publicado dia 23/05/2016

Alimentação escolar é parte do processo de aprendizagem

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É consenso que se alimentar de forma saudável é fundamental para o desenvolvimento integral de todos indivíduos. Segundo informações do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, o Brasil alcançou, nas últimas décadas, importantes mudanças no padrão de consumo alimentar devido à ampliação de políticas sociais nas áreas de saúde, educação, trabalho, emprego e assistência social.

Em um país onde a fome e a desnutrição ainda são graves problemas sociais, ao passo que aumentam os casos de obesidade, o tema da educação alimentar e nutricional é central, e a escola é um agente fundamental nesse sentido. Para a nutricionista Vanessa Manfre, as instituições educacionais são um espaço privilegiado, uma vez que acompanham as diversas fases do desenvolvimento desde a primeira infância, etapa em que começam a se moldar os hábitos alimentares que repercutirão por toda a vida.

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Créditos: Shutterstock

“A escola tem o papel de fornecer a refeição baseada nas recomendações nutricionais de cada criança, considerando o tempo em que elas estão naquele espaço. E também promover ações capazes de introduzir novos alimentos e fazer com que os estudantes conheçam, manipulem e mastiguem novos alimentos”, afirma.

Recomendação diária

Para a recomendação de energia diária, o PNAE utiliza os valores de referência da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), de 2001. De 6 a 10 anos, 1500 kcal diárias; de 11 a 15 anos 2175 kcal e de 16 a 18 anos 2500 kcal.

Segundo a resolução 26 de 17 de junho de 2013, do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação (que dispõe sobre o atendimento da alimentação escolar aos alunos da Educação Básica no âmbito do Programa Nacional de Alimentação Escolar), as unidades escolares que atuam em período integral devem atender, no mínimo, 70% das necessidades nutricionais diárias das crianças e adolescentes, distribuídas em pelo menos três refeições.

O artigo 14 da mesma resolução traz diretrizes de como deve ser planejado o cardápio escolar que, por sua vez, deve considerar a cultura e os hábitos alimentares locais, além da vocação agrícola da região. Vanessa ainda coloca que é fundamental que o nutricionista considere fatores como faixa etária e os horários das refeições para melhor adequar os tipos de alimentos, além de realizar testes de aceitabilidade com os estudantes.

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Crédito: Tabela feita por Vanessa Manfre, com base em dados do FNDE

Em relação aos nutrientes, a profissional coloca que uma alimentação saudável deve ser composta essencialmente por alimentos in natura, como arroz, feijão, frutas, hortaliças, ou minimamente processados, como carnes já cortadas e leite pasteurizado.

A recomendação é que os alimentos industrializados sejam consumidos com menor frequência. “A nossa legislação também discorre sobre isso para as escolas. Os alimentos que contêm calorias vazias, ou seja, que não agregam valor nutricional, devem ser servidos no máximo em duas porções na semana e devem ter, no máximo, 110 calorias”, coloca a nutricionista, alertando também  para a existência de diretrizes sobre o consumo de açúcar, sódio e gordura.

A alimentação como uma extensão da aprendizagem

Os especialistas defendem que as escolas lidem com o momento da alimentação como uma extensão da proposta pedagógica. Para tanto, além de orientação, a formação dos hábitos alimentares saudáveis deve buscar o diálogo com os valores culturais, sociais e afetivos, além dos emocionais e comportamentais a cada proposta de mudança, somando ao desenvolvimento integral dos estudantes.

Vanessa entende que, para tanto, o tema deve estar presente transversalmente no currículo, sendo refletido no momento da alimentação, uma vez que as aprendizagens vão incidir diretamente na escolha dos alunos. “Eles aprendem a ter autonomia, a pensar sobre a importância de variar a composição do prato, a refletir sobre o desperdício dos alimentos”, explica a especialista.

A gente não quer só comida
Na contramão das políticas para garantir acesso à alimentos e a adoção e manutenção de hábitos saudáveis estão os casos de falta de merenda escolar, amplamente denunciados pelos estudantes desde o início do ano.
O tema da merenda está inserido nas pautas de ocupações de escolas em vários estados do país, como Paraná, que teve a primeira unidade escolar ocupada no último dia 18 de maioCeará, em que já são 49 escolas ocupadasRio de Janeiro, em que as ocupações chegam a quase 70 unidades; e em São Paulo em que o movimento dos secundaristas iniciado no fim do ano passado contra a reorganização escolar apoiou o movimento dos estudantes das Escolas Técnicas Estaduais (ETCS); além do prédio administrativo do Centro Paula Souza, e da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), 14 unidades foram ocupadas como forma de reivindicar por alimentação adequada(Continue lendo)

A diretora da divisão de Nutrição Escolar da Coordenadoria de Alimentação Escolar (Codae) da prefeitura de São Paulo, Helena Maria Novaretti, conta que embora as escolas tenham liberdade para definir como vão conduzirem suas experiências, há um trabalho orientado para a autonomia na rede municipal.

“É importante que os estudantes sejam incentivados a fazer escolhas saudáveis e daí a necessidade de um apoio dirigido para que esse processo não se desequilibre no refeitório”, coloca.

A Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Julitta Prado Alves de Lima, de São Paulo, é um exemplo de escola que decidiu repensar o momento da alimentação.

A professora de Educação Infantil, Neiva Melo, conta que havia resistência aos pratos servidos prontos. A alternativa foi iniciar o modelo self service, valorizando a autonomia das crianças, sem deixar de incentivar a escolha delas para que provem comidas ainda desconhecidas.

Outra estratégia para modificar essa relação foi abandonar o uso de pratos de plástico e inserir os de vidro. “Além de serem mais higiênicos e comporem melhor com a apresentação da alimentação, precisamos seguir o que eles têm em casa, não dá pra escola ficar no passado”, reflete a educadora.

Créditos: 9Gawin/Shutterstock

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Na opinião de Vanessa, o uso dos talheres e a manipulação dos utensílios também é parte desse processo de aprendizagem e devem ser indicados de acordo com a fase do desenvolvimento das crianças.

Para os adolescentes, a medida ganha ainda mais significado.”O uso de talheres e pratos e copos de vidro, para eles, é uma questão de reconhecimento, valorização, de acolhimento por parte da escola”, reforça.

O papel educativo das/os merendeiras/os

Outro ator importante na educação alimentar e nutricional dos estudantes são as/os merendeiras/os. Segundo Vanessa, o papel desses profissionais vai para além do preparo.

“Essa pessoa é que pensa o prato e manipula os alimentos; tudo isso pode influenciar na aceitação dos estudantes. Há um poder de influência sobre eles e isso também tem de ser educativo”, atesta.

Helena conta que foi com o objetivo de valorizar as/os merendeiras/os como um dos principais atores no processo de alimentação que a rede desenvolveu, em 2014, o Prêmio Educação Além do Prato, que tinha como objetivo reconhecer a melhoria dos hábitos alimentares dos estudantes a partir da proposição desses profissionais.

As escolas que ficaram em primeiro lugar nas categorias Prato Quente e Prato Frio foram premiadas com a ida ao Encontro Regional da África do Oeste sobre Segurança e Alimentação Escolar, em Senegal (África), onde trocaram experiências com escolas de 28 países.

Mais experiências

Há outras práticas que dialogam com essa perspectiva de entender esses profissionais como agentes educativos e não como auxiliares de serviços gerais. Uma delas leva o nome de “Merenda com o Chef” e é realizada no bairro Rio Vermelho, em Salvador, dentro do programa Bairro-Escola Rio Vermelho, que propõe uma articulação comunitária para promover o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens por meio da ampliação das oportunidades educativas no bairro.

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Chef Ramon Simões e alunos durante Merenda com o chef / Crédito: divulgação

Semanalmente, os estudantes de algumas escolas e merendeiras/os se encontram com um chef local para juntos, fazerem uma releitura da alimentação escolar, prever hábitos mais saudáveis e criar novas receitas.

A Secretaria de Estado da Educação do Paraná também ampliou a atribuição dos funcionários de secretaria, biblioteca, laboratórios, pátios, portões e cozinhas para agente educacional I, pelo programa Minha Escola Tem Ação (Meta), em uma proposta que esses atores atuem junto à comunidade escolar de forma a contribuir na construção de bons hábitos alimentares e ambientais.

Guia alimentar para a população brasileira