publicado dia 06/11/2014

“Aqueles que constroem justiça moral, cognitiva e afetiva são os próprios que padeceram delas”, afirma educador

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“A educação não deve preceder os outros direitos, nem determina a garantia deles. Ou o direito à educação aparece integrado aos demais, ou perde o sentido. Não seria essa a espinha dorsal da educação integral?” O convite à reflexão feito pelo professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Miguel Arroyo, deu o tom das mesas de abertura do I Seminário Internacional de Educação Integral, iniciativa realizada pelo Territórios, Educação Integral e Cidadania (Teia) da UFMG, em Belo Horizonte.

Lucinha Alvarez (UFMG), Miguel Arroyo (UFMG), Jaqueline Moll (UFRGS), Jaume Bonafe (Valencia) presentes na mesa de abertura. Foto: Ana Basílio

Lucinha Alvarez (UFMG), Miguel Arroyo (UFMG), Jaqueline Moll (UFRGS), Jaume Bonafe (Valencia) presentes na mesa de abertura. Foto: Ana Basílio

Para Arroyo, o principal ponto da educação integral é conceber a existência de outros sujeitos nos processos educativos, como centro das ações pedagógicas. Por isso, entende que as referências para esses percursos devem ser buscadas nos movimentos sociais históricos que, de alguma forma, incidiram sobre suas causas, mesmo não sendo aceitos pelos Estados. O educador citou as lutas do movimento negro, do movimento de educação e cultura popular e das mulheres pobres. “Esses levantes são importantes porque mostram as pessoas se entendendo como sujeitos de direitos, e é isso que não podemos perder de vista”, enfatizou.

Arroyo entende ainda que essas injustiças que sempre permearam a educação também devem estar presentes nos currículos. “A partir do entendimento de que os movimentos sociais não lutam apenas contra injustiças também reafirmam suas resistências, identidades, saberes e culturas”, considerou. Para Arroyo, é preciso encontrar tempo para reconhecer que os que vêm construindo justiça moral, cognitiva e afetiva são os próprios que padeceram delas.

Um (des) legado histórico

“Nesse cenário de competição, as escolas passam a olhar para quem vence, quem atinge resultados, metas”, afirmou Jurjo Santomé Torres, da Universidade de La Coruña. Foto: Ana Basílio

“Nesse cenário de competição, as escolas passam a olhar para quem vence”, afirmou Jurjo Santomé Torres, da Universidade de La Coruña. Foto: Ana Basílio

Segundo o educador Jurjo Santomé Torres, professor da Universidade da Coruña, da Espanha, o atual movimento de renovação pedagógica, que tem como diretrizes a ampliação e qualificação das oportunidades educativas desenhadas a partir de seus sujeitos, ainda esbarra em um formato moldado ao longo da história. Para ele, sobrevivem traços da mesma educação praticada no século XVI em que as igrejas eram as condutoras de um processo doutrinário.

Em sua análise isso se mostra no dia a dia a partir de ambientes autoritários, silenciosos, em que pouco se questiona os ‘livros sagrados’ e tampouco se criam oportunidades para que outros o façam. Torres também criticou o modelo dos estados democráticos, que trouxe para as escolas a missão de construir patriotas nacionalistas com um imaginário comum, a partir de conteúdos selecionados pelo Estado, sem participação das pessoas. “O que se viu foi a formação de identidades colonialistas, classistas, racistas e separatistas”, avaliou.

Ao período se sucedeu a sociedade industrial que trazia a valorização da cidade em detrimento dos espaços rurais, das comunidades, dos vilarejos. “A educação, então, passou a ser um instrumento para convencer as pessoas que lá [no campo] elas não teriam futuro”, discutiu o educador. Segundo Torres, a lógica estabelecida era de que as pessoas precisavam ser disciplinadas, sem atenção ao seu desenvolvimento.

O pesquisador discorreu que, no momento em que se começou a construir a educação democrática na Europa e Espanha, a educação pública era utilizada como discurso político uma vez que, na prática, se configurava como uma instituição para pobres e, a privada, para a classe média. “Era preciso começar a construir a passagem do patriotismo para a cidadania e o conceito de corresponsabilização”, afirmou. Para isso, como reforçou o professor, seria preciso repensar o sentido de educar, já que era regra depositar as situações de insucesso sempre sobre as mesmas pessoas – os pobres.

A lógica do capital

Jurjo julga fundamental a problematização acerca do sistema educativo como instrumento para satisfazer as necessidades da economia, condição identificada a partir da cisão público-privado. Em sua análise, o entendimento de que a educação é negócio forma empresários de si próprios, preparados para se adaptarem ao mercado, e não criar relações de solidariedade ou colaboração.

“Nesse cenário de competição, as escolas passam a olhar para quem vence, quem atinge resultados, metas”, afirmou. Visão que vem associada à cultura do esforço escolar, “contraditória em si mesma porque pressupõe igualdade de oportunidades, o que é totalmente falso”, condenou. Para o educador, o processo educativo justo deve considerar a realidade do aluno, suas condições, modo de vida, sob o risco de apenas reduzir de modo simplista aqueles que fracassam.

Enfrentamentos

Jaqueline Moll, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) reconhece os movimentos de resistência aos caminhos que o capitalismo aponta para a educação e entende que ganham força na medida em que conquistam amparo legal, caso do Plano Nacional de Educação (Lei no 13005). A especialista, que também foi uma das idealizadoras do programa Mais Educação, entende que a iniciativa traz de volta às escolas as manifestações das classes populares capazes de contribuir com o desenvolvimento desses sujeitos, na medida em que a escola se configura como um espaço articulador de uma rede maior.

No entanto, reforça: “é preciso ter clareza, sobretudo, do projeto político de país ao qual estamos vinculados. Para que tiramos as pessoas do mapa da fome? Apenas para que se tornem consumidoras e apoiem a roda do mundo? Esse debate precisa ser feito”, problematizou.

Para ela, é fundamental que se estabeleça um novo arranjo escolar “que seja capaz de olhar para aquilo que sempre foi de um grupo e pensá-lo como propriedade de todos”, enfatizou estendendo a atuação para as cidades, articuladas como territórios que pactuam dessa condição.

O direcionamento é defendido pelo também espanhol Jaume Martinez Bonafe, da Universidade de Valência, também espanhola, que entende que a construção curricular e o conhecimento se dão também nas ruas, nas interações com os espaços de convívio. Para ele, podem ser construídos os mais diversos diálogos em contato com o locus público.

O especialista entende o currículo como um espaço de combate. “Temos que incorporar outras experiências e historias que não estão no currículo formal, mas que nos fazem sujeitos e nos determinam”, reforçou.

O seminário teve início nesta quinta-feira (5/11) e segue até sexta, reunindo mais de 500 pessoas para discutir o cenário da educação integral no país e no mundo.

 

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