%. “Esse modelo ainda melhorou o ambiente, aproximou professores e alunos. Não temos mais briga e diminuímos as depredações no prédio”, diz André.

Refletindo sobre todo o processo iniciado em 2015, o diretor conclui: “eu entendo essa tendência de querer uniformizar, porque é mais fácil pegar quem se adequa nesse uniforme e querer excluir quem não e tratá-lo como um problema. Mas depois de colocar esse selo ‘problema’ no aluno, é muito difícil ele se enxergar de outra forma. Então não podemos continuar assim. Se a escola abandonar esse jovem, ele também vai abandonar seus sonhos”.

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