Como trabalhar com telenovelas na escola?

Publicado dia 16/04/2015

As telenovelas são, de fato, uma das paixões nacionais. A partir da ficção, essas produções acabam por abordar temáticas das mais variadas que vão dos amores românticos às relações extra-conjugais, da amizade à vingança, do herói ao vilão.

O cenário é, sem dúvida, um convite às críticas. E elas acontecem, ora enaltecendo os pontos positivos, ora os negativos. Há quem aponte os enredos pautados sobre as fraquezas humanas como maléficos, dada a penetração desses produtos midiáticos nos lares brasileiros; no entanto, há os que reconhecem as telenovelas como propulsoras de temas importantes para a sociedade que se viu e se vê representada por meio de questões como emancipação feminina, combate ao racismo, combate à homofobia.

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Influência
Os folhetins, publicações que chegaram ao Brasil no século XIX, influenciaram as telenovelas. Divididos em capítulos, eles eram publicados nos jornais e continham narrativas para aproximar os trabalhadores que chegavam às áreas urbanas.

O fato é que as telenovelas estão aí desde 1950, mesmo ano de lançamento da televisão. E, embora tenham se reformulado com o passar do tempo, nunca perderam espaço na mídia e tampouco na vida das pessoas. E então, a pergunta: como devemos olhar para as telenovelas na escola? Há uma melhor maneira de entendê-las ou mesmo utilizá-las em processos de ensino e aprendizagem? Há potenciais educativos em meio a essas produções?

Para a educadora e pesquisadora do Centro de Estudos de Telenovela da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), Maria Cristina Mungioli, do ponto de vista educacional, as novelas podem suscitar análises diversas entre os professores e seus alunos. Ainda de acordo com a especialista, o vínculo com a ficção, a presença da verossimilhança e da ancoragem no real são alguns dos ganchos para que esses produtos midiáticos sejam avaliados. “É possível problematizar os temas, as falas dos personagens, a forma como eles se expressam”.

Outra questão, para Maria Cristina, é a propensão ao antagonismo, bem recorrente nas tramas. “Geralmente, as novelas colocam mais de um ponto de vista para uma mesma temática, o que contribui para a visualização de tal questão sob outra ótica. Isso amplia a percepção de mundo”, aponta.

Tempos de uma narrativa

Em artigo, a professora Maria Mungioli indica a possibilidade de trabalhar com os estudantes a relação entre espaço-tempo de uma narrativa na novela A Favorita.

No entanto, a análise dessas produções não precisa – e nem deve – se prender somente ao conteúdo. É possível ser interdisciplinar a partir da estrutura de uma telenovela, como   explica a pesquisadora: “é importante relacionar o conteúdo à expressão”, ao que exemplifica: “porque a televisão trabalha de uma maneira fragmentada?” “porque esses produtos são apresentados em blocos?” “porque a presença de propagandas?” “porque as novelas têm formatos diferentes de acordo com os horários?” “com que público elas dialogam?”. Para Cristina, essas são só algumas das questões que podem motivar, em um processo educativo, um debate mais aprofundado acerca dessas produções.

Na visão da educadora, o trabalho realizado com as telenovelas nas escolas ainda tem caráter utilitário. “Há pouco debate e as atividades acabam se tornando mecânicas”. Maria Cristina aponta que, muitas vezes, a telenovela ou a série pode ser escolhida em detrimento de algum outro recurso, como a leitura de uma obra, e o trabalho com tais mídias não deve ser excludente. “Uma coisa não elimina a outra. A questão é trabalhar o desenvolvimento das capacidades dos alunos. A contribuição deles é muito válida e precisa ser valorizada”, finaliza.

Para apoiar educadores, o Centro de Referências em Educação Integral selecionou algumas produções, relacionando-as com questões e temáticas de diferentes regiões brasileiras ou que apresentam outras temáticas interessantes para discussão em sala de aula.

cavalgada-rural-mtAna Raio e Zé Trovão

Exibida pela extinta Rede Manchete de Televisão, Ana Raio e Zé Trovão conta a história de uma peoa, órfã de mãe, nascida no sul do país e que foi violentada aos treze anos por um capataz de nome Cangerê. A protagonista Ana Raio fica grávida de uma menina chamada Maria Lua. Canjerê que havia sido acusado por roubo pelo pai da Ana, rapta a criança e desaparece. Fora do eixo Rio-SP, a novela acaba por ampliar o cenário cultural brasileiro e também a tratar de hábitos comuns à população rural, com menção às vestimentas, músicas e vocabulário.

Exibida entre 2009 e 2010, a novela Araguaia tem em sua trama central o drama do protagonista Solano, a partir de uma maldição indígena lançada sobre a sua família, em 1845. Outro assunto trazido à tona pela novela é o mal de Alzheimer sofrido pela personagem Mariquita; a temática é trazida a partir do comportamento da doente e as dificuldades enfrentadas por ela e sua família.

As histórias de Jorge Amado e algumas narrativas do Nordeste brasileiro

A minissérie Dona Flor e seus dois Maridos  (baseada em obra de Jorge Amado) tem Salvador como o cenário da trama que mistura a história de uma mulher que ama dois homens ao mesmo tempo com a cena boêmia da capital baiana. Elevador_Lacerda_Salvador_BahiaAlém de ricas passagens sobre a cultura baiana, a história apresenta variadas anedotas sobre religião, casamento e sobre uma vizinhança que insiste em “bisbilhotar” na vida alheia.

Adaptada do romance Gabriela, Cravo e Canela, outra obra de Jorge Amado, a novela Gabriela teve sua primeira exibição em 1975 e, depois, em 2013. A trama, de 132 capítulos, tinha como pano de fundo o ano de 1925 e a cidade de Ilhéus, ao sul da Bahia. A Usando como pano de fundo a expansão da cidade, que vivia o boom do plantio e comercialização do cacau, a trama conta a história da personagem Gabriela, vítima da seca, que migra para Ilhéus para tentar transformar a vida, assim como faziam diversas famílias no dado período histórico. A novela traz ainda marcas da sociedade patriarcal baiana, a partir de figuras como o coronel Ramiro Bastos, um fazendeiro que tem domínio político sobre a região, mostrando a prática do coronelismo, presente em muitos municípios da região na época e também nos dias de hoje.

Adaptação da literatura

Outra adaptação literária, a minissérie Hilda Furacão, baseada em livro homônimo de Roberto Drummond,  narra a vida de uma socialite que escandaliza a sociedade mineira dos anos 1950 e 1960 ao se transformar em meretriz. Hilda Gualtieri Müller, uma bela moça da alta sociedade, desiste do casamento no dia da cerimônia, rompe com a família e vai morar na zona boêmia de Belo Horizonte. Polêmica, a novela apresenta também como Hilda virou o ícone controverso – “amada por muitos, odiada por outros” -, de toda uma sociedade, mobilizando, inclusive, a paixão de um jovem padre.

Adaptada também de um romance, a obra “A emparedada da rua nova” de Carneiro Vilela,  foi adaptada para a televisão como a minissérie Amores Roubados e trouxe uma história de desejo e obsessão, apresentando a região vinícola de Pernambuco como um palco de contradições. Além da história de um protagonista que se envolve com mulheres casadas ou “proibidas”, a história apresenta um outro lado do sertão nordestino – o de grandes e ricos industriais, envolvidos com a crescente produção de vinhos do país. No livro, a trama se passa em Recife e foi publicada em capítulos, relembrando os antigos folhetins.

Outra novela que marcou a teledramaturgia brasileira e que traz um outro retrato da vida baiana é Renascer , que foi ao ar em 1993. Na trama, a vida rural e a cultura do interior da Bahia davam o tom da narrativa, misturado ao drama que conta a rejeição de um pai sobre o filho, após a esposa morrer no parto. A novela é um meio de se conhecer os ritos, regionalismos e mitologias baianas como a festa do Bumba, na qual um dos personagens fazia questão de participar. A produção de cacau também aparece como um cenário fundante, que dita as relações sociais e econômicas da região.

O tema do latifúndio, presente em Gabriela, também é tema recorrente na minissérie O Pagador de Promessas , adaptação da peça de Dias Gomes. Criada originalmente por 12 capítulos, o conteúdo composto por temas críticos, como as lutas do movimento dos trabalhadores sem-terra e a reforma agrária, foi censurado, restando apenas oito capítulos. A luta dos posseiros contra os latifundiários, misturadas à vida cotidiana das personagens, faz um resgate histórico sobre as lutas de classes no estado. Cultura e religião também são aspectos que podem ser analisados, já que a trama apresenta a mistura do catolicismo ao candomblé, e como as tantas religiões constituíram um imaginário comum no Brasil.

Exibida em 2013, a novela Flor do Caribe se passa no Rio Grande do Norte e tem em sua trama principal o amor de um casal apaixonado que sofre pela ganância e desejo de vingança de um rico empresário. Na fictícia Vila dos Ventos, a guia de turismo e bugueira Ester vive uma forte paixão por Cassiano, piloto do esquadrão de caças da Aeronáutica, em alusão à base da aeronáutica americana, famosa por sua presença no Rio Grande do Norte na década de 60. O casal tem seus planos interrompidos por um vilão, em uma estrutura clássica do melodrama: o “mocinho e a mocinha” sofrem nas mãos do vilão. Além disso, a novela retrata o bullying escolar sofrido pelo personagem Lipe, filho de Bibiana e Donato. O menino, aluno exemplar, é ofendido e chega a ser agredido pelo colega Matheus; Quirino, o professor de história, procura os pais do garoto e sugere que procurem a direção da escola e os professores. Com o apoio da família, Lipe consegue superar o problema.

Exibida entre 2004 e 2005, a novela Senhora do Destino  teve sua trama dividida em duas partes, discutindo a questão das migrações no país. No início, contou a história da nordestina Maria do Carmo Ferreira da Silva que, ao ser abandonada pelo marido, segue com seus cinco filhos do interior de Pernambuco para o Rio de Janeiro. Na segunda parte da trama, a novela apresenta a capital fluminense em grande diversidade – incluindo regiões e bairros populares que tradicionalmente eram excluídas das tramas. Também são temas abordados pela novela: jogo do bicho e as escolas de samba, violência contra a mulher, uso de drogas, gravidez na adolescência, e, novamente, a vida de um personagem com mal de Alzheimer.

Exibida em 1994, a novela Tropicaliente usou como pano de fundo as imagens e o imaginário nordestino – dessa vez o litoral cearense apresentando uma trama marcada por histórias de amor em meio às diferenças de classe. Na trama, a rica e rebelde Letícia tem 17 anos e, contrariando a vontade do pai, o industrial Gaspar, abandona a família e o conforto em que vive para morar em uma cabana de praia com seu grande amor, Ramiro, um pescador sete anos mais velho do que ela. Um dia, Ramiro sai para pescar e acaba passando três meses em alto-mar. Certa de ter sido abandonada por seu amor, Letícia decide voltar para a casa dos pais e terminar os estudos fora do Brasil. Novamente na estrutura clássica de melodrama, o casal passa por inúmeras provações até encontrar a tão esperada felicidade.

Cenários de uma São Paulo urbana

Inspirada no romance de Maria José Dupré, a novela Éramos Seis foi exibida a primeira vez em 1994. A produção traz a vida de uma família composta por um casal e seus quatro filhos. A narrativa descreve a vida do início do século XX em São Paulo, como era o cotidiano dos operários paulistas e também o dia a dia no interior da cidade, onde viviam algumas das personagens. sao_paulo_cidadeA partir da novela é possível resgatar o lado humano da Revolução Cosntitucionalista de 1932; o sofrimento das mães ao verem seus filhos partindo e como uma pacata família da cidade também foi atingida pelo episódio.

A novela Amor à Vida, exibida entre 2013 e 2014, trouxe uma história que girou em torno das disputas e conflitos que aconteciam em uma rica família pelo controle de um hospital, o renomado San Magno, na capital paulista. A narrativa apresenta dramas familiares em diferentes contextos, em uma São Paulo plural, marcada por diferentes contrastes sociais. A novela também apresentou o personagem Félix, que protagonizou o primeiro beijo entre dois homens em dramaturgia na televisão brasileira.

Tempos idos

Exibida em 2002, a minissérie A Casa das Sete Mulheres, baseada em livro de mesmo nome escrito por Wierzchowski, retrata a vida das mulheres da família de Bento Gonçalves, um dos líderes da Revolução Farroupilha (1835- 1845), que tinha como objetivo a independência da província do Rio Grande do Sul do restante do Brasil imperial. Enquanto os homens iam para os combates, as mulheres ficaram refugiadas em uma fazenda. 789px-MuseuJulio11E em meio a amores e angústias geradas pela Guerra dos Farrapos, a minissérie traz um recorte da história brasileira, as revolução que marcou a região sul, os costumes, a culinária e vestimentas. Os cenários também mostram a geografia do sul do Brasil, colaborando para conhecer um pouco dessa parte do país.

Outra obra de abordagem história, foi a obra Xica da Silva, exibida entre os anos de 1996 e 1997, pela extinta Rede Manchete de Televisão, com várias cenas gravadas em Minas Gerais, exaltando a beleza da região da Chapada Diamantina. A trama contou a história de uma escrava que virou rainha em pleno século XVIII. Atrevida e muito inteligente, Xica conquistou um marido rico, deixou de ser escrava e escandalizou a sociedade hipócrita de sua época, movida pela cobiça do diamante. A novela resgata o momento em que o Brasil deixava a economia açucareira para a mineradora, com a extração de diamante, responsável por profundas mudanças na vida colonial.

Trazendo um assunto mais contemporâneo da história brasileira, a minissérie JK narra os 74 anos de vida de Juscelino Kubitschek, desde a infância pobre em Diamantina (MG), passando pela ascensão ao cargo de Presidente da República até o acidente automobilístico que lhe tirou a vida, em 1976. Além de contemplar seu papel como homem público, a trama aborda a vida pessoal de Juscelino, reunindo histórias de um homem comum com seus amigos, família e amores. Dividida em três partes, a minissérie se debruça brevemente sobre a infância de JK e dedica apenas um capítulo para essa parte.

Várias obras discutiram direta ou indiretamente a ditadura militar brasileira. Entre elas a novela do SBT, Amor e Revolução, construída inclusive, a partir de relatos de militantes que lutaram contra a opressão do regime, e a minissérie Anos Rebeldes, que conta a história de um grupo de jovens cujas vidas foram profundamente marcadas pelos eventos do regime.

Estudantes, crianças e juventudes

A novela Coração de Estudante, exibida pela TV Globo em 2002, teve entre seus pilares a preservação do meio ambiente e o exercício da cidadania, dois temas muito significativos na Educação Integral, e que vem ganhando bastante força nas últimas edições do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e nas orientações curriculares para o ensino fundamental e médio. O Programa Mais Educação tem dois eixos temáticos justamente sobre educação para o meio ambiente e participação e exercício da cidadania.

A trama principal conta a história do professor de Biologia Edu, um homem idealista que se muda com o filho Lipe para a charmosa e fictícia cidade de Nova Aliança, em Minas Gerais, em busca de qualidade de vida. A novela ainda trouxe à tona discussões sobre a Síndrome de Down – a personagem Amelinha, noiva de Edu, tem um filho portador da síndrome e aprende a lidar com as questões; também há os males associados ao uso de drogas, situação vivida pela personagem Mariana, que teve que se afastar do filho por não ter condições físicas e mentais de criá-lo. Outros assuntos comuns à trama também podem estimular a reflexão de estudantes, tais como: reforma agrária, incentivo aos estudos, gravidez na adolescência, estímulo ao uso de preservativo, alcoolismo, trabalho voluntário comunitário, saneamento básico e higienização de alimentos. Os diferentes conteúdos podem ser aproveitados para atividades de debate, pesquisa ou mesmo para ilustrar temáticas curriculares abordadas nas disciplinas.

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Levada ao ar entre 1993 e 1994, a novela Sonho Meu é inspirada nas novelas A Pequena Órfã, exibida pela TV Excelsior em 1968, e Ídolo de Pano, produzida pela TV Tupi em 1974, ambas de Teixeira Filho. A novela conta o drama de Claudia Lins , que perde a guarda da filha, Maria Carolina  para a cunhada Elisa, devido às constantes brigas com o marido, o violento Geraldo. A menina é deixada pela tia em um orfanato no Rio de Janeiro. A novela ainda aborda a leucemia por meio da personagem Maria Carolina; a doença da menina propiciou a discussão sobre doação de sangue.

Manaus1Amazônia contemporânea

Em Além do Horizonte, Lili, Rafa e William estão dispostos a explorar um novo mundo. À procura de pessoas queridas que desapareceram sem explicações, esses três jovens se conhecem e, juntos, descobrem que é preciso ir muito além do horizonte para desvendar os mistérios que envolvem suas famílias. Nesta jornada pelo norte do país, os jovens descobrem pistas que sugerem que existe um lugar, muito distante dali, onde a vida pode ser plena e transformadora.

Com diferentes temáticas para serem abordadas, as telenovelas podem ser discutidas tanto pela sua estrutura narrativa, construção de personagens e tramas, quanto pelas temáticas que apresentam.

 Na Prática

Um exemplo de trabalho com telenovelas na escola foi realizado pelo Colégio São José, de Natal (RN), quando os estudantes do 7º ano, nas aulas de língua portuguesa produziram uma ampla pesquisa sobre a teledramaturgia brasileira, analisando o conteúdo e as construções de 25 obras. Violência doméstica, tráfico de pessoas e doação de órgãos foram alguns dos temas apresentados pelos alunos, que ainda se caracterizaram como personagens das produções estudadas.

 

Escola

Como trabalhar com o folclore em sala de aula?